Mostrando postagens com marcador governo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador governo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 25 de julho de 2022

A vida urbana medieval iluminada pela luz católica

Construção cidades. A cidade medieval

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Desde quando acabam as invasões, a vida ultrapassa os limites do domínio senhorial. As famílias não se bastam mais a si próprias.

Toma-se então o caminho da cidade, o tráfico se organiza, e logo, vencendo as muralhas, surgem os burgos.

É então, a partir do século XI, o período de grande atividade urbana.

Dois fatores de vida econômica, até aqui secundários, vão tomar uma importância de primeiro plano: o artesanato e o comércio.

Desde o começo a burguesia manteve um lugar preponderante no governo das cidades, uma vez que os reis, sobretudo a partir de Filipe o Belo, voluntariamente tornavam procuradores os burgueses, com seus conselhos, administradores e agentes do poder central.

Nada mais ciumentamente guardado do que as liberdades comunais, uma vez adquiridas.


A Idade Média obtém, desta maneira, esse necessário rompimento com o passado, tão difícil de se realizar na evolução normal da sociedade.

É muito provável que, se este ajustamento para os direitos e privilégios da nobreza se tivesse feito no tempo oportuno, muitas desordens teriam sido evitadas.

A realeza dá o exemplo desse movimento pela outorga de liberdades às comunas rurais.

Thann, Alsacia, A cidade medievalA “Carta de Lorris”, concedida por Luís VI, suprime as “corvées”, a servidão; reduz as contribuições, simplifica o processo de justiça; e estipula além disso a proteção dos mercados e das feiras:

“Nenhum homem da paróquia de Lorris pagará quaisquer taxas ou direitos por aquilo que é necessário à sua subsistência, nem pelas colheitas feitas por trabalho seu ou de seus animais, nem pelo vinho que obteve de suas vinhas.

“A ninguém será exigida cavalgada ou expedição que não permita voltar no mesmo dia para casa, caso queira.

“Ninguém pagará pedágio para Étampes, Orléans, Milly, Gâtinais e Melun.

“O que tiver sua propriedade na paróquia de Lorris estará isento do seu confisco, se cometer alguma falta, a menos que seja contra Nós ou nossa gente.

“Ninguém que venha às feiras ou ao mercado de Lorris, ou que delas volte, poderá ser preso ou atormentado, a menos que tenha cometido alguma falta nesse dia.

“Ninguém, nem Nós nem outros, poderá impor a “talha” aos homens de Lorris.

“Nenhum dentre eles fará “corvée” para Nós, a não ser uma vez ao ano, e para levar nosso vinho a Orléans e não além.

“Todo aquele que permanecer um ano e um dia na paróquia de Lorris sem que ninguém proteste, e desde que não tenha sido proibido por Nós nem por nosso representante, daquele dia em diante será livre”.
A pequena vila de Beaumont recebe pouco depois os mesmos privilégios, e logo o movimento se delineia por todo o reino.

Puy l'Évèque. A cidade medievalA história da evolução de uma cidade na Idade Média é um dos espetáculos mais cativantes.

Cidades mediterrâneas, como Marseille, Arles, Avignon ou Montpellier, rivalizando pela sua audácia com as grandes cidades italianas no comércio de aquém-mar; centros de tráfico, como Laon, Provius, Troyes ou Le Mans; núcleos de indústria têxtil, como Cambrai, Noyon ou Valenciennes; todas demonstraram um ardor, uma vitalidade sem igual.

Obtiveram, além do mais, a simpatia da realeza. Já que as cidades libertas entravam na enfiteuse real, não procuravam elas por este fato, em seu desejo de emancipação, a dupla vantagem de enfraquecer o poder dos senhores feudais e aumentar com isso inesperadamente o domínio real?

Em todo caso, o que é comum a todas as cidades é a diligência com que procuram fazer confirmar essas preciosas liberdades que adquiriam, e sua pressa em se organizar, escrever seus costumes, regular suas instituições a respeito das necessidades que lhes eram peculiares.

Seus usos diferiam conforme a especialidade de cada uma delas: tecelagem, comércio, metalurgia, aproveitamento do couro, estaleiros e outras.

Budapest medieval
Cada cidade possuía, num grau difícil de se imaginar em nossos dias, sua personalidade própria, não somente exterior mas interior, em todos os detalhes de sua administração, em todas as modalidades de sua existência.

Em geral elas são, pelo menos no sul, dirigidas por cônsules, cujo número varia: dois, seis, e algumas vezes doze; ou ainda um só reitor reúne o conjunto dos encargos em suas mãos, sendo assistido por um juiz representante do senhor, quando a cidade não possui a plenitude das liberdades políticas.

Praça medieval, séculos XII-XIIIMuitas vezes ainda, nas cidades mediterrâneas, recorre-se ao sistema de alcaides, instituição muito curiosa.

O alcaide é sempre um estrangeiro (os de Marseille são todos italianos), ao qual confia-se o governo da cidade por um período de um ou dois anos. Em toda parte onde foi empregado, este regime foi satisfatório.

Em todo caso, a administração da cidade compreende um conselho eleito pelos habitantes — geralmente por sufrágio restrito ou a vários graus — e por assembléias plenárias, reunindo o conjunto da população, mas cujo papel é sobretudo consultivo.

As representações das corporações possuem sempre um lugar importante, e sabe-se bem qual foi o papel desempenhado pelo representante dos comerciantes em Paris nos movimentos populares do século XIV.

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge” - Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)





GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS

Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 30 de maio de 2022

A personalização dos cargos enchia de dignidade
todas as classes sociais

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs









continuação do post anterior: Majestade e dignidade até no simples chefe de família popular


Essa grandeza pessoal, como afirmamos, provém da consciência da dignidade humana levada ao seu mais alto grau.

Quando, porém, além de ter em si a dignidade comum a todos os homens e própria a todo católico, a pessoa acrescenta a isto um outro título – senhora, por exemplo, de um reino, de um Estado, de uma instituição – algo se lhe acrescenta que a engrandece ainda mais.

O mesmo não acontece quando alguém é um mero funcionário de um Reino ou de uma República, pois ao deixar o cargo torna-se apenas um ex-presidente, por exemplo, e nada mais.

É preciso que a pessoa esteja fundida em determinada coletividade humana, e seja pessoalmente a proprietária da direção dessa coletividade, por vinculação pessoal, para que acresça realmente sua pessoa de uma dignidade, que é uma participação da dignidade daquela coletividade humana.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Majestade e dignidade até no simples chefe de família popular

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








continuação do post anterior: A participação na propriedade e no governo medieval

Estudando essa idéia da participação do poder real na hierarquia feudal, chegamos a uma consideração de outra ordem, relacionando a distinção pessoal de cada homem com a dignidade que lhe confere a função ou o cargo que ocupa.

Tipos de grandeza na hierarquia feudal

Quando nos referimos ao rei, dizemos que ele tem uma tal grandeza que chamaríamos de majestade.

Nesse conceito, a majestade é aquele tipo de grandeza que constitui propriamente o seu pináculo, e que corresponde ao poder real.

Abaixo do rei, seria impróprio dizer que um duque, por exemplo, tem majestade. Diríamos que ele tem elevação, alteza, distinção, eminência, mas não majestade.

A alteza, a distinção, a eminência, são o próprio dom da majestade, mas num grau menor.

Do mesmo modo, não podemos nos referir a um conde, a um marquês, como nos referiríamos a um duque, dizendo que tem alteza ou eminência. A expressão seria demasiada.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

A participação na propriedade e no governo medieval

São Luís, rei da França.
São Luís, rei da França.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








continuação do post anterior: Os cargos pertenciam a uma família e não ao funcionalismo público

Graus diversos de participação na propriedade

Na Idade Média, quando se fala de Estado, fala-se de dinastia.

E quando se fala de dinastia, fala-se do rei que personifica a dinastia e o Estado. Em relação aos dias de hoje, não poderíamos dizer o mesmo. Tomemos ao vivo um exemplo.

Ninguém poderia dizer, hoje em dia, que a rainha Elisabeth II é a Inglaterra.

Ela é uma inglesa bem situada, de muito prestígio social, simpática, esperta, como uma magnífica atriz num grande palco, vivendo como se fosse rainha, usando jóias dignas de uma antiga rainha.

Mas, na ordem concreta dos fatos, a Inglaterra praticamente não tem rainha.

Na Idade Média, pelo contrário, o Estado era personificado pelo rei e por todos aqueles que participavam do poder real, fazendo assim com que o Estado fosse profundamente pessoal.

Nos dias de hoje ele é inteiramente impessoal. Algo de análogo poderia dizer-se de vários dos Estados não monárquicos da Idade Média.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Os cargos pertenciam a uma família e não ao funcionalismo público

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




As associações e as fundações segundo o Direito

Em Direito podem-se distinguir duas espécies de pessoas jurídicas: as associações e as fundações. Associação é, pelo menos na prática, um conjunto de pessoas que são ou podem vir a ser coletivamente proprietários de um determinado patrimônio, conforme a sociedade possua ou não bens.

