Outras formas de visualizar o blog:

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Majestade e dignidade até no simples chefe de família popular

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








continuação do post anterior: A participação na propriedade e no governo medieval

Estudando essa idéia da participação do poder real na hierarquia feudal, chegamos a uma consideração de outra ordem, relacionando a distinção pessoal de cada homem com a dignidade que lhe confere a função ou o cargo que ocupa.

Tipos de grandeza na hierarquia feudal

Quando nos referimos ao rei, dizemos que ele tem uma tal grandeza que chamaríamos de majestade.

Nesse conceito, a majestade é aquele tipo de grandeza que constitui propriamente o seu pináculo, e que corresponde ao poder real.

Abaixo do rei, seria impróprio dizer que um duque, por exemplo, tem majestade. Diríamos que ele tem elevação, alteza, distinção, eminência, mas não majestade.

A alteza, a distinção, a eminência, são o próprio dom da majestade, mas num grau menor.

Do mesmo modo, não podemos nos referir a um conde, a um marquês, como nos referiríamos a um duque, dizendo que tem alteza ou eminência. A expressão seria demasiada.

Poderíamos dizer que um conde tem saliência, relevo, destaque, projeção, mas não alteza ou eminência. É, portanto, mais uma redução.

De um nobre menos elevado, poderíamos dizer simplesmente que tem fidalguia, isto é, ele é um homem um pouco mais saliente, um pouco mais distinto, um pouco mais elevado, mas que já toca na massa geral dos outros homens.

E analisando mais profundamente este conceito, vemos que essas idéias de dignidade, de majestade, de distinção, de elevação, tão freqüentes na Idade Média, podem também aplicar-se, embora com menos plenitude, às pessoas da plebe.

A majestade num simples chefe de família camponês

Quando consideramos um chefe de família medieval, ainda que seja um simples camponês, poder-se-ia dizer que ele, ao sentar-se em seu por assim dizer trono, para presidir as refeições de sua numerosa família, o faz com majestade.

Era costume entre os camponeses de certa região da Espanha que o chefe da família, ao sentar-se para presidir a mesa com vinte, trinta, cinquenta pessoas de sua casa, dissesse “comeremos pues”, e todos repetiam “comeremos pues”; após o que recitava a oração, que se dizia em Navarra: “Que o Menino Jesus, que nasceu em Belém, abençoe a pátria, o rei e a nós também”. E iniciava-se a refeição.

Analisando esse quadro, poderíamos dizer com toda propriedade que havia ali a majestade simples do patriarca, do homem rude do povo.

É certamente uma majestade campesina, de lavrador, mas sente-se aí uma grandeza da natureza, de seiva, de terra, que também tem a sua majestade.

Poder-se-ia falar em distinção no povo? Certamente. O próprio camponês espanhol, quanto não tem de distinção e de garbo?

Assim, tudo quanto dissemos da nobreza poder-se-ia dizer analogamente também da plebe, embora com menos plenitude.

Verificamos deste modo que estes conceitos de nobreza e de majestade não repousam numa só classe social, uma vez que o mesmo conceito pode aplicar-se ao menor e ao mais simples deles. “O rei é pai dos pais, e o pai é rei dos filhos” – dizia-se na França antiga. E isto, quer quanto às família nobres, quer quanto às do povo.

A bondade intrínseca do ser e a majestade moral

Em Jó deitado no seu monturo, limpando sua lepra com um caco de telha, carregando o seu infortúnio com frases inspiradas e sublimes, falando com Deus, apostrofando seus adversários, impressionando toda a posteridade, quanto de majestade não havia!

Ora, como podemos falar de majestade num homem que está reduzido ao último grau de humilhação? Esta majestade que há nele, o que significa? Mando? Poder? Ou é algo diferente e superior a isto, cujo conceito seria preciso procurar?

Aquilo que chamamos de distinção, nobreza, majestade, elevação, e que pode existir em todos os seres racionais, não é outra coisa senão a bondade intrínseca do ser.

Ensina-nos a filosofia que todo ser, enquanto ser, é bom. Esta bondade, esta excelência intrínseca do ser, faz com que ele, pelo fato de ser, seja bom.

E seja bom não apenas no sentido moral da palavra bom, que se condiciona à virtude, mas seja ontologicamente bom. É um ser que tem valor por ser aquilo que é.

A bondade do ser está em que ele seja aquilo que é. Quando o homem inteligente toma conhecimento dessa dignidade intrínseca do ser e mostra-se, pelo seu livre-arbítrio, à altura de sua bondade de ser inteligente, racional e livre, então ele adquire uma elevação que não é comparativa de nada, mas deduzida de sua própria natureza, de seu próprio ser.

Assim, o mais ínfimo dos homens, consciente do que é ser homem, e mais ainda, do que é ser um cristão, e um bom cristão, pode elevar-se a uma verdadeira majestade moral.

Isto é tão verdadeiro, que a Igreja canonizou uma santa que nos serve de exemplo característico: Beata Ana Maria Taigi.

Ela era dona de casa em Roma. Entretanto, andando pelas ruas, o fazia com um porte tão majestoso que as pessoas instintivamente recuavam para lhe dar passagem.

Isto não vinha de ela ter servidores e arrogar-se em grande, pois nesse caso não seria santa.

A Igreja jamais canonizaria uma cozinheira que quisesse fazer-se passar por duquesa. Isto lhe advinha apenas dessa plenitude de dignidade humana, fruto da correspondência perfeita à graça.

E há inúmeros fatos como este na história da Igreja. Santos houve, por exemplo, que por seu simples aspecto barraram o caminho a bárbaros, ou impuseram silêncio aos adversários.

É ilustrativo um episódio da história da invasão dos holandeses protestantes na Bahia, que ousaram arrombar um convento de freiras.

A superiora do mosteiro colocou-se simplesmente em frente a eles, barrando-lhes a entrada, e eles voltaram atrás.

continua no próximo post: A personalização dos cargos enchia de dignidade as classes sociais


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 2 de maio de 2022

A participação na propriedade e no governo medieval

São Luís, rei da França.
São Luís, rei da França.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








continuação do post anterior: Os cargos pertenciam a uma família e não ao funcionalismo público

Graus diversos de participação na propriedade

Na Idade Média, quando se fala de Estado, fala-se de dinastia.

E quando se fala de dinastia, fala-se do rei que personifica a dinastia e o Estado. Em relação aos dias de hoje, não poderíamos dizer o mesmo. Tomemos ao vivo um exemplo.

Ninguém poderia dizer, hoje em dia, que a rainha Elisabeth II é a Inglaterra.

Ela é uma inglesa bem situada, de muito prestígio social, simpática, esperta, como uma magnífica atriz num grande palco, vivendo como se fosse rainha, usando jóias dignas de uma antiga rainha.

Mas, na ordem concreta dos fatos, a Inglaterra praticamente não tem rainha.

Na Idade Média, pelo contrário, o Estado era personificado pelo rei e por todos aqueles que participavam do poder real, fazendo assim com que o Estado fosse profundamente pessoal.

Nos dias de hoje ele é inteiramente impessoal. Algo de análogo poderia dizer-se de vários dos Estados não monárquicos da Idade Média.

Na Idade Média, como dissemos, o rei era a personificação de todo o Estado, de toda a sociedade feudal.

Mas quando comparamos o rei com um nobre – o rei da França, por exemplo, com o duque da Normandia ou com o duque da Bretanha – vemos nesses duques uma miniatura do rei.

Eles são, em âmbito menor, tudo aquilo que o rei é num âmbito maior. E se considerarmos um nobre de categoria inferior, ele é uma miniatura do duque da Normandia.

Por esse processo, de miniatura em miniatura, chegaríamos até o último grau da hierarquia feudal.

O conceito do laço feudal

Poder-se-ia simplesmente afirmar que o rei está para um senhor feudal como um original está, em ponto grande, para a sua miniatura?

Ou há nisto alguma realidade mais profunda? Poder-se-ia dizer que um príncipe de Condé era uma miniatura de rei da França?

O fato de se afirmar que é uma miniatura não mostra algo de mais profundo, que é a existência entre eles de um laço feudal? No que consiste propriamente este laço feudal?

Um rei de França desmembra o seu reino em feudos, e dá a cada senhor feudal uma parcela do poder real, de que ele é detentor.

Desse modo o senhor feudal não é apenas uma miniatura do rei, mas participante do poder do rei.

Ele tem parte no poder real; ele é, por assim dizer, uma extensão do rei. É miniatura no sentido de que é uma parcela, e não porque possua tamanho menor e se lhe pareça.

Essa ligação que o senhor feudal tem com o rei faz dele uma espécie de desdobramento do próprio rei.

Os senhores feudais de categoria secundária têm um desdobramento do poder do primeiro senhor feudal, e assim, de participação em participação, chegamos às últimas escalas da hierarquia feudal.

Partimos de uma grande fonte de poder, que é o rei, e encontramos nas várias escalas da hierarquia feudal participações sucessivas, que se assemelham aos galhos de uma árvore.

O rei seria o tronco, e as várias categorias de nobreza seriam os galhos, sucessivamente menores e sucessivamente mais delgados, até constituir o cimo da copa da árvore, toda alimentada por uma mesma seiva, que é o poder real, do qual tudo emana e para o qual tudo tende.

Entretanto não é absorvente. Pelo contrário, deita seus inúmeros galhos em todas as direções.

Eis aí configurada a ideia da participação do poder feudal.



continua no próximo post: Majestade e dignidade até no simples chefe de família popular


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Os cargos pertenciam a uma família e não ao funcionalismo público

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




As associações e as fundações segundo o Direito

Em Direito podem-se distinguir duas espécies de pessoas jurídicas: as associações e as fundações. Associação é, pelo menos na prática, um conjunto de pessoas que são ou podem vir a ser coletivamente proprietários de um determinado patrimônio, conforme a sociedade possua ou não bens.

O direito de propriedade de cada um dos membros da associação sobre esse patrimônio é tal, que podem, em determinadas condições, dissolver a sociedade por mútuo acordo, dividindo os bens entre si.

Se quiserem, podem também fazer doação do patrimônio para outra sociedade, e se lhes aprouvesse poderiam até queimá-lo. Isto porque os membros de uma sociedade, coletivamente falando, exercem sobre o patrimônio social a plenitude da propriedade.

A configuração jurídica da fundação, porém, é diferente. Ela é um conjunto de bens, doados ou legados por um instituidor, acrescido muitas vezes por doações sucessivas, e que constituem um só patrimônio.

Mas este patrimônio não pertence a ninguém. Não há quem dele possa dizer-se dono. Há os beneficiários do patrimônio, que são as pessoas em vantagem de quem este último existe.

Há ainda os que dirigem o patrimônio, não como quem é dono, mas como em-pregado, sem retirar para si nenhuma vantagem pessoal. Podem receber um ordena-do, mas não podem enriquecer-se com aqueles bens.

Estado-fundação e Estado-propriedade

Pelo Direito moderno, quem governa situa-se, em relação ao Estado, como o gestor de uma fundação em relação aos bens desta.

Um presidente de República, ou mesmo um rei, segundo a mentalidade mo-derna, não tem o direito de usar ou de reger os negócios sociais em proveito próprio, mas apenas em benefício do Estado.

Ele percebe um ordenado, como um empregado, presta determinados serviços e se retira. Não tem nenhum direito de propriedade sobre o cargo ou sobre o patrimônio do Estado. Nada há que o ligue a esse patrimônio por espécie alguma de propriedade.

Isto se dá de alto a baixo na escala social. Desde um rei ou um presidente de República, até um contínuo de repartição, todos estão em face do Estado, segundo o pensamento moderno, mais ou menos como os gerentes ou os empregados de uma fundação em face desta.

A característica do direito medieval era inteiramente outra. O governador de um Estado, o senhor feudal, o dirigente da cidade, colocavam-se em face do bem público, não como um simples terceiro, mas de maneira tal que houvesse um certo direito de propriedade sobre a função pública de que eram detentores.

