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terça-feira, 7 de março de 2017

Lendas tétricas sobre camponeses medievais
são produto do rancor moderno

Vestido camponês do Vale de Ansó, Aragão, Espanha
Vestido camponês do Vale de Ansó, Aragão, Espanha
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Não deve iludir-nos determinada literatura, em que o vilão muitas vezes está envolvido.

Não passa de testemunho do rancor, velho como o mundo, que sente o charlatão, o vagabundo, pela situação do camponês no domínio, cuja morada é estável, cujo espírito por vezes é lento, e cuja bolsa muitas vezes demora a abrir-se.

A isto se acrescenta o gosto, bem medieval, de zombar de tudo, inclusive daquilo que parece mais respeitável.

Na realidade, nunca foram mais estreitos os contatos entre o povo e as classes ditas dirigentes — neste caso, os nobres.

Contatos estes facilitados pela noção de laço pessoal, essencial para a sociedade medieval, e multiplicados pelas cerimônias locais, festas religiosas e outras, nas quais o senhor encontra o rendeiro, aprende a conhecê-lo e partilha a sua existência, muito mais estreitamente do que, nos nossos dias, os pequenos burgueses partilham a dos seus criados.

A administração do feudo obriga o nobre a ter em conta todos os detalhes da vida dos servos.

Nascimentos, casamentos, mortes nas famílias de servos entram em linha de conta para o nobre, como interessando diretamente o domínio.

Populares na festa do Ommegang, na Bélgica
Populares na festa do Ommegang, na Bélgica
O senhor tem encargos judiciários, donde para ele a obrigação de assistir os camponeses, resolver os seus litígios, arbitrar os seus diferendos.

Tem portanto em relação a eles uma responsabilidade moral, do mesmo modo que suporta a responsabilidade material do feudo em relação ao suserano.

Jovens do Vale do Roncal, Espanha, indo para a Missa principal.
Jovens do Vale do Roncal, Espanha,
indo para a Missa principal.
Nos nossos dias o patrão de fábrica está liberto de qualquer obrigação material e moral relativamente aos operários, a partir do momento em que “passaram pelo caixa para receber o salário”.

Não o vemos abrir as portas da sua casa para lhes oferecer um banquete, por exemplo, na ocasião do casamento de um dos filhos.

No conjunto, uma concepção totalmente diferente da que prevaleceu na Idade Média.

Como disse Jean Guiraud, o camponês ocupa a ponta da mesa, mas é a mesa do senhor.

Poderíamos facilmente dar-nos conta disso examinando o patrimônio artístico que essa época nos legou, e constatando o lugar que o camponês nela ocupa.

Na Idade Média ele está em toda parte: nos quadros, nas tapeçarias, nas esculturas das catedrais, nas iluminuras dos manuscritos.

Em toda parte o encontramos como o mais corrente tema de inspiração.



(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)



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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A lenda do camponês medieval inculto, miserável e desprezado
não passa de lenda

Nobre dirige os trabalhos da agricultura no feudo. Todos os detalhes exibem abundância e boa organização da produção, além de camponeses bem vestidos e educados.
Nobre dirige os trabalhos da agricultura no feudo. Todos os detalhes exibem abundância
e boa organização da produção, além de camponeses bem vestidos e educados.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
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Cabe-nos o direito de aceitar sem contestação a lenda do camponês miserável, inculto (esta é uma outra história) e desprezado, que se impõe ainda em grande número dos nossos manuais de História?

Veremos que o seu regime geral de vida e de alimentação não oferecia nada que deva suscitar piedade.

O camponês não sofreu mais na Idade Média do que sofreu o homem em geral, em todas as épocas da história da humanidade.

Sofreu sim a repercussão das guerras, mas terão elas poupado os seus descendentes dos séculos XIX e XX?

Além disso, o servo medieval estava livre de qualquer obrigação militar, como a maior parte dos plebeus.

E o castelo senhorial era para ele um refúgio na desventura, a paz de Deus uma garantia contra as brutalidades dos homens de armas.

Sofreu a fome nas épocas de más colheitas, como da mesma forma sofreu o mundo inteiro, até que as facilidades de transportes permitiram levar ajuda às regiões ameaçadas.

Mesmo a partir dessa altura... Mas o camponês tinha a possibilidade de recorrer ao celeiro do senhor.

A única época realmente dura para o camponês na Idade Média — que também o foi para todas as classes da sociedade indistintamente — foi a dos desastres produzidos pelas guerras que marcaram o declínio da época.

Período lamentável de perturbações e de desordens, engendradas por uma luta fratricida durante a qual a França conheceu uma miséria que só se pode comparar à das guerras de religião, da Revolução Francesa ou do nosso tempo.

Bandos de plebeus devastando o país, fomes provocando revoltas e insurreições camponesas, e para cúmulo essa terrível epidemia de peste negra, que despovoou a Europa.

Mas isso faz parte do ciclo de misérias próprias da humanidade, e das quais nenhum povo foi isento. A nossa própria experiência basta largamente para nos informar sobre isso.

Terá o camponês sido o mais desprezado?

Talvez nunca o tenha sido menos, de fato, do que na Idade Média. 



(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)



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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O nobre feudal estava submetido
às mesmas obrigações que o servo da gleba

A condição dos camponeses obrigava à proteção e deixava-os livres para trabalhar a terra de que acabaram ficando donos. Parada histórica em Pisa, Itália.
A condição dos camponeses obrigava à proteção e deixava-os livres para trabalhar a terra
de que acabaram ficando donos. Parada histórica em Pisa, Itália.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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É oportuno notar-se que o nobre está submetido às mesmas obrigações que o servo, porque também em caso algum pode ele alienar o seu domínio, ou separar-se dele de qualquer forma que seja.

Nas duas extremidades da hierarquia encontramos essa mesma necessidade de estabilidade e fixação, inerente à alma medieval, que produziu a França e, de uma maneira geral, a Europa ocidental.

Não é um paradoxo dizer que o camponês atual deve a sua prosperidade à servidão dos seus antepassados, pois nenhuma instituição contribuiu mais para o destino do campesinato francês.

Mantido durante séculos sobre o mesmo solo, sem responsabilidades civis, sem obrigações militares, o camponês tornou-se o verdadeiro senhor da terra.

Só a servidão poderia realizar uma ligação tão íntima do homem à gleba, fazendo do antigo servo o proprietário do solo.

Se permaneceu tão miserável a condição do camponês na Europa oriental — na Polônia e em outros lugares — é porque não houve esse laço protetor da servidão.

Nas épocas de perturbação, o pequeno proprietário responsável pela sua terra, entregue a si próprio, conheceu as mais terríveis angústias, que facilitaram a formação de domínios imensos.

Daí um flagrante desequilíbrio social, contrastando a riqueza exagerada dos grandes proprietários com a condição lamentável dos seus rendeiros.

Se o camponês francês pôde desfrutar até aos últimos tempos uma existência fácil, comparada à do camponês da Europa oriental, não o deve apenas à riqueza do solo, mas também e sobretudo à sabedoria das nossas antigas instituições.

Essas fixaram a sua sorte no momento em que tinha mais necessidade de segurança, e o subtraíram às obrigações militares, as quais pesaram depois mais duramente sobre as famílias camponesas.

As restrições impostas à liberdade do servo decorrem todas dessa ligação ao solo.

O senhor tem sobre ele direito de séquito, isto é, pode levá-lo à força para o seu domínio em caso de abandono, porque, por definição, o servo não pode deixar a terra.

Só é feita exceção para aqueles que partem em peregrinação.

O direito de formariage inclui a interdição de se casar fora do domínio senhorial quem se encontrar adscrito ou, como se dizia, “abreviado”.

Mas a Igreja não deixará de protestar contra esse direito que atentava contra as liberdades familiares, e que se atenuou de fato a partir do século X.

Estabelece-se então o costume de reclamar somente uma indenização pecuniária ao servo que deixava um feudo para se casar num outro.

Aí se encontra a origem desse famoso “direito senhorial” sobre o qual foram ditos tantos disparates, e que não significava nada além do seu direito de autorizar o casamento dos servos.

Na Idade Média tudo se traduz por símbolos, e o direito senhorial deu lugar a gestos simbólicos cujo alcance se exagerou.

Por exemplo, colocar a mão ou a perna no leito conjugal, donde o termo “direito de pernada”, por vezes empregado, que suscitou tantas interpretações deploráveis, além de perfeitamente erradas.

O nobre tinha a obrigação de defender a comunidade de burgueses e camponeses, agindo como militar, policial e guardabosques. Parada histórica em Oria, Itália.
O nobre tinha a obrigação de defender a comunidade de burgueses e camponeses,
agindo como militar, policial e guarda-bosques. Parada histórica em Oria, Itália.
A obrigação sem dúvida mais penosa para o servo era a mão-morta: todos os bens por ele adquiridos durante a vida deviam depois da morte regressar para o senhor.

Por isso também essa obrigação foi reduzida desde muito cedo, e o servo ficou com o direito de dispor dos seus bens móveis por testamento (porque a sua propriedade passava de qualquer modo para os filhos).

Além disso, o sistema de comunidades silenciosas permitiu ao servo escapar à mão-morta, conforme o costume do lugar, já que ele podia formar com a família uma espécie de sociedade, como o plebeu, agrupando todos aqueles que pertenciam a um mesmo “pão e pote”.

Como a morte do seu chefe temporário não interrompia a vida da comunidade, continuava esta a desfrutar os bens de que dispunha.

Finalmente, o servo podia ser franqueado.

As franquias multiplicaram-se mesmo a partir do século XIII, já que o servo devia comprar a sua liberdade, quer em dinheiro, quer comprometendo-se a pagar um censo anual como o rendeiro livre.

Temos um exemplo na franquia dos servos de Villeneuve-Saint-Georges, dependente de Saint-Germain-des-Prés, por uma soma global de 1400 libras.

Esta obrigação do resgate explica sem dúvida por que razão as franquias foram muitas vezes aceitas de muito mau grado pelos seus beneficiários.

A ordenação de Luís X, o hutin, que em 1315 franqueou todos os servos do domínio real, deparou em muitos lugares com a má vontade dos “servos recalcitrantes”.

Quando foram redigidos os costumes no século XIV, a servidão só é mencionada nos de Bourgogne, Auvergne, Bourbonnais e Nivernais, e nos costumes locais de Chaumont, Troyes e Vitry. Em todos os demais havia desaparecido.

Algumas ilhotas de servidão muito moderada, que subsistiram aqui e ali, Luís XVI aboliu definitivamente no domínio real em 1779, dez anos antes do gesto teatral que foi a demasiado famosa noite de 4 de Agosto.

Ele convidou os senhores a que o imitassem, pois se tratava de uma matéria de direito privado sobre a qual o poder central não tinha o direito de legislar.

As atas mostram-nos, aliás, que os servos não tinham em relação aos senhores essa atitude de cães espancados, que demasiadas vezes se supôs.

Vemo-los discutir, afirmar o seu direito, exigir o respeito por antigas convenções e reclamar sem rodeios o que lhes era devido.

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)




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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Melhor mecânico do mundo
apreendeu com os “jeitos” da oficina familiar

Enzo ganhou o prêmio de melhor mecânico do mundo, e apreendeu o ofício em casa.
Enzo ganhou o prêmio de melhor mecânico do mundo, e apreendeu o ofício em casa.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Um mecânico de 24 anos ganhou o prêmio internacional concedido ao mais competente operário de oficina do mundo.

Trata-se de Enzo Malter, da cidade interiorana de Farias, na província argentina de Santiago del Estero. Ele já havia sido premiado como o mais competente da Argentina durante três anos consecutivos.

Enzo explicou ao jornal “La Nación” que é mecânico “desde sempre”, quer dizer, desde muito pequeno, quando ajudava seu avô, seu pai e seu irmão mais velho na oficina familiar em sua cidade natal.

Ele apreendeu a profissão fazendo pequenos serviços no local de trabalho familiar. Quando mudou para Córdoba, uma cidade bem maior e mais exigente, estudou no Instituto Renault e trabalhou numa oficina importante.

A mudança foi total porque consertava modelos novos. Mas a experiência adquirida “em casa” lhe abriu as portas de uma conceituada concessionária que, por sua vez, o encaminhou para cursos de capacitação.

Acabou ganhando o prêmio de melhor técnico nacional e foi convidado a se especializar na China.

Mas Enzo tem suas raízes profundamente deitadas na sua procedência. Ele segue ancorado às tradições do trabalho na oficina familiar, churrasco incluído. Nesse espírito inspira confiança até nos clientes mais exigentes e reclamadores.

Na Idade Média as crianças aprendiam a profissão em casa, e a Sagrada Família era o exemplo a ser imitado, Maestro de Clèves, c 1440
Na Idade Média as crianças aprendiam a profissão em casa,
e a Sagrada Família era o exemplo a ser imitado, Maestro de Clèves, c 1440
Ele não deixa de se aperfeiçoar, mas sustenta que para aprender não há como seguir as pegadas das experiências e dos “jeitinhos” de seu pai e de seus veteranos colegas.

Uma das notas características da organização laboral na Idade Média era o espírito familiar marcando todas as dimensões da economia e da produção.

Hoje se considera que o ambiente familiar e o do trabalho são mundos como que independentes.

Uma incessante propaganda deblatera contra os pais que ensinam a profissão a seus filhos pequenos desde que tenham idade para ir aprendendo sob o olhar protetor dos progenitores.

Entrementes, a fórmula medieval se apresenta como a mais adequada ao desenvolvimento da criança e à sua profissionalização.

É o exemplo que nos dá o melhor mecânico do mundo no século XXI!



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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A paz medieval, o comércio, as grandes cidades
e o dirigismo hodierno

Iluminura, jogo de Xadrez
Iluminura apresenta medievais num jogo de Xadrez
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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política internacional,
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Pelo fim da Idade Média, a partir do século XII ou XIII, quando as guerras entre os feudos decaem, a Europa começa a conhecer uma relativa paz.

A ação dos cavaleiros andantes, no extermínio dos bandidos, acabou de desinfestar as estradas e o comércio começou a circular.

Ao mesmo tempo em que o comércio circula, as barreiras desses pequenos mundos se modificam.

E, concomitantemente, vão começando a formar-se aqui, lá e acolá, grandes cidades.

Vai surgindo nos vários reinos uma capital, o rei; e a figura do monarca se destaca.

Ele constitui uma corte, tudo caminha para a centralização.

E essa centralização vai do século XIII, numa marcha ascensional, até o século XVII e começo do XVIII, com Luís XIV na França.

E com reis que participaram um pouco do protótipo de Luís XIV, antes ou depois dele — como, por exemplo, o rei Felipe II, na Espanha, ou Pedro o grande e Catarina a grande, na Rússia etc. O que sucede então é que essa centralização transforma completamente o jogo das influências.

Luis XIV, rei centralizador afastou-se da harmonia social medieval, Hyacinthe Rigaud
Luiz XIV, rei centralizador afastou-se da harmonia social medieval.
Hyacinthe Rigaud (1659 - 1743). Museu do Louvre.
A corte de Luís XIV é paradigmática. Ela já não é a corte medieval.

O rei é o rei sol. Ele se considera o rei como se deve ser rei, o modelo perfeito e acabado do rei.

Uma nobreza, ao lado dele, que se considera e é tida por toda a Europa como modelo perfeito e acabado da aristocracia de salão.

Um conjunto de estadistas que a Europa reputa modelos perfeitos e acabados de estadistas do tempo.

Um conjunto de grandes damas que são o protótipo da elegância, da graça e da beleza feminina do século.

Até a cátedra sagrada entra nesse movimento, e aparece o grande orador sacro, como Bossuet.

E assim forma-se um centro, que é o centro modelar no qual se espelha toda a França, mas espelha-se também toda a Europa, em proporção maior ou menor.

Verifica-se então o fenômeno do afrancesamento da Europa.

Por toda parte vão ruindo as influências locais, os fatores característicos vão desaparecendo.

E aparece um centro dotado dos melhores técnicos, dos melhores especialistas em tudo, desde a arte de conversar até a arte de dirigir finanças, ou de dirigir exércitos, ou de ocupar a tribuna sagrada.

E este centro, imitado por todos, transforma a situação.

A vida, a propulsão social não vem mais da base para cima, mas vem do alto para baixo. É uma inversão da ordem medieval que pressagia maiores desastres.

A imposição de certos estilos e modos de ser de fora para dentro como sucede em shows atuais, vai transformando uma sociedade orgânica em massa

Napoleão, totalitarismo dirigista oposto à sociedade orgânica medieval
Napoleão Bonaparte encarnou o modelo de governante totalitário moderno
E essa orientação centralizadora, ao contrário do que parece, não cessa com a Revolução Francesa.

O Comité de Salut Publique teve uma influência centralizadora e uma soma de poderes muito maior que a de Luís XIV. Mas Napoleão teve uma soma de poderes maior que a do Comité de Salut Publique.

E em geral os historiadores e os juristas franceses estão de acordo em afirmar que um chefe de Estado francês de nossos dias tem, no fundo — é verdade que circunscrito pela lei — uma influência, uma capacidade de dirigir o corpo social muito maior que a de Luís XIV, no auge de sua glória.

Mudou o jogo de influências, passou-se da monarquia mais ou menos aristocrática para a democracia; nessa democracia, evidentemente, o rei passou a ser o povo.

E então, no mesmo centro dirigente, se passam as coisas de um modo um pouco diverso.

Em outros termos, há um conjunto de técnicos, há um conjunto de especialistas que disputam entre si a escolha da solução a ser dada aos problemas.

Eles são apoiados por sistemas de propaganda, têm a seu serviço a imprensa, o rádio, a televisão, o cinema, enfim, todos os meios comuns de propaganda. E, com isso, influenciam o eleitorado.

Manifestação socialista em Sydney: massa sem vida própria, dirigida pela propaganda
O totalitarismo das massas teleguiadas por líderes populistas ou socialistas
dominou e escureceu o horizonte do século XX
O eleitorado-rei decide a favor de uns ou a favor de outros, mas o impulso principal continua a vir da capital, de técnicos que afluíram para a capital, que se dissociaram dos respectivos centros de vida, que vivem da vida artificial da capital, que a partir da capital comandam a propaganda e obtêm, através das eleições, o mando necessário para realizar aquilo que desejam.

De maneira que, em última análise, a capital, com os seus valores cívicos, dirige de fora para dentro a sociedade; e os elementos regionais e locais vão cada vez mais perdendo a sua influência, perdendo a sua capacidade de movimentação.

O resultado dessa nova situação é a depauperação do homem contemporâneo. Cada um de nós tem a sensação de viver como um grão de areia isolado dentro da multidão.

Nós de tal maneira nos habituamos aos meios de propaganda — de tal maneira nos acostumamos a estímulos de fora de nosso espírito, de nossa mente, que nos oferecem material para pensarmos, para refletirmos etc. — que já se chegou à seguinte situação (para mim, a última palavra nessa matéria!): torcedores, em estádio de futebol, assistem à partida com o rádio ao ouvido, porque sem o auxílio de alguém que lhes diga o que está acontecendo (e que eles também estão vendo) não conseguem tomar uma atitude individual e própria em face do fato que se apresentou".

Imperador, Cardeal, nobres e populares discutem sobre a cidade: povo hierárquico vivendo na harmonía
Um imperador e um cardeal rodeados de populares
conversam sobre a cidade.
O Papa Pio XII estabeleceu magistralmente a diferença entre povo e massa na famosa radiomensagem de Natal de 1944:
"O povo vive e move-se por vida própria; a massa é em si mesma inerte e não pode mover-se senão por um elemento extrínseco.

"O povo vive da plenitude da vida dos homens que o compõem, cada um dos quais — na sua própria posição e do modo que lhe é próprio — é uma pessoa cônscia das suas próprias responsabilidades e das suas próprias convicções.

"A massa, pelo contrário, espera o impulso que lhe vem de fora, fácil joguete nas mãos de quem quer que lhe explore os instintos e as impressões, pronta a seguir, sucessivamente, hoje esta, amanhã aquela bandeira".

(Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. VI, p. 239).


(Autor: Plínio Corrêa de Oliveira, "Catolicismo", maio de 2002)


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