segunda-feira, 30 de outubro de 2023

A “visão” mística de Nosso Senhor Jesus Cristo nas almas dos medievais

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








A visão mística da Idade Média pode se conhecer na escultura e na pintura da época.

Pode ser pintura sobre tela ou qualquer outro material, pintura em cristal – os vitrais.

Por exemplo, na estátua Le Bon Dieu d'Amiens. Amiens é uma cidade da França cuja catedral tem no pórtico uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele de fato está para lá de bonito.

Quer dizer, naquela escultura está a alma d’Ele, o espírito d’Ele, está Ele.

O homem que esculpiu aquela estátua foi um homem que conheceu Nosso Senhor, que pensou em Nosso Senhor, que teve Nosso Senhor na alma dele.

Quer dizer, foi um homem de Deus que fez aquilo. De onde acontece que aquela estátua saiu tão bem.

Mas isto pode ser dito dos vitrais, tapeçarias e tudo mais que se possa imaginar da Era da Luz.

Agora, como é que uma pessoa que não viu pessoalmente a Nosso Senhor adquire a possibilidade de representar tão bem a alma d’Ele?

Como é que homens que vêem essa representação séculos depois e chegam a ponto de se comoverem quase como os medievais diante daquela expressão que há quinhentos anos pelo menos, um homem imaginou e criou?

Como é que o ignoto escultor pôde imaginar aquilo? Como ele pôde representar tão bem a Nosso Senhor?

Evidentemente por meio de uma graça.

E essa graça como funcionou?

Tudo leva a supor que o escultor, sem ter necessariamente tido uma visão, teve uma intuição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Algo agiu na sensibilidade dele e se traduziu na representação de uma figura parecida com a de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Isto que se passou nele de sobrenatural por obra da graça, ele de algum modo “viu”, mas “viu” verdadeiramente; pertence à mística.

Por isso são tão extraordinariamente comovedoras as catedrais da Idade Média – a Sainte Chapelle, e outras assim.

Tudo nelas nos fala de Deus representado por almas que “viram” a Deus.



(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, 28/2/91. Sem revisão do autor)




GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Bruges: vida repousante, comércio e artesanato intenso e elevado

Bruges, Bélgica, tranqüilidade, repouso e segurança
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Um povo tem obrigação de estar sempre progredindo. Também não é normal que esteja o tempo inteiro progredindo.

Assim como um homem que trabalha muito em certas horas do dia ou em certas fases de sua vida, e depois descansa para acumular capacidade de ação e depois se lançar mais na ação, assim também os povos têm legitimamente períodos de repouso.

Não se trata de uma decadência, mas de um repouso num píncaro. E, partir desse píncaro, voltando à ação ele sobe para mais alto.

Não é um repouso de decadente, é um repouso de equilibrado que quer respirar antes de continuar a escalada.

Bruges, Bélgica, atividade comercial e artesanal intensa
Então, por exemplo, a cidade de Bruges, também chamada Bruges la Morte, não era morta. Ela é uma cidade que dá o exemplo de como repousar meditativamente.

Com aqueles canais, as águas paradas, as casas que parecem feitas para a gente debruçar-se e ficar olhando a água.

A água é uma das coisas mais sugestivas que há. Ela tem um papel no conjunto das belezas do mundo.

A água em Bruges tem um papel que não tem em Veneza, que é outra cidade de águas. Veneza é estimulante. Veneza é tão, tão bonita, de uma beleza atuante que é estimulante.

Mas, Bruges é repousante. Várias vezes eu tenho feito projetos de ir descansar em Bruges.

Bruges, Bélgica
Assim, há civilizações e panoramas de repouso. Por exemplo, certos panoramas da Suíça: montanhas com neve, um lago bem azul, um pouquinho de gado numas encostas comendo, uma igrejinha que às 6 da tarde toca o Ângelus e que o eco repercute em todas aquelas vastidões, etc. Tudo isso é repousante.

Assim também, as civilizações conhecem seus repousos. Mas não se trata de não progredir, trata-se apenas de respirar entre dois progressos.

Por exemplo, a vida do campo é uma vida de trabalho, mas repousa. Tem seu papel para equilibrar as cidades.

Só há uma coisa que eu acho nitidamente desequilibrada: é a vida das grandes cidades modernas, com corre-corre, com essas loucuras, isso eu tenho horror, embora viva numa delas.


Vídeo: De barco, pelos canais de Bruges




(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, 1/4/92. Sem revisão do autor.)




GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

A feira medieval: ordem, prosperidade, fartura, retidão.
Relação direta entre o produtor e o consumidor

"La foire du Lendit", anônimo, século XIV, 'Pontifical de Sens', França,  na BnF (departemento dos Manuscritos, Latin 962, fol. 264.
"La foire du Lendit", anônimo, século XIV, 'Pontifical de Sens', França,
na BnF (departemento dos Manuscritos, Latin 962, fol. 264.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





A cena representa uma feira medieval numa pequena cidade.

No centro destaca-se o bispo acompanhado do clero abençoando as atividades. O bispo está paramentado levando a mitra e o báculo dourado símbolos de seu alto múnus.

A Igreja zelava para que as transações comerciais acontecessem na boa ordem.

Mas não ficava intervindo a toda hora e propósito nessas atividades, como faz o Estado moderno com regulamentos e impostos.

A Igreja fazia algo mais importante.

Ela formava com seus ensinamentos a consciência dos fiéis para que elas fossem retas e soubessem praticar as virtudes.

Entre as virtudes estava a da justiça que é indispensável para se definir os preços e formas de pagamento justas, afastando abusos e disputas.

A Igreja ensinava com clareza os Mandamentos “Não roubarás” (7º) e “Não cobiçarás o bem alheio” (10º).

"La foire du Lendit", detalhe, anônimo, século XIV, 'Pontifical de Sens', França,  na BnF (departemento dos Manuscritos, Latin 962, fol. 264.
"La foire du Lendit", detalhe, anônimo, século XIV, 'Pontifical de Sens', França,
na BnF (departemento dos Manuscritos, Latin 962, fol. 264.
 Quando esses Mandamentos e suas consequências são bem conhecidos e praticados, a economia desenvolve-se com harmonia e paz, e não como hoje em dia.

Porém, como malandros sempre houve e haverá, a Igreja desempenhava outras funções subsidiárias que até nos fazem sorrir, mas que são indispensáveis.

Ainda hoje ‒ quem puder pode constatar ‒ entrando na belíssima catedral de Pisa, logo à direita, perto da pia de água benta, encontra-se um formidável pé de mármore branco incrustado na parede, entre outros mármores também de grande qualidade e beleza.

O que faz esse pezão numa catedral tão requintadamente artística?

Pois acontecia que a feira medieval da cidade reunia-se na praça em frente da catedral. E a medida do comércio era o pé, como hoje é o metro.

Não é de espantar que pudessem surgir disputas sobre se a medida usada por este ou aquele cliente ou vendedor fosse a correta.

Então, os interessados podiam entrar na catedral e conferir suas réguas com o pé de mármore e ver se estavam certas.

"La foire du Lendit", detalhe, anônimo, século XIV, 'Pontifical de Sens', França,  na BnF (departemento dos Manuscritos, Latin 962, fol. 264.
"La foire du Lendit", detalhe, anônimo, s.XIV, 'Pontifical de Sens',
na BnF (departemento dos Manuscritos, Latin 962, fol. 264.
Nas barraquinhas brancas vemos vários tipos de feirantes. Um dele exibe seus produtos, outro aguarda clientes.

Mais dois parecem estar combinando um preço.

Pacotes de produtos estão amarrados aguardando negociação.

Um pastor levou suas ovelhas, sem dúvida para serem vendidas, pois a economia medieval era fundamentalmente uma economia direta produtor-consumidor sem atravessadores.

Esta organização reduzia muito o preço final dos produtos e garantia ao produtor uma entrada mais justa e proporcionada.

Para o consumidor também era uma garantia de autenticidade: produtos que saiam da terra, ou das mãos dos artesões e artistas.

Na feira ao lado, sem dúvida a barraca mais concorrida é a dos comes e bebes.

Vários feirantes e/ou clientes estão sentados na mesa falando com muito entretenimento.

O garçom aparece levando umas taças enormes, sinal de que ali se bebe e come em abundância.

Nas portas das barraquinhas há umas insígnias penduradas. Elas indicam a especialidade do comerciante.

Numa vemos a figura de um ganso sinal que ali se encontram aves.

Numa outra um círculo feito com martelos. Parece ser a barraca de um ferreiro. Pelo menos o fato do jovem a cavalo ir em direção a ela sugere que ali se consertam ferraduras.

Todos manifestam enorme distensão, não há tensão nem agitação. Há atividade calma e produtiva.

Mas ninguém está vagabundeando, não há malandro à espreita de roubar ou falsificar alguma coisa.

As ruelas estão limpas. As pessoas também muito asseadas, bem vestidas, com roupas originais de cores alegres e variegadas. Todos eles são populares do campo ou comerciantes da cidade.

Assim os medievais viviam este momento tão corriqueiro e marcante da vida quotidiana que é uma feira e assim o deixaram registrado para a posteridade.



GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS