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segunda-feira, 26 de julho de 2021

No feudalismo as famílias florescem e saem do caos

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior: As estirpes ordenaram os homens que fugiam do caos



Eis a verdadeira história do feudalismo.

Funck-Brentano tem razão ao demonstrar que o feudalismo nasceu dos fatos tratados nos post anteriores. Cfr. A família organizou a vida social e os países ; As estirpes ordenaram os homens que fugiam do caos

Mas há uma série de outros que ele não cita, e que o prepararam.

Vejamos contudo, sumariamente, alguns deles.

Entre os sucessores de Carlos Magno, ficou assentado que os cargos seriam vitalícios e hereditários; isto era já um princípio de feudalismo.

Mesmo no tempo de Carlos Magno ele já nomeava condes, que eram os grandes proprietários de determinada região.

Vê-se que ele já tinha o intuito de apoiar a administração central sobre os valores locais autênticos.

Por outro lado, podemos afirmar que um conjunto de fatores que nasciam das entranhas cristãs da sociedade do tempo preparava esta distribuição justa de cargos.

Não há dúvida, pois, que tudo isto concorreu muito para a criação do feudalismo.

É uma convergência de circunstâncias.

Família de pastores com "Traje Ansotano" (vale dos Pirinéus espanhóis)
Família de pastores com "Traje Ansotano"
(vale dos Pirinéus espanhóis)
Ele nasceu de tantos fatores, que seria mais certo apontá-lo como resultante da convergência deles.

Nosso Senhor Jesus Cristo constituiu feudalmente, de direito divino, a Sua Igreja.

O bispo é o senhor feudal de que o Papa dispõe.

Seria normal, portanto, que das entranhas da sociedade cristã nascesse naturalmente o feudalismo, não como a única forma possível de organização da sociedade, mas a mais adequada, a mais compatível com a ordem divina.

As estirpes e o homem


Tendo as estirpes tido tal importância na formação do feudalismo, detenhamo-nos mais acuradamente no seu estudo.

Se conceituarmos bem a família, saberemos o que é que nasceu, quando dizemos que surgiram as estirpes.

Mas para isso será preciso entrar a fundo na análise dessa realidade que se chama homem.

O homem é dotado de alma e corpo.

De acordo com a tese que nos é tão cara, as realidades espirituais e invisíveis podem ser manifestadas aos olhos dos homens por meio de realidades materiais visíveis.

Há uma forma de nexo misterioso entre a alma e o corpo, de tal maneira que aquela tem uma espécie de símbolo neste.

O corpo humano, por sua cor, traços fisionômicos, timbre de voz, dinamismo, modo de se mover, é um reflexo da alma.

Ele deixa transparecer as suas qualidades,
e é esse todo harmônico de alma e corpo que constitui a pessoa humana.

De como a hereditariedade se manifesta:

D.João d'Áustria

O filho natural de Carlos V, estava sendo discretamente encaminhado para vida religiosa, mas o sangue falou mais forte... (...)

Estas mismas noticias debieron de probar, sin duda alguna, a Luis Quijada y a su misterioso corresponsal que el niño Jerónimo no se inclinaba al estado de la Iglesia, como su incógnito padre y el mismo Luis Quijada deseaban.

Doña Magdalena, con su habitual perspicacia, habíalo juzgado así desde el primer momento.

A su llegada a Villagarcía quiso esta señora, de acuerdo con su hermano fray Domingo de Ulloa, enseñar ella misma al niño el castillo y sus riquezas, para juzgar lo que se revelase de su carácter en aquellas sus primeras impresiones... (...)

Todo lo miraba el muchacho con la sencilla indiferencia de quien se ha criado entre cosas semejantes, y con tan natural aplomo y señorío, que encantaba por lo espontáneo y admiraba por lo extraño.

Mas cuando llegó a la sala de armas y vio de cerca las pesadas armaduras de hierro, las lanzas que medían cuatro veces su estatura, las artísticas panoplias formadas con corazas, espadas y rodelas, todo reluciente, entusiasmole al punto aquel formidable aparato de guerra, y dio vueltas hacia todas partes, como deslumbrado, fijándose en todos los detalles, extendiendo a cada pago la manita como para tocar aquellas maravillas, y deteniéndose siempre como si temiera profanarlas.

Hasta que al cabo, venciendo la admiración a todo respeto humano, paráse ante un arnés pequeñito, verdadera maravilla traída de Italia por Quijada, que por limpiarse a la sazón se hallaba tendido en el suelo, y pidiole a doña Magdalena con infantil cortedad licencia para tocarlo.