A concepção medieval não era portanto a de um Estado gerido à maneira de uma fundação, e em relação à qual todos são terceiros, mas sim a de um Estado entendido como uma sociedade, na qual todos têm um tal ou qual direito de proprieda-de.

Mas havia os que tinham sobre o Estado uma maior participação na propriedade. Isto se dava, ora graças a um direito histórico, ora a grandes feitos, grandes habilidades, grande dedicação na defesa dos bens públicos, ou ainda a qualquer daquelas razões pelas quais um homem se afirma e sobrepuja os demais.

Esses eram os que constituíam as famílias, e os homens mais importantes e graduados. Eles dirigiam o Estado à maneira de co-proprietários.

O rei e o senhor feudal não eram simples titulares do cargo que ocupavam, mas sim os eminentes, dentre os inúmeros proprietários do reino ou do feudo. Os demais tinham um direito de propriedade menor.

A ideia de tudo se considerar como propriedade era tal que, na casa real, até os empregos eram considerados como sendo de propriedade. Assim é que se chegou a mencionar em alguns documentos uma pessoa “que tinha por feudo a cozinha real”.

Temos disto, no direito brasileiro, uma revivescência muito pálida, mas ainda viva: os cartórios de notas.

O tabelião não é propriamente um funcionário público, mas sim o proprietário do cartório; ele presta determinado serviço ao público, credenciado pelo Estado.

Mas sendo ele o proprietário de seu cartório, sua posição é por isso profundamente diferente da de um funcionário público, que não é o proprietário da repartição onde trabalha, como por exemplo um secretário da repartição de Águas e Esgotos.

Este é apenas um funcionário que dirige uma máquina anônima.

Como é o tabelião para seu cartório, assim era o funcionário na concepção medieval. O reino poderia ser considerado como um grande cartório, onde o rei seria o tabelião-mor; os nobres seriam oficiais graduados e co-participantes dos lucros; e por fim a plebe, que também participaria desses lucros.

Ao contrário, no Estado moderno, monárquico ou republicano, impera o ano-nimato, a pura repartição pública, semelhante à organização de uma fundação, constituindo-se portanto num Estado completamente despersonalizado.


continua no próximo post: A participação na propriedade e no governo medieval


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 4 de abril de 2022

A ordem medieval é uma via para adorar a Deus

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








A graça de Deus, quando é correspondida pela pessoa, não só faz funcionar bem a sociedade, mas faz funcionar internamente bem a pessoa.

A sua inteligência funciona bem, a sua vontade funciona bem, a sua sensibilidade funciona bem, e a pessoa fica em condições ideais para a produção daquilo que pode produzir.

Por exemplo, um artista que tem dotes de escultor.

Se ele utilizar adequadamente sua capacidade escultórica, ele sai um escultor tão bom quanto a dose de talento que ele tem proporciona.

Se for assim, então é preciso reconhecer que um grande escultor recebendo a graça vai até o teto, e que nenhum escultor dará tudo que pode se não for animado pela graça.

Então, vendo uma obra-prima medieval, pode ser que essa obra-prima tenha sido feita por um homem que estivesse em estado de pecado mortal e que, portanto, não estava animado pela graça.

Mas ele adquiriu certos hábitos artísticos em virtude de um ambiente onde vivia muita gente cheia da graça de Deus.

Esse ambiente tinha exigências que o artista procurava satisfazer e o obrigava a fazer tudo bem.

Ainda quando o artista fosse ordinário, pela ação da graça sobre o ambiente ele era levado a fazer coisas boas.

Basílica de São Marcos, Veneza
Essa é a razão pela qual, visitando locais maravilhosos como a cidade Veneza – que foi criada e onde viveram homens em estado de graça e homens em estado de pecado –, não podemos deixar de louvar a Deus por aquilo que Ele fez.

Por isso, a partir da consideração das realidades culturais, estéticas, da beleza da cidade, podemos subir até considerações de caráter religioso.

Esta visualização das realidades temporais é profundamente diferente de uma piedade corrente entre as pessoas piedosas onde entrou certo entibiamento.



(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, 28/2/91. Sem revisão do autor)





GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS