segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Feeria de cores e sons da Paris medieval

Paris, Quai des Grands Augustins
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Por mais admirável que vos pareça a Paris do presente, refazei a Paris do século XV, reconstruí-a em vosso pensamento; olhai o dia através deste renque surpreendente de agulhas, de torres e de campanários, espalhai-o no meio da imensa cidade, rasgai-o nas pontas das ilhas, dobrai-o sob os arcos das pontes do Sena, com suas grandes manchas verdes e amareladas, mais mutável que uma pele de serpente, destacai nitidamente sobre o horizonte azulado o perfil gótico dessa velha Paris, fazei flutuar o contorno em uma bruma de inverno que se agarra em suas numerosas chaminés.

Notre Dame no anoitecer
Afogai-o em uma noite profunda, e olhai o jogo bizarro das trevas e da luz nesse sombrio labirinto de edifícios; jogai aí um raio de lua que o delineie vagamente e fazei sair do nevoeiro as grandes cabeças das torres, ou retomai essa negra silhueta e escurecei de sombra os mil ângulos agudos das flechas e dos pinhões dos telhados e fazei-a sobressair, mais rendada que um pescoço enlutado, sobre o céu de cobre do poente.

E, depois, comparai.

E se vós quiserdes receber da velha cidade uma impressão que a moderna não vos pode dar, subi, numa manhã de grande festa, ao sol levante da Páscoa ou de Pentecostes, subi até algum ponto elevado de onde domineis a capital inteira, e assisti ao despertar dos carrilhões.

Vede, a um sinal partido do céu, porque é o sol que o dá, essas mil igrejas estremecerem ao mesmo tempo.

Primeiro, tinidos esparsos, indo de uma igreja à outra, como quando os músicos se avisam que vão começar; depois de repente vede – porque parece que em certos instantes o ouvido tem também sua vista – elevar-se, no mesmo momento, de cada campanário uma coluna de barulho, como uma fumaça de harmonia.

Clique para ouvir o antigo carrilhão das horas em Notre Dame de PARIS:


Antes, a vibração de cada sino sobe reta, pura e por assim dizer isolada dos outros nesse céu esplêndido da manhã.


Depois, pouco a pouco crescendo, elas se fundem, misturam-se, desfazem-se umas nas outras, amalgamam-se em um magnífico concerto.

Clique para ouvir os sinos da torre norte da catedral de Notre Dame de PARIS:


Não é mais senão uma massa de vibrações sonoras que se desprende sem cessar dos inumeráveis campanários; massa que flutua, ondula, salta, turbilhona sobre a cidade, e prolonga bem além do horizonte o círculo ensurdecedor de suas oscilações.

Contudo, esse mar de harmonia não é de nenhuma maneira um caos. Por maior o mais profundo que seja, ele não perdeu sua transparência.

Clique para ouvir o Bourdon (o sino mor) da Catedral Notre Dame de PARIS:


Vede-os serpentear à parte cada grupo das notas que escapa dos toques; podeis seguir o diálogo, alternadamente grave e agudo, do pequeno e do grande sino; vedes saltar as oitavas de um campanário a outro; lançando-se aladas, ligeiras, murmurantes do sino de prata, e caindo quebradas e claudicantes do sino de madeira; admirais no meio delas a variedade rica que desce e sobe sem cessar dos sete sinos de Saint-Eustache; vedes correr no meio de tudo notas claras e rápidas que fazem três ou quatro zig-zags luminosos e desaparecem como relâmpagos.

Notre Dame na noiteAli é a abadia Saint Urtin, cantora amarga e desafinada; aqui, a voz sinistra e rouca da Bastilha; na outra extremidade, a larga Torre do Louvre, com sua terceira voz.

O carrilhão real do Palácio lança sem descanso de todos os lados trilhas resplandecentes sobre as quais caem a tempos iguais os pesados golpes da torre de Notre-Dame, que as fazem faiscar como a bigorna sob o martelo.

Por intervalos vedes passar sons de toda forma que vêm do tríplice carrilhão de Saint-Germain-des-Prés.

Após, ainda de tempos em tempos, essa massa de barulhos sublimes se entreabre e dá passagem a parte final da Ave Maria que estoura e corusca como uma ‘aigrette' de estrelas.

Abaixo, no mais profundo do concerto, distinguis confusamente o canto interior das igrejas que transpira através dos poros vibrantes de suas ogivas. Certamente, essa é uma ópera que vale a pena ser escutada.

Notre Dame no amanhecerHabitualmente, o ruído que sai de Paris de dia, é a cidade que fala; da noite, é a cidade que respira; aqui é a cidade que canta.

Atentai a esse ‘tutti’ dos campanários, espalhai sobre o conjunto o murmúrio do meio milhão de homens, o queixume eterno do rio, o sopro infindo do vento, o quarteto grave e longínquo das quatro florestas dispostas sobre as colinas do horizonte como imensos tecladas de órgão, extingui assim em uma meia-voz tudo o que o carrilhão central teria de muito rouco e muito agudo, e dizei se conheceis no mundo alguma coisa de mais rico, de mais alegre, de mais dourado, de mais resplandecente do que esse tumulto de sinos e de torres; do que essa fornalha de música; do que essas dez mil vozes de bronze cantando ao mesmo tempo em flautas de pedra, altas de trezentos pés.




(Fonte : Victor Hugo, « Notre Dame de Paris », Garnier-Flammarion, 1967, pp. 158 ss.);





Sinos gloriosos e triunfantes da Igreja Mãe de Paris
Primeira execução oficial dos sinos restaurados em 31.03.2013, Domingo de Páscoa (ficaram intactos no incêndio de 2019)







GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS

Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Professor medieval: cavaleiro andante no mundo do pensamento

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Eu peguei restos de uma concepção do homem que vai espantar muito aos senhores.

A mais bela condição para o homem civil era ser professor universitário.

Mas professor universitário especialmente, porque ele era uma espécie de cavaleiro andante no mundo do pensamento.

Então, ele ia refutar os sofismas abomináveis, e ia esmagar os hereges mostrando que estavam falsos nisso, naquilo, naquilo outro, e passava a vida pensando nisto e combatendo os inimigos de Cristo com o pensamento.

Bom, o arquétipo disso foi São Tomás de Aquino.

Hoje seria um exagero estender a figura de São Tomás de Aquino a todos os professores universitários.

Mas, na Idade Média não, porque ele encarnava um ideal que muitos professores universitários procuravam seguir.

O professor universitário que não vara com a espada os inimigos da fé, mas vara com a argúcia da inteligência os erros contrários à fé, ele forma alunos que são por sua vez capazes de perfurar as heresias, e assim construir as muralhas de pensamento que defendem a fé.

Então, ele é mais ou menos do que o guerreiro?

Aos professores Nossa Senhora chamou para horizontes mais insaciáveis.

São Tomás de Aquino, até onde ele foi? E quanto outros, não é verdade?

O que é preciso é que cada um na sua condição e sem ter a ambição de se promover, tenha as mais altas cogitações e queira fazer do modo mais perfeito aquilo que é próprio à sua profissão.



(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 28/2/91. Sem revisão do autor)




GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

A nobreza do campo brilhava pela capacidade de dirigir respeitosamente a vida agrícola

Casamento de de Carlos VIII e Ana da Bretanha
no castelo de Langeais, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A nobreza do campo se encontrava com alguma frequência com a nobreza de cidade.

Mas os desentendimentos entre uns e outros não eram pequenos.

A nobreza da cidade tinha como objetivo a cultura, o brilho e a delicadeza, enquanto a nobreza do campo privilegiava a força, a capacidade de dirigir, de administrar, de conduzir com respeito cerimonioso toda uma população de uma aldeia.

Para a guerra, uns e outros competiam, arriscavam a vida com uma audácia que poderia quase ser chamada de loucura. E que representava, em última análise, a velha tradição heroica da Idade Média.

Para a guerra, nobres do campo e da cidade se vestiam como para as mais belas festas, sabendo que muitos iam morrer. E aqueles que daqui a pouco seriam cadáveres, eram sóis partindo a cavalo para o ataque do adversário.

Castelo de Fontaine-Henry: reencenação histórica
Reencenação histórica no castelo de Fontaine-Henry, França
O bonito era quando, no começo de uma batalha, as filas inimigas se formavam uma em frente da outra, e o general de cada exército passava em revista seu próprio exército. Então era aclamado pelos soldados.

Os franceses, vestidos com a graça e elegância que todos sabem que é a deles, faziam a chamada guerre en dentelles. Dentelles é renda. Guerras de renda.

Eram muitas vezes ainda couraças, porque as armas de fogo da época eram mais fracas e ainda justificavam o uso de couraças refulgentes.

Mas, por cima delas, os nobres usavam golas de seda e rendas, que saíam da altura do pescoço como uma cascata que cobria o aço, cuja refulgência se via através dos movimentos do tecido.

O que é o papel dessas duas nobrezas? Era fazer notar o verso e o reverso da medalha.

O nobre deve ser fino, elegante e leão. Ele deve ser culto, distinto, bon causeur, sabendo conversar agradavelmente.

Mas, ao mesmo tempo, deve ter uma presença que impõe respeito e até medo.

Em volta dos castelos, a nobreza promoveu
uma agricultura de grande qualidade
Não podendo tudo isso rebrilhar cumulativamente numa só pessoa, a não ser em casos muito raros, era preciso que houvesse uma nobreza da força e uma nobreza da graça.

A nobreza da força sabia entrar em discussão, em confronto, luta, com a nobreza da diplomacia, da política, da vida de corte e da direção administrativa dos altos cargos e altos feudos do reino.

Então, como não cabe reunir todas essas qualidades a não ser em pessoas excepcionais, era preciso que houvesse duas nobrezas. E que cada uma tomasse sobre si alguma coisa.

E o conjunto constituía la noblesse d'épée du royame de France.

O país que com mais harmonia soube unir as qualidades da nobreza da terra e da nobreza de cidade foi a Alemanha.

Milhares de nobres com castelos ainda da Idade Média muito conservados e habitados por seus antigos donos, tinham um mundo de pequenos estados em que cada nobre era soberano e vivia quase como um pequeno rei dentro dele.

Não havia apenas pequenos reis, havia nobres de categorias intermediárias.

Festa no castelo de Vaux-le-Vicomte, França
Por essa forma, a nobreza castelã vivia formando sua corte, e sendo o nobre, ele próprio, um pequeno rei do seu pequeno reino ou feudo.

E reunindo numa espécie de miniatura encantadora os traços distintivos de uma nobreza e de outra.

Quem quiser ter ideia como se vivia nesses feudos pode ler um livro francês, escrito por uma fidalga alemã horrivelmente protestante, a Baronesa de Oberkirch.

Essa baronesa fez uma viagem à França de Luís XVI como dama de honra da princesa casada com o príncipe herdeiro da Rússia, portanto, o futuro Czar.

E antes de visitar a França, ela escreveu um pouco sobre Oberkirch e sobre Würtemberg, no qual Oberkirch era uma coisa um pouco mais ou menos como um enclave com certa autonomia própria.

Então ali ela descreve a pequena nobreza alemã vivendo num misto de campo, castelo e palácio que é verdadeiramente um encanto.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra em 8/4/94, sem revisão do autor)


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Calvário na Normandia

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






No despontar do dia, a luz matutina banha com suavidade os campos verdejantes da Normandia.

Na penumbra de casas seculares que se aninham na colina, o vilarejo começa a despertar ao som do humilde campanário da velha igreja.

A beleza e imponência do edifício tem proporção com a fé dos habitantes.

Almas devotas ali se dirigem para rezar. Antes de voltar à casa, alguns curvam-se com piedade aos pés do artístico cruzeiro de pedra.

A cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, a lembrança de seus sofrimentos no calvário e a prece confiante na misericórdia divina ocupam lugar de relevo na vida desses aldeões, nos quais as asperezas da vida não esmoreceram a fé.

Tal piedade tem um prêmio: todos voltam para suas casas com a paz de alma, a serenidade, a felicidade tranqüila e inalterável da confiança no socorro da Providência.

Calvaire en Normandie, do pintor Pierre Justin Ouvrié (1806-1879), é o título deste quadro rico em evocações de uma era de fé.

(Fonte: W. Gabriel da Silva, “Catolicismo”, fevereiro de 2010)


GLÓRIA CRUZADAS CASTELOS CATEDRAIS HEROIS ORAÇÕES CONTOS SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaAS CRUZADASCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS