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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Integração entre o campo e a cidade na Idade Média

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Na vida medieval não existia antagonismo entre o campo e a cidade. A cidade estava integrada na vida rural como uma cereja no chantilly.

No século XIII São Tomás de Aquino ensinava que a cidade tem um limite a partir do qual ele fica grande demais.

Qual é?

No momento que desde algum local da cidade não se enxergasse a natureza, a cidade tinha atingido o seu tamanho máximo.

Por isso havia uma proporcionalidade e uma integração notável entre o campo e a cidade.

Com toda naturalidade, uma pessoa passeando pela cidade acabava chegando ao campo e prolongando o passeio pela natureza vizinha.

Da mesma maneira o camponês entrava e saia da cidade para suas necessidades.

Na cena acima temos uma cena da vida pastoral. É o tempo da colheita. Homens e mulheres estão engajados, pois há muito para colher.

No fundo vê-se a cidade tão bonitinha que se diria de conto de fadas. As construções são sólidas em pedra e as agulhas sobem muito alto. O sino marca as horas e ouve-se à distância.

No alto do morro há um moinho que aproveita o vento para gerar trabalho, pelo geral moer o trigo para fazer a farinha, ou bombear água.

Com que amor pelas coisas do campo o desenhista representou a natureza! Essas árvores quase que se diriam árvores do Paraíso!

A vegetação evidentemente está estilizada; os cordeirinhos estão postos para enfeitar.

Os camponeses mais uma vez aparecem como gente gorda, forte.

É assim que incontáveis desenhos do tempo apresentam os camponeses, em livros muitas vezes destinados para bibliotecas municipais e serem folheados e vistos pela plebe.

Eles eram desenhados por gente da plebe, porque os autores de iluminuras em geral eram plebeus.

Muitas vezes eram filhos desses camponeses, ou tinham sido camponeses eles próprios.

Em tudo vê-se a alegria, a inocência, a satisfação, a despreocupação da vida campestre medieval.

A cena seguinte é de mais um almoço popular.

Pelo traje vê-se que são plebeus. Estão sentados numa espécie de taverna ao ar livre.

No fundo um sujeito enche os canecos com cerveja ou vinho que o garçom leva para os consumidores nas mesas.

Na cena da taverna aparecem dois andares.

Em cima estão o andar dos fregueses, ao que parece catando os vinhos. Embaixo está a adega.

O fornecedor também tem um guiché ao lado por onde passa para os servidores os líquidos que vão ser servidos em cima.

Os plebeus estão vestidos com abundância de panos.

Era preciso realmente que o pano não fosse caro nessa época para eles terem tanto tecido para gastar.

Eles bebem de bom grado, que jeito de pessoas satisfeitas da vida eles dão!

É cena tipicamente plebeia.

Não espanta que os clientes sejam gordos, mas não são só eles, até o servidor é gordo e está satisfeitão.




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terça-feira, 5 de setembro de 2017

Harmoniosa complementaridade entre o castelo e a casa camponesa

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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A imagem representa uma excursão de camponeses mais abastados.

Serão, tal vez, proprietários pequenos ou médios de propriedades rurais.

Eles se divertem num passeio em bote pelo canal.

O homem está tocando uma flauta, um moça está tocando um bandolim, um homem atrás rema.

Eles estão andando num canal que vai ao longo de um castelo.

O castelo tem beleza arquitetônica. A harmonia das linhas, o belo reflexo sobre as águas, os cisnes nadam num grande sossego.

Bem em frente do castelo há uma casa de plebeus.

Entre o castelo e casa dos campônios se estabelece naturalmente uma comparação muito bonita de duas classes sociais: o castelo é mais nobre, rico e belo, mas em frente dele reina a fartura e a comodidade.

A poesia, a quietude, a tranquilidade caracteriza essas habitações camponesas, feitas por populares cuja manifestação de bom gosto é menos acentuada do que nos nobres.

A casa tem um aconchego e uma beleza insuspeitados para os dias de hoje, mas essas eram construções normais para a Idade Média.

A vida dos senhores no castelo é severa, grave, cheia de solenidade.

Na casa popular vive-se sem as preocupações que tem o nobre, vida folgada, bem alimentada, agradável, aconchegante, cheia dos atrativos da despreocupação.

