segunda-feira, 29 de abril de 2024

Como viviam os estudantes universitários.
O ensino na Idade Média – 4

Universidade Jagelônica, Cracóvia, Polônia
Universidade Jagelônica, Cracóvia, Polônia
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








continuação do post anterior

No conjunto, o estudante do século XIII não tem uma vida muito diferente da do século XX.

Conservaram-se e publicaram-se cartas dirigidas aos pais ou a colegas (Cf. Haskins, The life of medieval students as illustrated by their letters, in American Historical Review, III (1892), nº 2), que revelam aproximadamente as mesmas preocupações de hoje: os estudos, os pedidos de dinheiro e de provisões, os exames.

O estudante rico morava na cidade com o seu criado, os de condição mais modesta hospedavam-se em casas de burgueses do bairro Sainte-Geneviève e faziam-se exonerar de toda ou parte das suas taxas de inscrição na faculdade.

Encontramos frequentemente à margem, nos registros, uma menção indicando que fulano ou beltrano nada pagou, ou só pagou metade da remuneração, propter inopiam (devido à sua pobreza).

O estudante desprovido de recursos faz frequentemente pequenos trabalhos para viver. É copista, encadernador nos livreiros que têm loja na Rue des Écoles ou na Rue Saint-Jacques.

Além disso, pode ser custeado de cama e mesa nos colégios instituídos. O primeiro deles foi criado no Hôtel-Dieu de Paris por um burguês de Londres que, no regresso de uma peregrinação à Terra Santa, pelo fim do século XII, teve a ideia de fazer uma obra piedosa favorecendo o saber nas pessoas de modesta condição.


Deixou uma fundação perpétua, encarregada de albergar e de alimentar gratuitamente dezoito estudantes pobres, que só ficavam sujeitos a velar os mortos do hospital e a levar cruz e água benta por ocasião dos enterros.

Um pouco mais tarde fundaram-se de igual modo o colégio Saint-Honoré e o de São Tomás no Louvre, seguidos de muitos outros.

Pouco a pouco, ganhou-se o hábito de organizar nesses colégios sessões de trabalho em comum, como nos seminários alemães, ou os grupos de estudos que funcionam desde alguns anos antes nas nossas faculdades.

Os professores vieram aí lecionar, alguns fixaram-se, e por vezes o colégio tornou-se mais frequentado do que a própria universidade, como acontece com o colégio da Sorbonne.

No conjunto havia todo um sistema de bolsas, não oficialmente organizado, mas correntemente em uso, e que se aparentava com a Escola Normal Superior francesa, menos o exame de entrada, ou ainda aquilo que se pratica nas universidades inglesas, nas quais o estudante bolsista recebe gratuitamente não apenas a instrução, mas ainda cama e mesa, e por vezes vestuário.
 

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge” - Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)




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segunda-feira, 22 de abril de 2024

Como era o aprendizado universitário.
O ensino na Idade Média – 3

A bula Parens scientiarum, de Gregório IX
A bula Parens scientiarum, de Gregório IX
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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continuação do post anterior

Os estudantes mais dotados tomam naturalmente o caminho da universidade.

Fazem a sua escolha segundo o ramo que os atrai, pois cada uma tem algo do que se pode considerar uma especialidade.

Em Montpellier, é a medicina. Desde 1181 Guilherme VII, senhor desta cidade, deu a qualquer particular — quem quer que seja, e venha de onde vier — a liberdade de ensinar esta arte, desde que apresente suficientes garantias de saber.

Orleans tem como especialidade o direito canônico, e Bolonha o direito romano.

Mas “nada se pode comparar a Paris”, onde o ensino das artes liberais e da teologia atrai os estudantes de todos os países – Alemanha, Itália, Inglaterra, e mesmo da Dinamarca ou Noruega.

Estas universidades são criações eclesiásticas, de algum modo o prolongamento das escolas episcopais, das quais diferem no fato de dependerem diretamente do Papa, e não do bispo do lugar.

A bula Parens scientiarum, de Gregório IX, pode ser considerada a carta de fundação da universidade medieval, com os regulamentos promulgados em 1215 pelo cardeal-núncio Roberto de Courçon, agindo em nome de Inocêncio III, e que reconheciam explicitamente aos professores e aos alunos o direito de associação.