Diósela la señora de buen grado, y Jerónimo, con el temeroso respeto de quien toca algo sagrado, palpó toda la armadura de arriba abajo; examinó uno a uno los encajes, alzó y bajó varias veces la visera del casco y acabó por pegar con los nudillos de la mano en la cóncava coraza.

Despidió ésta un sonido metálico, y Jeromín alzó hacia sus protectores el precioso rostro, iluminado, radiante, con la sonrisa en los labios y el reflejo en los ojos, de un genio que se revela.

La señora, entre admirada y risueña, dijo entonces a su hermano:

-Mohíno ha de quedar Luis Quijada, mi señor...

Soldadito tendremos, que no fraile.

Jeromín - Pe. Luis Coloma (1851-1914), Edición digital a partir de Obras Completas, 5ª ed., Madrid, Razón y Fe ; Bilbao, El Mensajero del Corazon de Jesus, 1956, t. XIII y XIV.

Assim caracterizado, o homem é suscetível de um maior ou menor desenvolvimento físico ou moral.

No terreno físico o fenômeno é por demais conhecido.

Se um recém-nascido é colocado em um ambiente em que suas energias físicas são estimuladas, a criança pode vir a tomar grande corpulência, ao menos a que lhe permita a sua natureza; mas, colocada em circunstâncias desfavoráveis, ela definhará.

O mesmo podemos dizer da alma.

Nela existe uma série de potencialidades, que se desenvolverão se as condições em que a colocarmos forem propícias.

Caso contrário, dificilmente estas qualidades se afirmarão e triunfarão.

Podemos pois considerar um desabrochar mais ou menos completo da alma humana, de acordo com as condições em que estiver.

Assim como o corpo se realiza plenamente em determinadas circunstâncias, assim também a alma.

E é a plena realização da alma e do corpo, conjuntamente, que constitui a plena realização da pessoa humana, que é alma e corpo.

Tomando isto em consideração, melhor compreenderemos o que seja uma estirpe.

A família é a instituição de ordem natural, fundada num sacramento, incumbida da perpetuação da espécie humana e da educação da prole.

É uma instituição, portanto, que tem como obrigação desenvolver e educar ao máximo a personalidade humana.

Ela cumprirá perfeitamente sua missão se fizer com que todas as qualidades do corpo e da alma, daqueles que dela nascerem, se expandam e se afirmem completamente.

Ora, para isso ela é dotada de qualidades que são extraordinárias.


Continua no próximo post: As forças misteriosas da hereditariedade

segunda-feira, 12 de julho de 2021

As estirpes ordenaram os homens que fugiam do caos

Conceito medieval da família: a árvore genealógica e a continuidade familiar
A estirpe familiar dá continuidade ao espírito dos primeiros pais ao longo de gerações.
A árvore genealógica registra essa continuidade familiar
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Continuação do post anterior: A família organizou a vida social e os países



A teoria de Funck-Brentano sobre a origem do Estado francês não é muito clara porque carece de um elemento que trataremos agora.

Pois a Inglaterra, ao tempo em que o feudalismo nascia por esta forma, era invadida pelos normandos, e já antes destes pelos anglo-saxões.

Lá encontraram uma população de celtas, que tinham o nome de bretões, donde provém a Bretanha de nossos dias.

Os celtas, que eram cristãos, foram derrotados e sumariamente expulsos pelos invasores, os quais converteram-se e deram origem à Irlanda e ao País de Gales, onde até hoje fala-se um resquício da língua céltica.

As tribos celtas, esmagadas, recuaram diante dos agressores e fixaram-se durante algum tempo na Escócia.

Tendo um destino tão parecido com o das tribos francas, diante da mesma desgraça, obrigadas a fugir da mesma forma, não reagiram contudo do mesmo modo.

Eles não se fixaram de maneira a dar origem ao sistema feudal, mas deixaram-se abater, romperam com a Igreja Católica, caíram no cisma, e nada produziram que prestasse, senão seus remotos descendentes, o País de Gales, a Irlanda e a Bretanha.

Nada de grande como o feudalismo nasceu daí.

Frederico de Sonneburg. Codex Manesse
O paterfamilias vê nos filhos a continuidade da estirpe,
seja nobre, burguesa ou operária.
Frederico de Sonneburg. Codex Manesse
As nossas tribos índias, vivendo perdidas no meio da natureza bravia e indiscutivelmente hostil do Brasil, também não produziram feudalismo algum.

Dizer que a desgraça provocou o feudalismo seria o mesmo que afirmar que o florescimento da Igreja nascente deveu-se às perseguições: perseguidos, os católicos reagiram; reagindo, tiveram zelo; e com isto dominaram o mundo pagão antigo.

É uma explicação por demais mecânica, automática.

Há uma sociedade, sopra um tufão, destrói tudo; todos se reúnem nos lugares ermos, e ali nasce o feudalismo...

Quem afirmaria que a única atitude possível desses povos era realmente reagir e constituir uma célula viva em cada lugar?

Quem afirmaria que eles tinham certamente de produzir em cada refúgio um homem de valor, que fundasse uma estirpe capaz ela mesma de continuar a sua obra?

Quem afirmaria que eles teriam pujança de engenho suficiente para reconstituir uma fecundidade sobre terras em extremo pobres, e daí provocar outro impulso social?

Quem afirmaria que eles teriam tato bastante para, desaparecidas as circunstâncias, manterem a autonomia familiar, em lugar de se deixarem devorar pelo Estado?

Estamos diante de um dos fatos primordiais da história da humanidade.

Quando estas tribos semi-civilizadas foram empurradas para o alto dos montes e para detrás dos pântanos, começou a nascer uma série de estirpes.

E este é o fato que Funck-Brentano não acentua suficientemente.

Uma estirpe é algo muito diverso de uma família.

O que é uma família? É a conjunção de pai, mãe e filhos.

Basta haver pais legitimamente casados para que haja família.

Estirpe, contudo, é bem diverso.

A língua francesa, que é muito precisa, fala em source, ou seja, fonte, origem.

Os filhos são a promessa da continuidade. E não só da família, mas da sociedade como um todo
Os filhos são a promessa da continuidade.
E não só da família, mas da sociedade como um todo.
Sem estirpes o tecido social se decompõe.
Eles tanto dizem source de uma família quanto source de um rio.

O que vem então a ser a source de uma família?

O que é um homem-estirpe?

Aquele que funda uma estirpe é um homem com personalidade bastante vigorosa para criar uma família que mantém a hereditariedade de seus principais traços morais e físicos.

É um homem que dá aos seus uma formação suficientemente forte para que o impulso inicial que ele comunica a uma determinada ordem de coisas continue depois dele.

É um homem que funda uma escola de modo de sentir, de agir, de ser, de vencer dificuldades, que funda um pequeno sistema de vida.

Eu afirmo que é preciso ter muito mais personalidade para fundar uma estirpe do que para governar um Estado.

Isto, qualquer político o faz.


Mas para fundar uma estirpe é preciso ter uma personalidade pujantíssima; e para que ela seja lançada em sentido sadio, é preciso que seja pujantemente sadia.

O admirável neste momento da história europeia é que essas famílias, escorraçadas, banidas, lançadas ao sumo infortúnio, reagem; e formam-se estirpes por toda parte, as estirpes nobres da Europa.

Essas estirpes que nascem, e que vão marcar mil anos de História, nascem no infortúnio o mais atroz.

Pelo seu vigor natural, e sobretudo pela correspondência que seus membros deram à graça de Deus, a família abandonada, isolada, deu origem à família nobre, e o conjunto das famílias nobres deu origem à Europa.




Continua no próximo post:

quinta-feira, 1 de julho de 2021

A família organizou a vida social e os países

Fugindo dos bárbaros no caos do fim do Império Romano, os restos de civilização se reuniram em torno de empalizadas. A família era a alma da resistência
Fugindo dos bárbaros no caos do fim do Império Romano,
os restos de civilização se reuniram em torno de paliçadas.
A família era a alma da resistência
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Continuação do post anterior: A família nas origens da civilização



No início da Idade Média, os homens mais civilizados, horrorizados com a invasão dos bárbaros, começaram a galgar os montes e montanhas, fixando-se nos pontos menos acessíveis.

De tal modo que os normandos passando pelas vias fluviais não tivessem vontade de atingi-los.

Começaram, por outro lado, a fixar culturas e a construir casas por detrás dos pântanos, nos lugares chamados marécage, zonas pantanosas atrás das quais há regiões férteis.

No topo dos morros para escapulir dos bárbaros, passaram a construir defesas com pedras.
No topo dos morros para escapulir dos bárbaros,
passaram a construir defesas com pedras.
Os bárbaros, que percorriam os caminhos das grandes cidades, não os encontravam, por estarem escondidos por detrás dos pântanos, nas montanhas, nas regiões as mais inóspitas.

Eram fugas desordenadas, levadas a efeito pelo pavor.

Por isso fugiam, não cidades inteiras, mas grupos de famílias.

E cada qual para onde podia.

Em presença da rudeza da natureza e dos adversários que os atacavam de todos os lados, não tendo mais um Estado que os governasse.

Os reis, fracos e sem nenhum poder, não podiam fazer chegar suas ordens a esses lugares absolutamente recônditos que ficaram reduzidos à célula inicial da sociedade, a família.

Esta foi a organização natural primeira que lhes permitiu sobreviver.

A “motte” medieval feita primeiro de paliçadas foram as primitivas “fortalezas” para proteção dos agrupamentos familiares iniciais.

Conselho Municipal de El Roncal. Joaquín Sorolla, 1914.
O paterfamilias chefiou agueles grupos humanos.
No quadro, preside o Conselho Municipal de Roncal, Espanha.
(Joaquín Sorolla, 1914).
Apareceu então o paterfamilias, ou patriarca, desta célula familiar que era ao mesmo tempo um pequeno exército, uma pequena unidade religiosa, um pequeno núcleo de produção, constituindo em cada ponto do território um pequeno país.

Em cada um destes grupos sociais, o paterfamilias, em geral de envergadura maior, tomava a direção.

Ele era o suporte natural daquela coletividade em debandada.

Era um homem de personalidade muito ampla, dotado do poder de chefiar, da perspectiva dos perigos, da capacidade de organizar, e no qual todos encontravam ponto de apoio.

Ele organizava a vida.

Sua prole herdava suas qualidades e herdava suas funções.

Em torno deste homem e desta família princeps começaram então a se aglutinar as famílias dos fugitivos, constituindo pequenas unidades sociais, que eram naturalmente monárquicas e familiares.

Monárquicas pela presença de uma autoridade única inquestionável; familiares porque, em essência, o que havia era o chefe de uma família com sua grei alargada.

A esses se somavam os agregados que ali entravam como pessoas admitidas, toleradas, semi-assimiladas, mas que não constituíam propriamente a essência daquela unidade, que se consubstanciava no chefe e na sua família.

Funck-Brentano dá-nos uma descrição em extremo pitoresca – no que ele é exímio – de uma dessas pequenas aldeias de tipo fundamentalmente familiar, que vai se formando.

As famílias cresciam, diversificavam as funções e assimilavam pelo casamento outras pessoas
As famílias cresciam, diversificavam as funções
e assimilavam pelo casamento outras pessoas
Ele descreve o pitoresco dos primeiros trabalhos, a derrubada das árvores centenárias, a construção das primeiras choupanas, o primeiro aproveitamento do solo, as primeiras colheitas, as primeiras batalhas, o pequeno exército familiar que sai à luta, em defesa de uma família vizinha ou contra uma horda bárbara que se aproxima, a pequena indústria que vai nascendo das mãos da família.

Começa a produção das armas, as mulheres tecem, aparecem certas criações, como a das abelhas.

Tudo isto faz de cada família um pequeno mundo, e no centro está o chefe.

Onde está o Estado? Quase não existe.

Todas as funções que lhe são próprias, exerce-as o chefe da família.



Continua no próximo post: As estirpes ordenaram os homens que fugiam do caos



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segunda-feira, 31 de maio de 2021

A família nas origens da civilização

Casamento, Conrad Beckmann (1846 – 1902)
Casamento, Conrad Beckmann (1846 – 1902)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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A obra de Funck-Brentano “L’Ancien Régime” (Arthème, Fayard e Cie., Paris, 1937) dá-nos ocasião para tecer considerações acerca das origens da Idade Média.

Historiador de grande renome, o autor é contudo naturalista, mas suas obras nos são de grande valia, se bem examinadas, com espírito crítico.

Funck-Brentano parte da posição muito boa de que, no Estado, a matéria-prima fundamental é a família.

O Cardeal Billot, em seu livro “De Ecclesia”, discorrendo acerca do Estado orgânico, diz, magistralmente, que quem definisse o corpo humano como um conjunto de células diria um disparate, mas se dissesse ser um conjunto de órgãos diria uma grande verdade.

Com efeito, o corpo humano não é constituído simplesmente de células, mas de células que por sua vez compõem órgãos.

As unidades do corpo humano mais próximas são os órgãos.

Se alguém, olhando para uma bacia d’água, dissesse que ali há hidrogênio e oxigênio, não diria bem a realidade.

Ali existe água.

Há, de fato, hidrogênio e oxigênio, mas em estado especial, o estado de água.

Assim, quem definisse a sociedade humana como sendo constituída de indivíduos diria igual absurdo.

Ela compõe-se primacial e essencialmente de famílias.

Estas é que, por sua vez, são constituídas de pessoas humanas.

Na sociedade humana encontramos, antes de tudo, o homem vivendo em família e constituindo família.

Apenas secundariamente encontramos o indivíduo.

Família venera seu protetor São João Neopomuceno, Ferdinand Georg Waldmüller (1793 – 1865)
Família venera seu protetor São João Neopomuceno,
Ferdinand Georg Waldmüller (1793 – 1865)
A matéria prima do tecido social é portanto a família.

Funck-Brentano desenvolve a tese de que o Estado francês – e ele subentende o mesmo para todos os Estados do Ancien Régime – nasceu de uma ampliação da família, e que, de fato, os Estados não são senão famílias em ponto grande.

E ele passa a dar a origem do Estado francês, historiando o nascimento das famílias.

Ele nos dá uma das muitas teorias para a explicação do feudalismo.

É curioso que um historiador do porte de Funck-Brentano tome somente esta explicação e a imponha.

Mas esta é muito plausível, como veremos.

Os séculos mais aflitivos da História foram, certamente, quando ruiu o Império Romano do Ocidente e a Europa viu-se invadida pelas primeiras hordas bárbaras.

Os francos eram de um barbarismo o mais rude que se possa conceber.

Mas com o passar do tempo foram sendo civilizados, embora precariamente.

Nos séculos VII e VIII as hordas representavam apenas pouco menos que a barbárie.

Fora este, tão somente, e após tremenda luta, o modestíssimo fruto conseguido pela Igreja Católica.

Alguns ela arrancara ao arianismo, convertera outros, e ia conseguindo um lento processo de mitigação e dulcificação dos costumes.

Sobre esta imensa obra, ainda em começo, sopraram então, de modo verdadeiramente trágico, os tufões da adversidade.

As torneiras do mundo não cristão se abrem, e catadupas de pagãos invadem a Europa.

Da Rússia e da Prússia, regiões ainda desconhecidas, desceram bárbaros, ainda mais primitivos que os da primeira invasão, assolando, saqueando, reproduzindo os horrores antes perpetrados no Império Romano do Ocidente.

Do norte, pelo mar, vieram os normandos, de igual rudeza.

Em determinado momento, tomados de um furor navegatório, famílias, tribos, nações, o reino inteiro meteu-se em barcos e pôs-se a viajar.

Cena familiar matutina, Ferdinand Georg Waldmüller (1793 – 1865)
Cena familiar matutina, Ferdinand Georg Waldmüller (1793 – 1865)
Iam em cascas de nozes, beliscando o litoral, saqueando, comendo, arrasando.

Alguns de seus chefes intitulavam-se “reis do mar”.

Nesta sanha chegaram até Constantinopla e invadiram Bizâncio, sempre assolando tudo, fazendo por vezes incursões profundas e deixando alguns pelas terras onde passavam, que continuavam a obra de destruição.

De outro lado, vindos da Espanha e invadindo até o coração da França, surgiram os sarracenos.

Atravessaram o Mediterrâneo, atacando alguns o sul da França e outros a Itália.

Todas as forças infernais desencadeadas abateram-se sobre a Cristandade ocidental.

O desastre foi imenso.

Uma civilização que mal começa a se construir, nascida de um milagre – a conversão dos arianos e dos francos fora simplesmente milagrosa – e no momento em que inicia sua consolidação, sopram ventos tais que a tudo desconjuntam.

O fato é histórico, e Funck-Brentano a ele se reporta, sem contudo poder ver, naturalista que é, o que se passou além da ordem da natureza.

É um dos mais belos episódios da história da Igreja.

Uma civilização que não tivesse os seus recursos sobrenaturais teria sucumbido.

Teríamos visto o seu desabamento e o fim da obra.

É fora de dúvida, contudo, que foi este desastre, em grande parte, a causa do nascimento do mais extraordinário regime político e social havido na história do mundo, o feudalismo.


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