Fartura plebeia e esplendor aristocrático vivem face a face em perfeita harmonia.

Entre as duas residências há um valo, onde passeiam as figuras principais. Qual é a razão de ser desse valo?

A razão de ser desse valo é defender o castelo.

Quando os adversários atacarem o castelo, deita-se uma ponte que vai do castelo até a margem e as famílias de camponeses refugiam com seus haveres, seu gado, às vezes com seus móveis dentro do castelo.

O castelo não é mera residência do senhor feudal. Ele é uma fortaleza aonde o senhor feudal reside.

Mas, é bastante grande para conter a população da aldeia plebéia que mora junto, dos trabalhadores manuais esparsos pela propriedade, todos eles se defendem dentro do castelo.

E é por isso que tantas vezes, na Idade Média, encontra-se duas ou três aldeias próximas dos castelos.

Porque eles estando próximos da fortaleza do senhor, em caso de necessidade, ali eles se refugiam e defendem.

No momento a ponte não figura. É um recurso do artista para deixar ver a água que é muito bonita.

Mas dizer que o castelo era só a residência do senhor feudal é tão estúpido como dizer hoje que um quartel é só residência do comandante.

Porque o castelo era o quartel e a garantia de segurança da Idade Média.




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terça-feira, 22 de agosto de 2017

O mais antigo tribunal do mundo e suas lições medievais

O Tribunal das Águas de Valencia, na Espanha, já fez mais de mil anos julgando conflitos de irrigação
O Tribunal das Águas de Valencia, na Espanha,
já fez mais de mil anos julgando conflitos de irrigação
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O tribunal mais antigo da Terra, cujas sentenças são reconhecidas pelo Judiciário de seu país, tem sede na cidade de Valencia, na Espanha, segundo informou a agência AFP.

Mas ele age segundo usos e costumes da Idade Média, época em que foi fundado. O atendimento é imediato, bastando os querelantes se apresentarem.

O julgamento é oral, sem burocracia nem custos, a sentença é pronunciada na hora, não tem apelo e é acatada sem discussão, pois a respeitabilidade do tribunal beira o sagrado.

Trata-se do Tribunal das Águas, fundado em Valencia no século X e que já comemorou mais de um milênio em atividade.

Sua autoridade se estende sobre os conflitos relativos à irrigação na fértil planície situada junto à terceira cidade da Espanha, uma região de laranjais e hortas.

O tribunal está constituído por oito anciãos, escolhidos pelas oito comarcas irrigadas. E se reúne na Porta dos Apóstolos da catedral gótica da cidade, em espaço delimitado especialmente para as suas sessões.

O horário de atendimento é todas as quintas-feiras, quando os sinos da torre Micalet da catedral batem meio-dia.

Os oito juízes em simples toga preta de outros séculos assumem suas poltronas de inspiração medieval, e um oficial de justiça começa a chamar os eventuais querelantes, enunciando o nome das respectivas comunidades.

Os reclamantes então ingressam na área reservada ao tribunal, acompanhados ou não de seus advogados, e eventualmente de algum policial que foi testemunha dos fatos.

Ouvidas as posições das partes, os juízes trocam opiniões sobre o caso, e o chefe do tribunal emite a sentença, prontamente obedecida.

Uma pequena multidão acompanha o julgamento que, por sinal, se faz em dialeto valenciano, parecido com a língua espanhola.

“A mais antiga instituição de justiça existente na Europa” está inscrita no patrimônio cultural imaterial da UNESCO.

Sua existência remonta pelo menos ao século X, quando a região fazia parte do califado de Córdoba, e no lugar da atual catedral gótica – a cuja sombra se reúne – havia uma mesquita.

O oficial de Justiça convoca os eventuais querelantes por comarca
O oficial de Justiça convoca os eventuais querelantes por comarca
Os casos julgados pelo tribunal tem uma realidade muito tangível e versam sempre sobre o uso das águas, incluindo cortes abusivos, desvios mal feitos, ou questões análogas.

Os litígios são mais numerosos nas épocas de seca, existindo uma vasta jurisprudência acumulada nas mentes e nas almas dos veneráveis juízes.

Os usos e costumes estão também consignados num código específico, explica o historiador Daniel Sala, grande conhecedor da instituição.

Um caso recente típico envolveu um agricultor com trinta anos de atividade que viu a água chegar poluída por resíduos de cimento e de tinta jogados no canal por um vizinho que reformava sua casa.

Tendo ouvido os argumentos das partes, após breve debate o presidente pronunciou a fórmula consagrada, condenando o vizinho poluidor. Este aceitou a sentença com o protocolar “correto”, e pagou logo a multa de 2.000 euros.

O tribunal exerce sua jurisdição sobre dez mil agricultores que dependem da irrigação, os quais escolhem o representante de cada comunidade.

As sentenças são reconhecidas pela Justiça Civil espanhola e o tribunal “foi respeitado pelos reis, pelos presidentes das Repúblicas, pelas ditaduras, em poucas palavras, por todo o mundo”, sublinhou o historiador Daniel Sala.

Todos os anos surgem centenas de causas. Porém, pouquíssimas delas – entre 20 e 25 – chegam a este tribunal. Há certos dias em que ninguém se apresenta perante os juízes reunidos.

O motivo é admirável: é tanta a respeitabilidade do tribunal que os querelantes acabam se reconciliando na própria praça, antes mesmo de serem convocados.

“Para um agricultor é quase uma ofensa vir aqui”, explica José Antonio Monzó, que supervisiona o respeito das regras na comunidade de Quart.

As partes ingressam no recinto delimitado pela grade de ferro para defender sua causa
Enrique Aguilar, representante da comunidade de Rascanya e vice-presidente do tribunal, calcula que 90% dos casos se resolvem pela conciliação, às vezes poucos minutos antes de comparecer diante dos juízes sentados.

“Nós tentamos agir de maneira que ninguém chegue a ter que ser julgado aqui”, explica Aguilar diante da Porta dos Apóstolos.

“Durante a ocorrência, o acusado pode esbravejar e declarar-se não culpado. Mas quando chega aqui, ele pede a conciliação e finalmente paga a sanção imposta”, conta Manuel Ruiz, presidente do tribunal e representante da comunidade de Favara.

O Tribunal das Águas de Valencia é um último vestígio da justiça medieval em matérias trabalhistas.

Nessas causas, os julgamentos normalmente eram feitos por tribunais específicos das corporações de ofícios, onde todos se conheciam entre si e as respectivas famílias, sabiam o que cada um fazia ou o que seus antepassados fizeram, viviam o problema na vida quotidiana, ouviram as gerações velhas dirimindo as querelas, tudo num ambiente de sensatez, respeito mútuo, tradição e sabedoria cristã.

Esse poder de julgamento das corporações populares é um dos aspectos mais simpáticos da era medieval e dos menos conhecidos hoje.

E talvez dos mais necessitados. No Brasil, por exemplo, foram abertas em 2016 mais de três milhões de causas trabalhistas – é o nº 1 do mundo –, muitas delas introduzidas por advogados especializados em criá-las onde talvez não existam.

Quantos milhões de páginas foram redigidos para alimentar esses processos? Quantos milhões ou bilhões de reais foram gastos pela formidável máquina administrativa que exige o atendimento dessa avalanche de causas?

Quanto tempo de trabalho foi empregado por advogados, juízes, litigantes e funcionários da Justiça para elucidar esses milhões de pendências anuais? Quanto tempo tiveram os lesados de esperar até ouvirem a sentença? Quantos apelos.... quantos ... etc., etc.

Talvez nunca ninguém tenha tentado fazer uma estatística. E, se o fez, deve ter colhido números de desmaiar.

Não é de espantar que a imagem da Justiça, malgrado o esforço colossal de juízes e funcionários, esteja continuamente se degradando.

Que diferença com a Justiça impregnada de espírito familiar e de velhas e sábias tradições da Idade Média!



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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Jornalista brasileiro se deleita
com ‘passeio medieval em Tallinn’

Vista noturna do centro medieval de Tallinn, Estônia
Vista noturna do centro medieval de Tallinn, Estônia
Luis Dufaur
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Que efeito produz a Idade Média no homem do III Milênio?

Poderíamos mencionar as dezenas de milhões de turistas que vão visitar os monumentos da Idade da Luz que atravessaram os séculos.

Ou do interesse por filmes discutíveis, mas de grande sucesso, ambientados em cenários medievais. Poderíamos falar da Downton Abbey – embora num ambiente não inteiramente medieval – ou “The Crown”.

Mas desçamos a algo mais concreto. O testemunho do jornalista brasileiro Zeca Camargo, perdido em 2017 numa cidade medieval dos Países Bálticos.

Eis o que ele nos conta de seu “passeio medieval em Tallinn”, narrado na “Folha de S.Paulo”.

“Esse lugar é Tallinn, capital da Estônia: tudo ali existe em função de seu passado medieval.

“Cheguei lá tarde da noite e procurei um lugar para comer. Fim do inverno (europeu), os lugares que podem geralmente salvar os turistas — bistrôs, pizzarias e, mais recentemente, hamburguerias artesanais — já estavam fechados.

“Mas lá num canto da grande praça central, uma tocha (e não um neon) dava uma esperança de um prato quente a este visitante faminto.

“Entrei numa sala à luz de velas, onde uma mulher vestida com algo que estava longe de ser um costume moderno logo me ofereceu uma salsicha e uma tigela de guisado.

Taverna dos Três Dragões em Tallinn
Taverna dos Três Dragões em Tallinn
“O nome do lugar era 3 Dragões — dois cravados na alta parede do lado de fora, como pontudas gárgulas; e o terceiro, segundo ela, estava solto por aí. Foi meu primeiro contato com o ‘humor medieval’, onipresente em Tallinn.

“Não é muito engraçado ver aquelas pessoas ‘vivendo como antigamente’ — e em alguns momentos você tem a sensação de que está apenas num parque temático daquele período.

“Mas aos poucos você vai penetrando nesse passado — e o que parece apenas cenário vai se tornando, de fato, história.

“Senti isso mais forte ao entrar na igreja do Espírito Santo Puhavaimu Kirik, não muito distante da tal praça central (tudo é muito próximo em Tallinn, como na Idade Média).

“Visitando outros templos da cidade, acabei me acostumando a esse formato de igreja, mas logo que entrei lá senti uma estranheza: sua disposição não é convencional, com uma grande galeria que culmina num altar — ali os fiéis são distribuídos em vários nichos (inclusive alguns em mezaninos) que desnorteiam o olhar cristão convencional.

“Tudo é solene e belo — simples e inesperado. Mais: tudo é autêntico e, por conta disso, você pode finalmente se sentir transportado para séculos atrás.

“A mesma experiência se repete quando você visita a igreja do Domo — com um detalhe a mais: as paredes ali são ornadas com enormes brasões de família em madeira. Definitivamente você não está no Vaticano...

“Os muros que rodeiam a cidade antiga, outra marca medieval registrada, dão a sensação de intimidade e confidência.

Um outro restaurante medieval em Tallinn
Um outro restaurante medieval em Tallinn
“É como se os arcos das torres que você cruza lá e cá estivessem sempre te sussurrando segredos daquelas fachadas que, numa estranha reminiscência, me sugeriam cidades de madeira dos meus jogos de armar da infância...

“As janelas são pequenas e as paredes, grossas. Cones vermelhos cobrem os telhados e portas pesadas escondem rotinas misteriosas que evocam a pergunta: será que muita coisa mudou daquele cotidiano que uma visita museu da História da Estônia — o Guild Hall — nos convida a imaginar?

“Ali vemos banquetes reconstruídos, ouvimos música de alaúdes, quase sentimos o cheiro da cozinha no porão — e por breves instantes nos sentimos mesmo cidadãos medievais.

“Mas aí passamos dos limites dos muros, vemos placas de trânsito que indicam a saída, num moderno ferryboat para Estocolmo ou Helsinki — e o século 21 retoma freneticamente seu lugar”.

Após a brusca queda na banal modernidade, este que escreve e que nunca esteve em Tallinn, foi à procura de fotos no Google Images. Achei, deliciei-me e descobri que há ainda mais tavernas no estilo dos Três Dragões e até mais elegantes.

Mas agradeci interiormente ao jornalista pela viagem que nos proporcionou para aquilo que talvez seja nosso “futuro anterior”, como certo escritor francês não de meu agrado definiu com inteligência.



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