O direito de propriedade de cada um dos membros da associação sobre esse patrimônio é tal, que podem, em determinadas condições, dissolver a sociedade por mútuo acordo, dividindo os bens entre si.

Se quiserem, podem também fazer doação do patrimônio para outra sociedade, e se lhes aprouvesse poderiam até queimá-lo. Isto porque os membros de uma sociedade, coletivamente falando, exercem sobre o patrimônio social a plenitude da propriedade.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A tradição familiar, as estirpes e o governo do Estado

Festa de aniversário, William Powell Frith (1819 – 1909), Mercer Art Gallery, Harrogate Museums and Arts
Festa de aniversário, William Powell Frith (1819 – 1909), Mercer Art Gallery, Harrogate Museums and Arts
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior: Por que os filhos parecem com os pais As forças misteriosas da hereditariedade




Três elementos – a hereditariedade de corpo, de alma e o ambiente moral – completados com outros, como a expressão da mentalidade da família no modo de ser cortês, no modo de conversar, de decorar a casa, de cozinhar, de tratar os negócios, no modo até de conceber as relações afetivas, o casamento, o noivado, etc, todo este conjunto constitui a tradição que uma família transmite.

Se estas forças podem ser extraídas, desenvolvidas e firmadas pela família, a família deve produzir esta tradição.

Chamamos estirpe uma família que assim produz uma tradição: um tipo físico muito continuado, um tipo de constituição psíquica e nervosa muito definida, um tipo de virtudes, e às vezes também de defeitos muito definidos, um sistema de vida, um estilo de existência, tudo muito definido.

Estirpe é uma família que carreia consigo uma grande densidade de tradição, sob todos estes aspectos, e que constitui um todo homogêneo e igual a si mesmo, através de vários séculos.

Os homens passam, a estirpe é sempre a mesma; como um rio, em que a água passa, mas ele é sempre o mesmo.

Esta noção de estirpe precisa ser completada.

Alegria numa família popular, Jan Steen, (1668)
Alegria numa família popular, Jan Steen, (1668)
Não há estirpes somente na classe nobre, mas em todas as classes sociais.

Se ela é o produto natural do desenvolvimento da família, e se esta é chamada pelos desígnios da Providência a desenvolver-se, devemos ter séries e séries de estirpes em todos os graus da hierarquia social.

Estirpes de padeiros, de príncipes, de lixeiros, de joalheiros, de cantores.

É o conjunto destas estirpes que constitui a nação.

E a nação não apenas no presente, mas como uma continuidade histórica, no passado, no presente e no futuro.

O Brasil de hoje é o mesmo Brasil de outrora porque descende das mesmas e antigas estirpes, conservando uma identidade de tradição.

Porém, à medida que estas estirpes vão se desbotando e sendo substituídas por novas, sem verdadeira tradição, ele já não é mais o mesmo.

Este é um processo multissecular.

O Egito de hoje já não é o Egito de outrora, pois as estirpes não são as mesmas.

O que nasceu no feudalismo, tanto nas cidades como nos campos, foi um conjunto enorme de homens que formaram estirpes.

Este conjunto de estirpes, e de organizações com base em estirpes, é que propriamente constituiu a Idade Média.

O que ela teve de mais intrínseco e arraigado foi esta estrutura de estirpes, vivificada pelo espírito de família.

A Igreja ama e favorece as estirpes


Por que razão a Revolução detesta esta ordem de coisas? Porque é a menos igualitária delas.

Casamento, Giulio Rosati (1858–1917)
Casamento, Giulio Rosati (1858–1917)

A afirmação de que os homens não só são desiguais depois de nascidos, mas o são antes mesmo de nascerem, é abominável aos revolucionários.

Nesta concepção, via de regra o futuro do indivíduo está pré-estabelecido pelo aproveitamento que o seu livre arbítrio dará, conforme corresponda ou não à graça de Deus, às riquezas que a hereditariedade nele depositou.

Ainda que aproveite muito, não será mais do que aquelas riquezas o permitirem.

E elas são muito desiguais.

Chegamos assim a uma desigualdade hereditária, que é o contrário do que a Revolução Francesa afirmara.

Ela quis fazer crer a igualdade de todos os homens.

Tolerou, por não ter outra solução, a desigualdade baseada no mérito.

Mas esta tradição, resultado de um conjunto de méritos passados, que dá ao homem uma formidável vantagem sobre os demais, este elemento de desigualdade, jamais ela toleraria.

A desigualdade fundamental que afirmamos está necessariamente ligada às estirpes e à organização da família.

A estirpe é contrarrevolucionária ainda por outro aspecto.

Tomemos como exemplo algum clube: o Harmonia, em São Paulo, um clube grã-fino.

Brinde de muitas gerações em família, P.S. Krøyer, 1888
Brinde de muitas gerações em família, P.S. Krøyer, 1888
É puramente artificial, meramente convencional.

Poderia chamar-se Lírio Azul, ter sua sede num bairro proletário e constar de outros sócios.

A estirpe, não: é como deve ser, e não pode deixar de ser daquele modo.

Ela constitui uma espécie de personalidade coletiva de cada um.

Cada qual será ele mesmo na medida em que estiver integrado em sua estirpe, e desenvolver as qualidades próprias a ela; não poderá ser outra coisa, não poderá querer para si algo que era próprio dos príncipes Condés.

Cada qual só conseguirá ser o que é, da melhor forma que puder.

Se esta personalidade coletiva se romper ou truncar, é sua própria personalidade que ficará ferida.

Cada homem não pode deixar de fazer parte da sua estirpe.

Se esta sofrer algum detrimento, é ele que sofrerá.

A sua mentalidade é um fragmento dela.

O natural da pessoa é estar integrada num todo com o qual tenha conaturalidade.

As estirpes e o Estado


Se houver uma família com caracteres bem definidos, espraiando-se numa parentela muito remota, mas muito unida, em que todos tenham a sensação viva de serem membros da mesma família, cada membro será amparado por um grupo social independente do Estado.

A família é uma potência, um todo, move-se independentemente do Estado, constitui uma célula com a qual o Estado tem que contar.

Seus membros não dependem de Institutos de Previdência; se empobrecerem, a família os ajudará.

Os parentes constituem o meio de suas relações, que lhes asseguram uma posição social, independente da maneira de se trajarem, etc.

Com instituições desta natureza o Estado pouco pode.

Se alguém nasceu em determinada estirpe, o Estado não a pode promover muito além disso.

Alegoria do bom governo, Ambrogio Lorenzetti (1290 - 1348), Prefeitura de Siena
Alegoria do bom governo, Ambrogio Lorenzetti (1290 - 1348), Prefeitura de Siena
Uma estirpe definida é o fator da própria independência do indivíduo, cria uma barreira contra arbitrariedades do Estado.

Numa sociedade repleta de estirpes há grupos sociais muito importantes, que o Estado deve a todo momento tomar em consideração.

Uma sociedade sem estirpes, onde só há parentescos vagos e as famílias se desbotam, é a sociedade de hoje.

Na organização feudal e medieval a matéria-prima são as estirpes.

São um, dois, dez séculos de continuidade histórica realizada por essas estirpes.

É preciso notar que os historiadores são concordes em afirmar a existência de obras que precisam ser levadas a cabo por várias gerações: a fundação de certos países, o desenvolvimento de certa política, a criação de certas fontes de prosperidade.

A instituição que, de direito natural, assegura a realização da obra histórica através das gerações, é a família.

A estirpe faz com que, ao longo das gerações, uma dinastia realize uma obra: uma família de sineiros aperfeiçoe certo tipo de sinos, uma de viticultores chegue a produzir um vinho excelente, ou uma de professores apure um sistema didático incomparável.

São obras de gerações, e são as obras mais profundas da História.

De direito natural, devem ser desenvolvidas por estirpes.


Continua no próximo post: As famílias na justiça de Deus

GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 22 de março de 2021

Do abismo do caos saiu o inimaginável:
a grande ordem medieval

A Grande Ordem nasceu em meio à derrocada do Império romano
A Grande Ordem nasceu em meio à derrocada do Império romano
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A Idade Média, tal como se apresentava no seu ponto de partida, corria o risco de nunca conhecer senão o caos e a decomposição.

Nasceu de um império desmoronado e de vagas de invasões sucessivas, formada por povos desarmônicos que tinham cada um os seus usos, seus quadros e sua ordem social diferentes, quando não opostos.

Quase todos esses povos bárbaros tinham um sentido muito vivo das castas, da sua superioridade de vencedores.

De ali só poderia sair o mais inconcebível esboroamento, e de fato o apresentou no início.

Contudo, verificamos que nos séculos XII e XIII essa Europa tão dividida, tão perturbada por ocasião do seu nascimento, atravessa uma era de harmonia e de união tal como nunca conhecera.

E talvez não conhecerá mais no decorrer dos séculos.

Ds bárbaros, povos desarmônicos, diferentes ou opostos, só podia resultar o desabamento geral
Dos bárbaros, povos desarmônicos, diferentes ou opostos,
só podia resultar o desabamento geral
Por ocasião da primeira cruzada, vemos príncipes sacrificarem os seus bens e os seus interesses, esquecer as suas querelas para tomarem juntamente a Cruz.

Os povos mais diferentes reuniram-se num único exército.

A Europa inteira estremeceu à palavra de um Urbano II, de um Pedro, o Eremita, mais tarde de um São Bernardo ou de um Foulques de Neuilly.

Vemos monarcas, preferindo a arbitragem à guerra, submeter-se ao julgamento do Papa ou de um rei estrangeiro para regularizar as suas dissensões.

Fato ainda mais notável, encontramo-nos perante uma Europa organizada.

Ela não é um império, não é uma federação — é a Cristandade.

É preciso reconhecer aqui o papel representado pela Igreja e pelo papado na ordem europeia.

Foram, com efeito, fatores essenciais de unidade.

A diocese, a paróquia, confundindo-se frequentemente com o domínio, foram durante o período de decomposição da Alta Idade Média as células vivas a partir das quais se reconstituiu a nação.

As grandes datas que para sempre marcariam a Europa são as da conversão de Clóvis, assegurando no mundo ocidental a vitória da hierarquia e da doutrina católicas sobre a heresia ariana.

E a coroação de Carlos Magno pelo Papa Estêvão II, que consagra o duplo poder espiritual e temporal, cuja união formará a base da cristandade medieval.

É preciso ter em conta, de uma maneira mais geral, a influência do dogma católico que ensina que todos os filhos da Igreja são membros de um mesmo corpo, como o lembram os versos de Rutebeuf:

Tous sont un corps en Jésus-Christ,

Dont je vous montre par l’écrit

Que li uns est membre de l’autre.


Todos somos um só corpo em Jesus Cristo,

E assim eu vos mostro, pelo que está afirmado,

Que nós somos membros d’Ele.

Busto-relicário de Carlos Magno. Fundo: cúpula da catedral de Aquisgrão, sua capital.
Busto-relicário de Carlos Magno.
Fundo: cúpula da catedral de Aquisgrão, sua capital.
A unidade de doutrina, vivamente sentida na época, jogava a favor da união dos povos.

Carlos Magno compreendera-o tão bem que, para conquistar a Saxônia, enviava missionários de preferência a exércitos, e o fazia por convicção, não por simples ambição.

A história repetiu-se no Império Germânico com a dinastia dos Otões.

A Cristandade pode definir-se praticamente como a “universidade” dos príncipes e dos povos cristãos obedecendo a uma mesma doutrina, animados de uma mesma fé, e reconhecendo desde logo o mesmo magistério espiritual.

Esta comunidade de fé traduziu-se numa ordem europeia assaz desconcertante para cérebros modernos, bastante complexa nas suas ramificações, grandiosa contudo quando a examinamos no seu conjunto.

A paz na Idade Média foi muito precisamente, segundo a bela definição de Santo Agostinho, “a tranquilidade da ordem”.




(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 8 de março de 2021

O rei vive em meio do povo e partilha sua sorte

O Soberano da Ordem de Malta em conselho de guerra
O Soberano da Ordem de Malta em conselho de guerra
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Alguém fez notar que nada há de menos autocrata que um monarca medieval.* Nas crônicas, nas narrativas, trata-se sempre de assembleias, de deliberações, de conselhos de guerra.

* – Citemos esta passagem muito pertinente de A. Hadengue, na sua obra Bouvines, victoire créatrice:

“Os conselhos de guerra estão muito em uso nos estados-maiores dos exércitos da Idade Média. Sem cessar, vêm à pena dos cronistas as mesmas referências a eles.

No século XIII, um chefe militar não comanda, não decide à maneira de um general onipotente.

A sua autoridade é feita de colaboração, de confiança, de amizade. Está em dificuldade? Senta-se ao pé de uma árvore, chama os seus altos barões, expõe os fatos, recolhe as opiniões.

A sua opinião pessoal não prevalece sempre. ‘Cada um diz a sua razão’, como escreve Philippe Mouskès (pp. 188-189)”.