Criada pelo papado, a universidade tem um caráter inteiramente eclesiástico.

Os professores pertencem todos à Igreja, e as duas grandes ordens que a ilustram no século XIII – franciscana e dominicana – nela vão cobrir-se de glória com um São Boaventura e um São Tomás de Aquino.

Os alunos, mesmo os que não se destinam ao sacerdócio, são chamados clérigos, e alguns deles usam a tonsura, o que não quer dizer que aí apenas se ensine a teologia, uma vez que o seu programa comporta todas as grandes disciplinas científicas e filosóficas, da gramática à dialética, passando pela música e pela geometria.

Essa “universidade” de professores e estudantes forma um corpo livre. Desde o ano 1200, Filipe Augusto tinha subtraído os seus membros da jurisdição civil — dito de outra maneira, dos seus próprios tribunais.

Professores, alunos e mesmo os criados destes dependem apenas dos tribunais eclesiásticos, o que é considerado um privilégio e consagra a autonomia dessa corporação de elite.

Professores e estudantes estão, portanto, inteiramente isentos de obrigações relativamente ao poder central.

Administram-se a si próprios, tomando em comum as decisões que lhes respeitam, e gerem sua tesouraria sem nenhuma ingerência do Estado.

É esta a característica essencial da universidade medieval, e provavelmente aquela que mais a distingue da de hoje.
Esta liberdade favorece entre as diversas cidades uma emulação.

Durante anos, os professores de Direito Canônico de Orleans e de Paris disputam entre si os alunos.

Os registros da Faculdade de Direito formigam de recriminações aos estudantes parisienses, que vão fraudulentamente concluir a sua licenciatura em Orleans, onde os exames são mais fáceis. Ameaças, anulações, processos, nada surte efeito, e as contestações prolongam-se interminavelmente.

Emulação também a respeito dos professores mais estimados ou menos, das discussões apaixonadas das teses, que os estudantes tomam a peito até ao ponto de algumas vezes entrar em greve.

A universidade, mais ainda do que nos nossos dias, é na Idade Média um mundo turbulento.

É também um mundo cosmopolita. As quatro “nações” entre as quais estavam repartidos os clérigos parisienses indicam-no suficientemente: havia os picardos, os ingleses, os alemães e os franceses.

Os estudantes vindos de cada um destes países eram, portanto, suficientemente numerosos para formar um grupo que tinha a sua autonomia, os seus representantes, a sua atividade particular.

Fora disto, assinalam-se correntemente nos registros nomes italianos, dinamarqueses, húngaros e outros.

Os professores que ensinam vêm também de todas as partes do mundo.

Siger de Brabant e Jean de Salisbury, seus nomes já os identificam; Alberto Magno vem da Renânia; São Tomás de Aquino e São  Boaventura, da Itália.

Não há então obstáculo às trocas de pensamento, e só se julga um professor pela amplidão do seu saber.

Universidade de Oxford, Inglaterra
Universidade de Oxford, Inglaterra
Esse mundo matizado possui uma língua comum, o latim, única falada na universidade.

É sem dúvida o que lhe evita ser uma nova Torre de Babel, apesar dos grupos diversificados de que é composta.

O uso do latim facilita as relações, permite aos sábios comunicar-se de uma ponta à outra da Europa, dissipa de antemão qualquer confusão na expressão, e salvaguarda também a unidade de pensamento.

Os problemas que apaixonam os filósofos são os mesmos em Paris, Edimburgo, Oxford, Colônia, Pavia, ainda que cada centro e cada personalidade lhes imprima o seu caráter próprio.

Tomás de Aquino, vindo da Itália, acaba de esclarecer e ultimar em Paris uma doutrina cujas bases concebera em Colônia, escutando as lições de Alberto Magno.

Nada se parece menos com um vaso fechado do que a Sorbonne do século XIII. Gilles de Muisit resume deste modo a vida dos estudantes:

“Clérigos vêm aos estudos de todas as nações e no inverno se reúnem em vários grupos. Fazem-se leituras e escutam, instruindo-se; no verão regressam muitos às suas regiões”.

O seu vaivém é perpétuo. Partem para alcançar a universidade da sua escolha, voltam para as suas terras nas férias, põem-se a caminho para aproveitar as lições de um professor de nomeada ou estudar uma matéria na qual determinada cidade se especializou.

Já mencionamos as “fugas” dos candidatos aos exames de direito canônico para Orleans, e isto se repete constantemente, por vezes entre cidades muito distantes.

Estudantes e professores são frequentadores das estradas reais. A cavalo e mais frequentemente a pé, percorrem léguas e léguas, dormindo em celeiros ou na hospedaria.

Com os peregrinos e os mercadores, são eles que mais contribuem para a extraordinária animação que na Idade Média reinou nas nossas estradas, e que elas apenas reencontraram no século do automóvel, ou melhor, depois do desenvolvimento dos desportos de ar livre.

O mundo letrado da época é um mundo itinerante. A tal ponto que em alguns o movimento se torna uma necessidade, uma mania.

Nos nossos dias encontramos no Quartier Latin estudantes desses envelhecidos na boemia, que não conseguiram voltar a uma vida normal nem utilizar os estudos cujo peso suportaram durante anos.

Na Idade Média, esse tipo de indivíduos vagueava pela estrada. Era o clérigo vagabundo ou goliardo, tipo bem medieval, inseparável do “clima” da época. “Todo das tabernas e das raparigas”, vai de taberna em taberna em busca de uma “refeição gratuita obtida por manha”, e sobretudo de um copo de vinho; é assíduo dos maus lugares, guarda alguns restos de saber, dos quais se serve para o assombro das boas pessoas, a quem recita versos de Horácio ou fragmentos de canções de gesta; inicia ao acaso dos encontros uma discussão sobre qualquer questão teológica; e acaba por se perder na multidão dos jograis, dos tratantes e dos maltrapilhos, quando não o faz para evitar uma prisão devido a alguma má ação. As suas canções correram a Europa, e o mundo estudantil conhece ainda desses cantos goliardos:

“É meu propósito morrer numa taberna. Que o vinho dê ânimo aos moribundos, e digam coros de anjos com veneração: Que Deus seja benevolente com os bebedores!”

Várias vezes a Igreja teve de proceder severamente em relação a esses clérigos vagabundos (clerici vagi), que mantinham a devassidão e a preguiça no mundo dos estudantes.

Eles são a exceção.

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge” - Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)




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segunda-feira, 15 de abril de 2024

Professores e alunos na escola.
O ensino na Idade Média – 2

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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continuação do post anterior

Os mestres eram quase sempre secundados pelos estudantes mais velhos e mais formados, como atualmente no ensino mútuo. Diz Gilles de Muisit, lembrando as suas recordações de juventude:

“Que bela coisa ver a quantidade de aprendizes: habitavam desvãos e quartos, em comum, filhos de homens ricos e filhos de artesãos”.
De fato, nessa época as crianças de todas as “classes” da sociedade eram instruídas juntas, como o testemunha a anedota célebre de Carlos Magno sendo severo para com os filhos dos barões que se mostravam preguiçosos, ao contrário dos filhos dos servos e de pessoas pobres.

A única distinção estabelecida consistia nas retribuições: ensino gratuito para os pobres e pago para os ricos. 
Esta gratuidade podia prolongar-se por toda a duração dos estudos, e mesmo para o acesso ao ensino, uma vez que às pessoas que têm a missão de dirigir e tomar conta das escolas o concílio de Latrão proíbe “exigir dos candidatos ao professorado uma qualquer remuneração pela outorga da licença”.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

As crianças na escola.
O ensino na Idade Média – 1

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Na Idade Média, como em todas as épocas, a criança vai à escola. Em geral, à escola da sua paróquia ou do mosteiro mais próximo.

Todas as igrejas agregam a si uma escola, pois o concílio de Latrão, em 1179, faz-lhes disso uma obrigação estrita.

É uma disposição corrente, ainda visível na Inglaterra, encontrar reunidos a igreja, o cemitério e a escola.

Frequentemente, são também as fundações senhoriais que asseguram a instrução das crianças: Rosny, uma aldeiazinha das margens do Sena, tinha desde o início do século XIII uma escola, fundada por volta do ano 1200 pelo seu senhor Guy V Mauvoisin.

Por vezes também, trata-se de escolas puramente privadas, quando os habitantes de um lugarejo associam-se para sustentar um professor encarregado de ensinar as crianças.

Um pequeno texto divertido conservou-nos a petição de alguns pais solicitando a demissão de um professor.

Não tendo sabido fazer-se respeitar pelos seus alunos, foi por eles desrespeitado, ao ponto de eles o picarem com os seus grafiones (eum pugiunt grafionibus), isto é, os estiletes com os quais eles escrevem nas suas tabuinhas revestidas de cera.

Mas os privilegiados são evidentemente aqueles que podem aproveitar o ensino das escolas episcopais ou monásticas, ou ainda das escolas capitulares, porque os capítulos das catedrais estavam submetidos à obrigação de ensinar o que o referido concílio de Latrão lhes fixara.

Diz Luchaire: “Em cada diocese fora das escolas rurais ou paroquiais que já existiam, os capítulos e os mosteiros principais tinham as suas escolas, o seu pessoal de professores e de alunos” (La société française au temps de Philippe-Auguste, p. 68).

Algumas adquiriram na Idade Média uma notabilidade muito particular.

Por exemplo, as de Chartres, Lyon, Mans, onde os alunos representavam as tragédias antigas; a de Lisieux, onde no início do século XII o bispo em pessoa se deleitava em ensinar; a de Cambrai, sobre a qual um texto citado pelo erudito Pithou nos informa que elas tinham sido estabelecidas especialmente a fim de serem úteis ao povo na condução dos seus assuntos temporais.

As escolas monásticas tiveram talvez ainda mais renome, como as de Bec e Fleury-sur-Loire, onde foi aluno o rei Roberto, o Piedoso; a de Saint-Géraud d’Aurillac, onde Gerbert aprendeu os primeiros rudimentos das ciências que ele próprio iria levar até um tão alto grau de perfeição; a de Marmoutier, perto de Tours; a de Saint-Bénigne de Dijon, etc.

Em Paris encontram-se desde o século XII três séries de estabelecimentos escolares:

— a escola Notre-Dame, ou grupo de escolas do bispado, cuja direção é assumida pelo chantre para as classes elementares, e pelo chanceler para o grau superior;

— as escolas de abadias como Sainte-Geneviève, Saint-Victor ou Saint-Germain-des-Prés;

— e enfim as instituições particulares abertas por professores que obtiveram a licença de ensino, como por exemplo Abelardo.

A criança era aí admitida com sete ou oito anos de idade, e o ensino que preparava para os estudos da universidade estendia-se como hoje por uma dezena de anos. São os números que fornece o abade Gilles de Muisit.

Os rapazes eram separados das moças, que tinham em geral os seus estabelecimentos particulares, menos numerosos talvez, mas onde os estudos eram por vezes muito ativos.

A abadia de Argenteuil, onde foi educada Heloísa, ensinava às moças a Sagrada Escritura, as letras, a medicina e mesmo a cirurgia, sem contar o grego e o hebraico que Abelardo lá ensinou.

Em geral, as pequenas escolas proporcionavam aos seus alunos as noções de gramática, aritmética, geometria, música e teologia, que lhes permitiriam aceder às ciências estudadas nas universidades.

É possível que algumas tenham comportado uma espécie de ensino técnico.

A Histoire Littéraire cita, por exemplo, a escola de Vassor, na diocese de Metz, na qual, enquanto se aprendia a Sagrada Escritura e as letras, se trabalhava o ouro, a prata, o cobre (Cf. Livro VII, c. 29, citado por J. Guiraud, Histoire partiale, histoire vraie, p. 348).

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge” - Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

Continua no próximo post



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segunda-feira, 1 de abril de 2024

Universidades: genial criação da ordem medieval

Universidade de Oxford, Inglaterra
Universidade de Oxford, a mais antiga do mundo anglófono.
Fundada oficialmente em 998, os indícios de atividade remontam a 1096
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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As cidades medievais foram o marco do aparecimento de uma das máximas criações medievais: a Universidade. 

Hoje elas estão tão difundidas no mundo que as pessoas custam acreditar que não existiram sempre.

Entretanto, elas só conheceram a luz sob o bafejo da Igreja, em cidades que depois ficaram ilustres pelo seu caráter universitário: Coimbra, Oxford, Paris, Bologna, Salamanca...

A lista é intérmina.

Os papas e outros homens da Igreja situaram as universidades entre as grandes jóias da civilização cristã.

Universidade de Coimbra, Portugal, Biblioteca Joanina
Universidade de Coimbra, criada em 1290. Na foto: a Biblioteca Joanina
Era comum ouvir descrever a Universidade de Paris como a “nova Atenas”.


A designação evoca as ambições de Alcuíno quando, vários séculos antes, no período carolíngio, se propunha estabelecer uma nova Atenas no reino dos Francos.

O papa Inocêncio IV (1243‒ 1254) descreveu as universidades como “rios de ciência cuja água fertiliza o solo da Igreja universal”, e o papa Alexandre IV (1254-1261) chamou-as “lâmpadas que iluminam a casa de Deus”.

E é ao apoio dado pelos papas que se devem o crescimento e o êxito do sistema universitário.

Graças a essas intervenções pontifícias ‒ escreve o historiador Henri Daniel-Rops ‒, o ensino superior foi capaz de expandir-se.

“A Igreja foi sem dúvida a matriz de onde saiu a Universidade
, o ninho de onde ela levantou vôo”.
É um fato comprovado que uma das mais importantes contribuições medievais para a ciência moderna foi a liberdade de pesquisa no mundo universitário.

Nele, os acadêmicos podiam debater e discutir as proposições apoiados na certeza da utilidade da razão humana.

Universidade de Cambridge, Inglaterra
Universidade de Cambridge, na Inglaterra, fundada em 1209. Foto: King's College
Contrariamente ao retrato grosseiramente inexato que se tem feito da Idade Média, a vida intelectual medieval prestou contribuições indispensáveis à civilização ocidental.

“Os mestres da Idade Média ‒ concluiu David Lindberg em The Beginnings of Western Science (1992) ‒ criaram uma ampla tradição intelectual, sem a qual o subseqüente progresso na filosofia natural teria sido inconcebível”.
Christopher Dawson, um dos grandes historiadores do século XX, observou que, desde os tempos das primeiras universidades,

“os mais altos estudos eram dominados pela técnica da discussão lógica: a quaestio e o debate público, que tão amplamente determinaram a forma da filosofia medieval, sobretudo nos seus principais expoentes”.

“Nada pode ser perfeitamente conhecido ‒ disse Roberto de Sorbonne ‒ se não tiver sido mastigado pelos dentes do debate, e a tendência a submeter todas as questões, da mais óbvia à mais abstrusa, a esse processo de mastigação não só estimulava a perspicácia e a exatidão do pensamento como, acima de tudo, desenvolvia o espírito crítico e a dúvida metódica a que a cultura e a ciência ocidentais tanto devem”.
O historiador da ciência Edward Grant concorda com esse juízo:

O que foi que tornou possível à civilização ocidental desenvolver a ciência e as ciências sociais de um modo que nenhuma outra civilização havia conseguido até então?

Estou convencido de que a resposta está no penetrante e profundamente arraigado espírito de pesquisa que teve início na Idade Média como conseqüência natural da ênfase posta na razão.

Com exceção das verdades reveladas, a razão era entronizada nas universidades medievais como árbitro decisivo para a maior parte dos debates e controvérsias intelectuais.

Universidade de Salamanca, Espanha
Universidade de Salamanca, Espanha, fundada em 1218,
primeira da Europa que obteve o título oficial de "Universidade".
Os estudantes, imersos em um ambiente universitário, consideravam muito natural empregar a razão para pesquisar as áreas do conhecimento que não haviam sido exploradas anteriormente, assim como discutir possibilidades que antes não haviam sido consideradas seriamente”.
A criação da Universidade, o compromisso com a razão e com a argumentação racional e o abrangente espírito de pesquisa que caracterizou a vida intelectual medieval representaram

“um dom da Idade Média latina ao mundo moderno [...], ainda que nunca se venha a reconhecê-lo.

“Talvez esse dom conserve para sempre a condição de segredo mais bem guardado que a civilização ocidental teve durante os quatro séculos passados”.
Foi um dom da civilização cujo centro era a Igreja Católica.

 


(Fonte: Thomas E. Woods Jr., “Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental”, editora Quadrante, São Paulo, 2008, 222 pp., p. 60-62).



Aula 5: O sistema universitário foi criado pela Igreja. A Igreja Católica: Construtora da Civilização






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