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terça-feira, 15 de maio de 2018

A família na origem do feudalismo e do Estado medieval - 2

No topo dos morros, refúgios para escapulir dos bárbaros
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






continuação do post anterior: A família na origem e na alma do Estado medieval - 1



Diante das destruições dos bárbaros, os homens mais civilizados, horrorizados com o que sucedia, começaram a galgar os montes e montanhas, fixando-se nos pontos menos acessíveis.

De tal modo que os normandos, passando, não tivessem vontade de atingi-los.

Começaram, por outro lado, a fixar culturas e a construir casas por detrás dos pântanos, nos lugares chamados marécage, zonas pantanosas atrás das quais há regiões férteis.

Frederico de Sonneburg, Codex Manesse
Os bárbaros, que percorriam os caminhos das grandes cidades, não os encontravam, por estarem escondidos por detrás dos pântanos, nas montanhas, nas regiões as mais inóspitas.

Eram fugas desordenadas, levadas a efeito pelo pavor.

Por isso fugiam, não cidades inteiras, mas grupos de famílias. E cada qual para onde podia.

Em presença da rudeza da natureza e dos adversários que os atacavam de todos os lados, não tendo mais um Estado que os governasse – pois que os reis, fracos e sem nenhum poder, não podiam fazer chegar suas ordens a esses lugares absolutamente recônditos – ficaram reduzidos à célula inicial da sociedade, a família.

Esta foi a organização natural primeira que lhes permitiu sobreviver.

Apareceu então o paterfamilias desta célula que era ao mesmo tempo um pequeno exército, uma pequena unidade religiosa, um pequeno núcleo de produção, constituindo em cada ponto do território um pequeno país.

Em cada um destes grupos sociais, um homem, em geral de envergadura maior, tomava a direção.

Ele era o suporte natural daquela coletividade em debandada.

Era um homem de personalidade muito ampla, dotado do poder de chefiar, da perspectiva dos perigos, da capacidade de organizar, e no qual todos encontravam ponto de apoio.

Ele organizava a vida. Sua prole herdava suas qualidades e herdava suas funções.

Em torno deste homem e desta família princeps começaram então a se aglutinar as famílias dos fugitivos, constituindo pequenas unidades sociais, que eram naturalmente monárquicas e familiares.

Monárquicas pela presença de uma autoridade única inquestionável; familiares porque, em essência, o que havia era o chefe com sua grei, e depois os agregados que ali entravam como pessoas admitidas, toleradas, semi-assimiladas, mas que não constituíam propriamente a essência daquela unidade, que se consubstanciava no chefe e na sua família.

Funck-Brentano (“L’Ancien Régime”, Arthème, Fayard e Cie., Paris, 1937) dá-nos uma descrição em extremo pitoresca – no que ele é exímio – de uma dessas pequenas aldeias de tipo fundamentalmente familiar, que vai se formando.

Ele descreve o pitoresco dos primeiros trabalhos, a derrubada das árvores centenárias, a construção das primeiras choupanas, o primeiro aproveitamento do solo, as primeiras colheitas, as primeiras batalhas, o pequeno exército familiar que sai à luta, em defesa de uma família vizinha ou contra uma horda bárbara que se aproxima, a pequena indústria que vai nascendo das mãos da família.

Começa a produção das armas, as mulheres tecem, aparecem certas criações, como a das abelhas.

Tudo isto faz de cada família um pequeno mundo, e no centro está o chefe.

Onde está o Estado? Quase não existe. Todas as funções que lhe são próprias, exerce-as o chefe da família.



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terça-feira, 1 de maio de 2018

A família na origem e na alma do Estado medieval - 1

A família gerou o Estado medieval
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Os séculos mais aflitivos da História foram, certamente, quando ruiu o Império Romano do Ocidente e a Europa viu-se invadida pelas primeiras hordas bárbaras.

Os francos eram de um barbarismo o mais rude que se possa conceber. Mas com o passar do tempo foram sendo civilizados, embora precariamente.

Nos séculos VII e VIII as hordas representavam apenas pouco menos que a barbárie.

Fora este, tão somente, e após tremenda luta, o modestíssimo fruto conseguido pela Igreja Católica.

Alguns ela arrancara ao arianismo, convertera outros, e ia conseguindo um lento processo de mitigação e dulcificação dos costumes.

Sobre esta imensa obra, ainda em começo, sopraram então, de modo verdadeiramente trágico, os tufões da adversidade.

As torneiras do mundo não cristão se abrem, e catadupas de pagãos invadem a Europa.

Da Rússia e da Prússia, regiões ainda desconhecidas, desceram bárbaros, ainda mais primitivos que os da primeira invasão, assolando, saqueando, reproduzindo os horrores antes perpetrados no Império Romano do Ocidente.

Bárbaros extinguiram a civilização romana
Do norte, pelo mar, vieram os normandos, de igual rudeza.

Em determinado momento, tomados de um furor navegatório, famílias, tribos, nações, o reino inteiro meteu-se em barcos e pôs-se a viajar.

Iam em cascas de nozes, beliscando o litoral, saqueando, comendo, arrasando.

Alguns de seus chefes intitulavam-se “reis do mar” ou vikings.

Nesta sanha chegaram até Constantinopla e invadiram Bizâncio, sempre assolando tudo, fazendo por vezes incursões profundas e deixando alguns pelas terras onde passavam, que continuavam a obra de destruição.

De outro lado, vindos da Espanha e invadindo até o coração da França, surgiram os sarracenos.

A hierarquia do lar gerou a hierarquia feudal
Atravessaram o Mediterrâneo, atacando alguns o sul da França e outros a Itália.

Todas as forças infernais desencadeadas abateram-se sobre a Cristandade ocidental. O desastre foi imenso.

Uma civilização que mal começa a se construir, nascida de um milagre – a conversão dos arianos e dos francos fora simplesmente milagrosa – e no momento em que inicia sua consolidação, sopram ventos tais que a tudo desconjuntam.

O fato é histórico, e Funck-Brentano a ele se reporta, sem contudo poder ver, naturalista que é, o que se passou além da ordem da natureza.

É um dos mais belos episódios da história da Igreja.

Uma civilização que não tivesse os seus recursos sobrenaturais teria sucumbido. Teríamos visto o seu desabamento e o fim da obra.

É fora de dúvida, contudo, que foi este desastre, em grande parte, a causa do nascimento do mais extraordinário regime político e social havido na história do mundo: o feudalismo.


continua no próximo post: A família na origem e na alma do Estado medieval - 2



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terça-feira, 17 de abril de 2018

Limpo como na Idade Média:
abordagem histórica da época que cultou a higiene


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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A higiene não é uma descoberta dos tempos modernos, mas “uma arte que o século de Luiz XIV menosprezou e que a Idade Média cultuou com amor”, escreveu a historiadora Monique Closson, autora de numerosos livros sobre a criança, a mulher e a saúde no período medieval.

No estudo de referência “Limpo como na Idade Media”, a historiadora mostra com luxo de fontes que desde o século XII são incontáveis os documentos como tratados de medicina, ervolários, romances, fábulas, inventários, contabilidades, que nos mostram a paixão dos medievais pela higiene. Higiene pessoal, da cozinha, dos talheres, etc.

As iluminuras dos manuscritos são documentos insubstituíveis onde os gestos refletem o “clima psicológico ou moral da época”.

O zelo pela higiene veio abaixo no século XVI, com a Renascença e o protestantismo.

Milhares de manuscritos, diz Closson, ilustram o costume medieval.

Bartolomeu o inglês, Vicente de Beauvais, Aldobrandino de Siena, no século XIII, com seus tratados de medicina e de educação “instalaram uma verdadeira obsessão pela limpeza das crianças”.

Eles descrevem todos os pormenores do banho do bebê: três vezes ao dia, as horas, temperatura da água, perto da lareira para não pegar resfriado, etc..

As famosas Chroniques de Froissart, em 1382, descrevem a bacia no mobiliário do conde de Flandes, de ouro e prata.

As dos burgueses eram de metais menos nobres e as camponesas em madeira.

A Idade Média atribuía valor curativo ao banho, como ensinava Bartolomeu o Inglês no Livro sobre as propriedades das coisas.

Na idade adulta os banhos eram quotidianos.

Os centros urbanos tinham banhos públicos quentes copiados da antiguidade romana.

Mas era mais fácil tomar banho quente todo dia em casa.

Na época carolíngia os palácios rivalizavam em salas de banho com os monastérios, que muitas vezes tinham ambulatórios para doentes e funcionavam como hospitais.

Em Paris, em 1292, havia 27 banhos públicos inscritos. São Luis IX os regulamentou em 1268.

Nos séculos XIV e XV, os banhos públicos tiveram um verdadeiro apogeu.

Bruxelas, Bruges, Baden, Dijon, Digne, Rouen, Strasburgo, Chartres... grandes ou pequenas as cidades os acolhiam em quantidade.

Eram vigiados moral e praticamente pelo clero que cuidava da saúde pública.

Os hospitais mantidos pelas ordens religiosas, eram exímios e davam o tom na matéria.

Regulamentos, preços, condições, etc., tudo isso ficou registrado em abundantes documentos, diz Closson.

Dentifrícios, desodorantes, xampus, sabonetes, etc., tirados de essências naturais, são elencados nos tratados conhecidos como ervolários feitos nas abadias.

Historiadores como J. Garnier descreveram com luxo de detalhes os altamente higienizados costumes medievais.

As estações termais também eram largamente apreciadas. Flamenca, romance do século XIII faz o elogio da estação termal de Bourbon-l'Archambault.

Imperadores, príncipes, ricos-homens os frequentavam na Alemanha, Itália, Países Baixos, etc.

A era do ensebamento começou com o fim da Idade Média e durou até o século XX, conclui Monique Closson.

Ao menos até que os movimentos hippies, ecologistas, neo-tribais, etc. voltaram a pôr na moda andar sujo , sem barbear, vestido com blue-jeans e outras peças que estão ou fingem estar em farrapos ou com manchas, que vemos todos os dias na rua, nos transportes, aulas e locais de festa!



(Autor : Monique Closson, "Propre comme au Moyen-Age", Historama N°40, junho 1987)



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terça-feira, 3 de abril de 2018

Andorra: o principado esquecido,
herdeiro da organicidade medieval

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Você conhece um principado que há sete séculos vive em paz, resguardado dos conflitos que não têm cessado de ensanguentar a terra?

Uma nação que soube conservar suas tradições ancestrais, abrindo-se largamente para o progresso moderno?

Ela ocupa um modesto território de 468 km2, no coração da Europa entre a França e a Espanha, aninhada no seio da cordilheira dos Pirineus.

Você adivinhou: trata-se dos Vales de Andorra – les Valls d'Andorra, para empregar o catalão, idioma falado do país.

Convenhamos que é assunto mais frequente, na imprensa internacional, Mônaco e Liechtenstein, do que esse curioso principado montanhês, desconhecido e injustamente esquecido.

Porém, cada verão, milhares de turistas apressados atravessam as fronteiras andorranas para comprar, livres de imposto, bebidas alcoólicas ou aparelhos eletrônicos.

Mas, sem dúvida, quase não têm tempo de estudar as instituições nascidas na Idade Média e que sobreviveram até nossos dias, quase inalteradas...

terça-feira, 27 de março de 2018

As belezas da pobreza bem levada refulgiam na plebe medieval. O exemplo de Domremy.

Casa da família de Santa Joana d'Arc, Domremy, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Ouvindo nossos elogios inclusive as formas de vida das classes populares na Idade Média, alguém poderia objetar:

“bom, a plebe é a classe mais pobre, e que tem menos condições para se cercar de coisas bonitas. Então, daí decorre que a plebe parece o recanto da feiúra dentro do universo. E pelas mesmas razões pelas quais a nobreza seria o recanto da beleza, a plebe seria o recanto da feiúra.

“Os próprios seres humanos, postos num ambiente nobre, deixam ver mais a sua beleza do que no ambiente plebeu.

“Então o que é que o Sr. vai admirar na pobreza?”

A resposta me salta aos lábios, o presépio de Belém.

terça-feira, 6 de março de 2018

Veneza: cidade que desafia o equilíbrio


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Veneza é uma cidade que desafia o equilíbrio. Ela é uma sublime explosão de cores e de formas meio despreocupadas tendendo a um prodigioso meio irreal.

Veneza embriaga.

Veneza é uma das muitas Itálias, porque houve incontáveis Itálias.

Podemos ver antes de tudo, a diferença que vai entre o Campanile ‒ que é uma torre contendo os sinos ‒, e a Basílica de São Marcos.

De lado, fica o incomparável Palácio dos Doges, governantes supremos da República de Veneza eleitos cada cinco anos.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Variedade e unidade das cidades e burgos medievais acolhia extremos opostos e harmônicos

Cesky Krumlov, na República Checa, capital antiga da região de Rosenberg, possuía a nobreza mais rica e influente do país
Cesky Krumlov, na República Checa, capital antiga da região de Rosenberg,
possuía a nobreza mais rica e influente do país
Luis Dufaur
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O espírito católico que permeou a Idade Média, segundo o célebre ensinamento do papa Leão XIII suscitou uma admirável expansão do espírito de cada povo, região, cidade e aldeia.

O resultado no urbanismo foi o aparecimento de cidades com estilos fabulosamente diversos.

Nada havia das cidades monótonas modernas que se repetem a si próprias um pouco por todo mundo.

Cada conjunto humano gestava sem planificação, segundo suas propensões naturais de alma, a cidade que bem entendia.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

As relações patrão-empregado na Idade Média eram de pai para filho

Mestre e aprendiz fabricando tonéis, catedral de Bourges
Mestre e aprendiz fabricando tonéis. Vitral da catedral de Bourges.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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“Todos os membros de um mesmo ofício fazem parte da mesma corporação (antepasado nobre e remoto dos atual sindicato), mas nela não desempenham o mesmo papel.

“A hierarquia vai dos aprendizes aos mestres-jurados, formando o conselho superior da corporação.

“Durante toda a Idade Média, no início as oportunidades são as mesmas para todos, e o aprendiz só não se torna mestre por falta de jeito ou indolência.

“O aprendiz liga-se a seu mestre por um contrato de aprendizagem — sempre esse laço pessoal, caro à Idade Média — comportando obrigações a ambas as partes: para o mestre, a de formar seu aluno no ofício, e seu sustento durante esse tempo; para o aprendiz, obediência a seu mestre e dedicação ao trabalho.

Transpôs-se assim ao artesanato a dupla noção de “fidelidade-proteção”, que une o senhor a seu vassalo.

“Mas como aqui uma das partes contratantes é uma criança de 12 a 14 anos, todos os cuidados são tendentes a reforçar sua proteção.

“Deste modo, por um lado manifesta-se maior indulgência para com suas faltas, estorvamentos e até vagabundagens; por outro, delimitam-se severamente os deveres do mestre: ele não pode ter mais que um aprendiz por vez, para que seu ensino seja frutuoso; não pode explorar seus alunos, descarregando sobre eles uma parte de seu trabalho.