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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Cenas da vida de todos os dias numa cidade medieval

Ambiente de conforto e largueza na casa burguesa


A cena acontece num lar da burguesia.

Por certo, o homem não está sofrendo fome.

Olhem com que apetite ele olha para o prato dele! A mulher esta trazendo para ele uma comida.

Eles estão bem agasalhados, o ambiente de conforto que há na casa!

Um burguês ‒ literalmente: habitante do burgo, quer dizer, da cidade, de classe média ‒ está discutindo com criadores camponeses o preço do animal que ele está comprando.

Compra e venda numa rua medieval
Vê-se a diferença de categoria: ele está mais bem vestido, tem a sua bolsinha cheia de dinheiro, e é muito mais seguro de si.

Fome nenhum deles está passando, todos eles estão bem. A vida melhor é certamente a do burguês.

O trabalho é sempre tranqüilo, sempre distendido e dir-se-ia que era especialmente um mundo de obesos.

Numa pequena rua de comércio há lojinhas. Os fregueses estão conversando; os artigos estão expostos à venda e vê-se trabalhadores manuais.

São artesões e alguns produzem a coisa in loco.

Mais uma vez trabalho ao ar livre, trabalho em condições higiênicas, trabalho cômodo.

Nenhum deles está na correria louca de uma pessoa que anda por São Paulo na Avenida Paulista, ou no Rio de Janeiro na Avenida Central.

Todos estão numa vida normal, numa vida calma, só falta sorrir.

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terça-feira, 12 de outubro de 2010

A revolução industrial medieval: os começos da engenharia moderna

Uma certa “lenda negra” visceralmente anti-medieval acostumava apresentar a Idade Média como uma era de retrocesso técnico.

Essa visualização anti-histórica movida por um fundo anti-cristão não resiste mais à crítica científica.

O Professor Raul Bernardo Vidal Pessolani, do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal Fluminens ‒ UFF, vem de publicar a respeito esclarecedora apresentação de Power Point.

A apresentação dispensa comentários e a reproduzimos a continuação:


PowerPoint: A Revolução Industrial Medieval e os começos da Engenharia
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terça-feira, 28 de setembro de 2010

As classes modestas modelavam as classes mais altas

Numa sociedade harmônica com desigualdades proporcionadas, as classes mais modestas têm uma forma de modelar as classes mais altas

Salvo em nações muito pequenas que têm uma classe só, como Andorra, por exemplo, que é uma república de vaqueiros, em todas as sociedades deve haver classes.

Mas, numa sociedade bem ordenada como a medieval, a classe mais alta é o produto característico de toda sociedade. A sociedade se mirava na sua classe mais alta como o artista se mira na sua obra de arte.

Isto é assim porque as classes mais modestas têm uma forma de modelar as classes mais altas que é verdadeiramente interessante.

Por exemplo, um concerto. Na sala está o músico dando o concerto. A gente dirá quanto esse músico modela o espírito artístico do povo.

É verdade, mas uma análise mais profunda mostra que existe uma reciprocidade: quanto o público modela o artista.

Porque instintivamente o artista procura aplauso, e se o povo aplaude nos lugares certos, o artista insiste nesses lugares.

Isso é sobretudo verdadeiro no teatro. No teatro se o artista é aplaudido bem em certas horas por um público inteligente, toda a nível cultural ligado ao teatro nesse povo sobe. Se ele é aplaudido nos lugares errados, aquilo tudo baixa de nível.

Uma vez na Europa eu fui a uma peça de Verdi chamada “Aida”. Eu não gosto da “Aida” e não gosto de Verdi, mas de qualquer maneira fui ver.

Eu olhava em torno de mim, todo o mundo com o sério do sono, e não com o sério de quem presta atenção na música, etc.

Em certo momento entra um carro egípcio puxado por bois. Nesse povo há muitos criadores de gado, e na hora que entraram os bois estourou o entusiasmo da platéia: “Ah, muito bem!” Batiam com os pés no chão, “viva!”

Eu pensei: esse público deforma o artista porque isso não é a hora de fazer esse bulício todo. Na hora em que entra o boi, entra o grande aplauso, o povo deforma. Se, pelo contrário, o público tivesse senso da ópera e do teatro e aplaudisse no momento certo, aí ele modelava bem os artistas.

Num outro país eu vi “Edipo rei”. Num certo momento, chegava a hora em que o Edipo ia cegar-se a si próprio para aplacar a cólera dos deuses. E então, ele fazia um monólogo em cena, como quem está pensando alto.

É uma cena trágica, até que diz “tout est clair!” Mas o ator dizia o “tout est clair” com o jeito de quem encontrou a verdade, mas a verdade é acabrunhadora e vai exigir dele o sacrifício inominável de cegar-se a si próprio, de desistir dos bens que tinha, expatriar-se e caminhar como um cego pelas estradas da Grécia pedindo esmola.

Então ele pára e diz: “Tout est clair! oh! tout est clair!”, e faz um gesto trágico na hora de penetrar na obscuridade definitiva...

Os empresários do teatro tiveram o bom-senso de não exigir que ele arranque os próprios olhos no palco com o pano alto.

Essa cena pungente arrancou do público desse teatro mais aplausos do que os bois provocaram nesse outro país.

Assim o público modela os artistas.

E esse fenômeno natural dá-se também nas sociedades com classes harmônicas e proporcionadas: as classes modestas modelam as classes altas que as dirigem.

Assim também na São Paulo antiga. Quando havia grandes festas particulares, os automóveis iam deixando os convidados que iam, todos em traje de gala ‒ hoje não há mais gala nem grandes festas, mas ante era assim ‒. O povinho ficava de pé nas calçadas olhando as pessoas.

E eu tive a impressão de que o povinho formava uma opinião a respeito das pessoas que passavam e que comentava. Quem estava dentro dos automóveis fingia que não percebia, mas percebia. Assim o povinho sem querer, em certo sentido naturalmente, modelava o pessoal que passava.

Uma vez que houve uma grande festa, eu resolvi não ir à festa para me meter no meio do povinho para ver como é que reagia. Era isso mesmo: “olha aquela! olha aquele outro, olha aqui, depois isso, depois aquilo; não, não é”, não entravam de acordo, etc., etc.

O automóvel passava com as pessoas hieraticamente sentadas, em geral sem conversarem, prova de que estavam prestando atenção no que se dizia deles. Eles modelavam o povo e o povo modelava a eles. Uma espécie de reciprocidade.

Tomem a pessoa mais rica ou mais poderosa, vamos dizer um grande escritor. Dois garis comentam: “olha lá vai fulano”. Um deles diz: “eu não gosto dele, já li muitos romances dele, acho cacetes”. O outro diz: “não, eu achei até, pelo contrário, muito vivos.”

É fatal, o literato ainda que seja Prêmio Nobel começa a andar mais devagar para ouvir o que é que os dois lixeiros estão conversando. É fatal.

Também os alunos modelam até certo ponto o professor. Naturalmente, o professor modela o aluno muito mais. Mas o aluno modela o professor. É uma modelagem recíproca.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 1/4/92. Sem revisão do autor.)

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terça-feira, 31 de agosto de 2010

O Renascimento Urbano medieval

Bruges: nasceu sobre uma ponte do castelo
O renascimento comercial e industrial dos séculos IX e X atraiu o reagrupamento de grupos de pessoas junto às residências senhoris ou episcopais, como no caso de Bruges, hoje importante cidade da Bélgica.

Jean Lelong, cronista de Saint-Bertin, retrata no século XII, o nascimento da cidade de Bruges, dois séculos antes:

“(Balduíno I construiu uma muralha para proteger sua residência dos piratas normandos). Posteriormente, para atender as necessidades dos residentes na fortaleza começaram a chegar negociantes que se instalaram diante da porta de entrada e da saída do castelo.

“Quer dizer, após os comerciantes de artigos caros, vieram logo a seguir: os taverneiros; os hoteleiros que forneciam refeições e abrigo para os negociantes que, por sua vez, vinham a tratar freqüentes vezes com o Senhor e ainda o fazem até o presente; os construtores de casas e pousadas para os que não eram hospedados no interior do castelo. A fórmula de todos era: “Vamos para a ponte”, porque “brugghe” significa ponte no vernáculo.

“A população cresceu tanto que logo surgiu uma cidade importante que até hoje conserva seu nome popular de ponte, ou Bruges.”
Muitos centros episcopais e mosteiros que possuíam relíquias milagrosas estiveram na origem de cidades.

Ao relatar a peregrinação de Saint-Trond, Bélgica, (São Trudo em português; e Sint-Truiden em flamengo), no século XI, o abade Rudolph nos fornece implicitamente o processo de formação de uma dessas cidades:

Saint-Trond nasceu em volta do santuário do santo

“O que ainda contribuiu para aumentar as riquezas foi o túmulo de São Trudo, onde ele se mostrava diariamente com brilho por meio de numerosos milagres, cuja eco era tão espalhado pelo mundo afora que nem o terreno da abadia, ou até mesmo no território de nossa cidade eram suficientes para conter a multidão de peregrinos.

“De fato, até cerca de meia milha em volta da cidade, em todas as estradas que convergiam a ela, e também através dos campos e prados, uma massa de peregrinos ‒ nobres, homens livres e servos ‒ reuniam-se todo dia, e mais especialmente nas festas.

“Aqueles que por causa da multidão não conseguiam encontrar um lugar nos lares dos habitantes da cidade dormiam em tendas ou em abrigos improvisados com paus e panos. Ter-se-ia a impressão de que eles se tinham estabelecido em volta da cidade para sitiá-la.

“Acrescentai a isso um grande número de comerciantes que, com seus cavalos, carruagens, carroças e bestas de carga apenas conseguiam satisfazer as necessidades da multidão dos romeiros.

“E o que dizer das oferendas feitas ao altar?

“Tudo isto sem mencionar os animais de carga, cavalos, bois, vacas, porcos, ovelhas e carneiros que eram trazidos em quantidades inacreditáveis...”

(Fonte: “Documentation Historique” No. 28, 17/04/1970)

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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Remanso medieval: repouso que prepara maiores façanhas

As muralhas protegiam dos perigos e garantiam o aconchego e o remanso da cidade
Uma forma característica de remanso é o aconchego da cidade cercada de muros, com portas que se fecham durante a noite, guardas, sentinelas, etc.

Enquanto do lado de fora tem o inimigo, a proximidade do assalto noturno e outros perigos.

As casas populares procuravam proteção junto ao castelo
Outra forma é o remanso do castelo, num grande campo, junto ao qual as cabanas dos agricultores se reúnem como filhas medrosas em torno da mãe.

O castelo enorme tem encostada uma aldeiazinha a seu lado.

Essa proximidade permite aos aldeãos irem correndo para dentro do castelo se houver ataque. De maneira que todos dormem ao seu lado. O castelo é o grande remanso.

Mas não era moleza. Durante o dia todos trabalham. Acresce que a guerra era freqüente na Idade Média.

Também, os medievais empreendiam viagens enormes, romarias a cidades longínquas que podiam durar meses ou anos, Cruzadas e aventuras da toda ordem. É o contraste.

A gente deve imaginar assim cidades como a de Bruges tão encantadora com seus canais. Hoje, ela ficou meio parada.


Distensão que restaura a hierarquia das coisas
Considerando esse conjunto, o remanso fica delicioso.

É um remanso cheio de calor humano, cheio de aconchego, e que não é um remanso para a vida inteira, mas uma alternativa para a luta, o trabalho e a aventura.

São ocasiões em que toda a sensação de perigo se afasta, e o homem se distende inteiro.

E, nessa distensão, as coisas retornam à sua verdadeira hierarquia.

Porque, na atividade febricitante perde-se o senso da boa ordem, mas nessa distensão as coisas retomam sua verdadeira hierarquia. Isso é propriamente o remanso.

Imaginemos, por exemplo, o comerciante que passou o dia inteiro posto na sua loja.

O grande aconchego e paz do lar medieval
Ele chega a noite em casa, as atividades comerciais estão encerradas, e ele entra num ambiente tão diferente de sua atividade comercial, que fica como que forçado a não pensar mais nela.

Então aí o comércio fica de lado e a hierarquia de valores se restabelece. Restabelecendo-se, ele é capaz de “distância psíquica”.

Tudo isto é bonito e atraente.

Há nisto um equilíbrio, uma ordem, uma afinidade com a natureza humana, que torna isso belo.



O recolhimento não é o contrário da ação. O recolhimento é a fonte da ação.

As grandes ações do homem se resolvem nas horas de recolhimento.

Então, o recolhimento assim vivido não é um convite à preguiça.

Ele restaura as forças para continuar a ação, e por causa disto ele é belo.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 29/4/67. Sem revisão do autor.)

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Video: Aconchego, paz e vida da cidade medieval católica

terça-feira, 20 de julho de 2010

Limpo como na Idade Média: abordagem histórica da época que cultou a higiene

A higiene não é uma descoberta dos tempos modernos, mas “uma arte que o século de Luiz XIV menosprezou e que a Idade Média cultuou com amor”, escreveu a historiadora Monique Closson, autora de numerosos livros sobre a criança, a mulher e a saúde no período medieval.

No estudo de referência “Limpo como na Idade Media”, a historiadora mostra com luxo de fontes que desde o século XII são incontáveis os documentos como tratados de medicina, ervolários, romances, fábulas, inventários, contabilidades, que nos mostram a paixão dos medievais pela higiene. Higiene pessoal, da cozinha, dos talheres, etc.

As iluminuras dos manuscritos são documentos insubstituíveis onde os gestos refletem o “clima psicológico ou moral da época”.

O zelo pela higiene veio abaixo no século XVI, com a Renascença e o protestantismo.

Milhares de manuscritos, diz Closson, ilustram o costume medieval.

Bartolomeu o inglês, Vicente de Beauvais, Aldobrandino de Siena, no século XIII, com seus tratados de medicina e de educação “instalaram uma verdadeira obsessão pela limpeza das crianças”.

Eles descrevem todos os pormenores do banho do bebê: três vezes ao dia, as horas, temperatura da água, perto da lareira para não pegar resfriado, etc..

As famosas Chroniques de Froissart, em 1382, descrevem a bacia no mobiliário do conde de Flandes, de ouro e prata. As dos burgueses eram de metais menos nobres e as camponesas em madeira.

A Idade Média atribuía valor curativo ao banho, como ensinava Bartolomeu o Inglês no Livro sobre as propriedades das coisas.

Na idade adulta os banhos eram quotidianos. Os centros urbanos tinham banhos públicos quentes copiados da antiguidade romana. Mas era mais fácil tomar banho quente todo dia em casa.

Na época carolíngia os palácios rivalizavam em salas de banho com os monastérios, que muitas vezes tinham ambulatórios para doentes e funcionavam como hospitais.

Em Paris, em 1292, havia 27 banhos públicos inscritos. São Luis IX os regulamentou em 1268.

Nos séculos XIV e XV, os banhos públicos tiveram um verdadeiro apogeu. Bruxelas, Bruges, Baden, Dijon, Digne, Rouen, Strasbourgo, Chartres... grandes ou pequenas as cidades os acolhiam em quantidade.

Eram vigiados moral e praticamente pelo clero que cuidava da saúde pública. Os hospitais mantidos pelas ordens religiosas, eram exímios e davam o tom na matéria.

Regulamentos, preços, condições, etc., tudo isso ficou registrado em abundantes documentos, diz Closson.

Dentifrícios, desodorantes, xampus, sabonetes, etc., tirados de essências naturais, são elencados nos tratados conhecidos como ervolários feitos nas abadias.

Historiadores como J. Garnier descreveram com luxo de detalhes os altamente higienizados costumes medievais.

As estações termais também eram largamente apreciadas. Flamenca, romance do século XIII faz o elogio da estação termal de Bourbon-l'Archambault. Imperadores, príncipes, ricos-homens os freqüentavam na Alemanha, Itália, Países Baixos, etc.

A era do ensebamento começou com o fim da Idade Média e durou até o século XX, conclui Monique Closson.

Ao menos até que os movimentos hippies, ecologistas, neo-tribais, etc. voltaram a pôr na moda andar sujo , sem barbear, vestido com blue-jeans e outras peças que estão ou fingem estar em farrapos ou com manchas, que vemos todos os dias na rua, nos transportes, aulas e locais de festa!

(Fonte : Monique Closson, "Propre comme au Moyen-Age", Historama N°40, junho 1987)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Prefeitura de Bremen: grande nave flutuando num mar de pedras

O teto da prefeitura de Bremen tem uma beleza especial. O teto foi muito utilizado como elemento de decoração. Por exemplo na Catedral de Santo Estevão em Viena, e em outros prédios da Idade Média, se aproveitavam ardósias de cores diversas e faziam-se desenhos bonitos. O golpe de vista é magnífico.

O teto é todo ele de cobre azinhavrado. Com o tempo ele fica com esse verde lindo, de esmeralda. Parece todo feito de uma pedra preciosa.

Por outro lado, o prédio é alegre; se o teto fosse preto ficaria de um peso medonho: Mas, o verde turmalina comunica alegria e leveza para todo o edifício. Ele dá impressão de que sobe. O Paço não é uma caixa d'água, um quadradão, mas tudo nele convida para elevar-se.

A impressão ascensional é acentuada por três grupos de janelas.

É o tipo perfeito de teto. O teto não deve pesar, mas deve dar a idéia de uma coisa que convida para subir.

A parte debaixo é levíssima também. Ela é composta de uma série de ogivas que dão para uma galeria aberta, onde as pessoas podem passear e ficar em tempo de chuva. Como se trata de um edifício público era preciso que todo mundo pudesse ficar no edifício se

A galeria acompanha a linha geral do edifício formando um movimento variegado, mas muito leve. O resultado é que a parte intermediária, que poderia pesar um pouco, fica tão leve que é um verdadeiro encanto.



As janelas são tão grandes que na parte central tomam dois andares. Elas são quase o dobro das janelas laterais que já são altas.

Esses quadradões janelões sem apoio nenhum deveriam ficar de um peso enorme. Mas, como puxa para cima, como apóia no chão com muita leveza, como as janelas são esguias, o prédio todo dá uma idéia de conto de fadas pela diferença das cores: verde, vermelho claro, entremeado com o beige das pedras.

Há um jogo de cores tão claro, delicado, leve que a gente poderia ter a impressão de que se se colocasse esse prédio sobre uma jangada, ele flutuaria sobre as ondas e não iria para o fundo. Daria, aliás, um lindíssimo palácio flutuante.

Pelos seus imponderáveis, o paço dá a impressão de uma grande nave que flutua numa praça que é um mar de pedras. Há qualquer coisa de aquático indefinido dentro disso, que é a verdadeira beleza do prédio. O prédio é um encanto.

O Paço Municipal de Bremen tem muitas reminiscências góticas e contrasta com a Catedral, que é um misto de gótico e de romano. Enquanto este prédio sorri, a Catedral, pelo contrário, tem qualquer coisa de majestoso, de forte e de sério, que lembra um dos aspectos da Igreja Católica: Sua divina severidade.

Esta é uma das mil maravilhas da Europa antiga que o espírito pro¬gres¬sista procura de todos os modos insultar, e que os tratadistas de arte e de história procuram desvirtuar. Porque, a descrição de um edifício desses com as técnicas atuais é inteiramente oposta.

É assim: “Rathaus da cidade de Bremen, século tanto; material empregado: brique tirado de terra especial que se encontra na montanha tal, de onde lhe vem por tal reação química a consistência e a durabilidade do seu vermelho.

Resultado: a gente tem a impressão de que está descrevendo um cadáver. É um pouco como quem diante do cadáver de São Sebastião, em vez de dizer: “Pro-consul romano, chefe da guarda pretoriana imperial” e fazer um belo comentário, não!:

“São Sebastião; cadáver encontrado na catacumba de tal, etc, pelo famoso arqueólogo Fulano do Tal; é o número tanto do grande álbum de não sei o quê, intitulado tal coisa assim. Esse cadáver mostra que São Sebastião tinha um metro e tanto, por tanto de largo, etc., etc. Discute-se pelos seus traços se ele era da Ilíria ou da Macedônia. Há a esse respeito duas federações de associações, cada uma delas sustentando um ponto de vista. É de se notar que as armaduras que ele traz são de aço de tal, o que vem provar que o exército romano temperava os seus metais de tal maneira assim”.

Um jovem que ouve no museu um comentário desse tem vontade de sair correndo. Porque isto é a morte no seu aspecto mais horroroso, que é a coisa reduzida a esqueleto.

Aí a gente não tem a sensação da morte mas da perenidade. Não é possível que uma coisa destas esteja definitivamente morta. Não é da glória de Deus.

Ele não pode permitir que uma coisa destas tenha desaparecido da Terra e que nunca mais algo de análogo vá brilhar como um valor que oriente os homens. Se isto fosse assim, era para o mundo terminar logo, porque que haja novos séculos e novas civilizações construídas sobre o conspurcado de tudo isso é impossível, a glória de Deus não permite.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 14.8.67, não revisto pelo autor)

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terça-feira, 22 de junho de 2010

Paço Municipal de Bremen: uma espécie de palácio real

Paço municipal de Bremen: o símbolo da autonomia da cidade
Bremen é uma das mais gloriosas cidades medievais da Alemanha.

As cidades de Bremen, de Hamburg, de Lübeck e de Danzig eram as quatro cidades pivots da Liga Anseática. Eram cidades que adotavam uma forma de governo burguesa em que as corporações elegiam uns tantos representantes, que constituíam a Câmara Municipal.

De fato, o governo da cidade acabava tocando a uma oligarquia de famílias, que constituía uma aristocracia monetária dedicada ao comércio e à indústria. Elas se ligaram e formaram a famosa Liga Anseática que chegou a ter marinha de guerra própria a era tão rica que emprestava dinheiro até aos imperadores do Sacro Império Romano Alemão. Durante algum tempo foi uma das maiores potências da Europa.

Como essas cidades eram governadas pelas prefeituras e o paço municipal era o símbolo da autonomia da cidade, elas procuravam fazer prédios municipais muito bonitos e dignos. Os Países Baixos e a Alemanha eram lugares de municipalismo muito desenvolvido com paços municipais que eram verdadeiros palácios régios.

O paço municipal — Rathaus (em alemão), ou Casa do Conselho — de Bremen tem uma praça e ao fundo a Catedral. A Catedral, a praça e a prefeitura formam um só conjunto visual.

Praça de Bremen: irregular mas com simetria, disposição muito judiciosa e adequada
A praça é irregular mas tem simetria pela disposição muito judiciosa e adequada. Ela evi¬ta ficar como as praças de certas cidadezinhas — simétricas, chão ba¬tido, com poças d'água, milho, galinha, pinto postas ao contrário das obras de Deus, sem conta, sem peso e sem medida.

O urbanismo moderno não usa jato d'água. Um jato d'água elegante, leve, bonito, poderia atenuar a irremediável das técnicas modernas.

A praça tem uma torre colocada num lugar assimétrico, mas que é antiga e que condiz com o monumento. Este edifício com algumas figuras no alto é antigo também. Todo o ambiente é antigo. O ambiente é renascentista com reminiscências medievais.

continua no próximo post

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 14.8.67, não revisto pelo autor)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Influência dos mosteiros no renascimento econômico medieval



Para Henry Goddell, presidente do Massachusetts Agricultural College, os monges salvaram a agricultura durante 1.500 anos.

Eles procuravam locais longínquos e inacessíveis para viver na solidão. 

Lá, secavam brejos e limpavam florestas, de maneira que a área ficava apta a ser habitada.
Novas cidades nasciam em volta dos conventos.

O terreno em torno da abadia de Thorney, na Inglaterra, era um labirinto de córregos escuros, charcos largos, pântanos que transbordavam periodicamente, árvores caídas, áreas vegetais podres, infestados de animais perigosos e nuvens de insetos.

Abadia de Thorney
A natureza abandonada a si própria, sem a mão ordenadora e protetora do homem, encontrava-se no caos.

Cinco séculos depois, William de Malmesbury (1096-1143) descreveu assim o mesmo local: "É uma figura do Paraíso, onde o requinte e a pureza do Céu parecem já se refletir. [...] Nenhuma polegada de terra, até onde o olho alcança, permanece inculta. A terra é ocultada pelas árvores frutíferas; as vinhas se estendem sobre a terra ou se apóiam em treliças. A natureza e a arte rivalizam uma com a outra, uma fornecendo tudo o que a outra não produz. Oh profunda e prazenteira solidão! Foste dada por Deus aos monges para que sua vida mortal possa levá-los diariamente mais perto do Céu!” (p. 31). Mais tarde o protestantismo reduziu Thorney a ruínas, mas estas ainda emocionam os turistas.

Aonde chegavam, os monges introduziam grãos, indústrias, métodos de produção que o povo nunca tinha visto.

Selecionavam raças de animais e sementes, faziam cerveja, colhiam mel e frutos.

Na Suécia, criaram o comércio de milho; em Parma, o fabrico de queijo; na Irlanda, criações de salmão; por toda parte plantavam os melhores vinhedos.
Até inventaram a cerveja como a conhecemos hoje e a champagne!

Abadia de Beauport
Represavam a água para os dias de seca. Os mosteiros de Saint-Laurent e Saint-Martin canalizavam água destinada a Paris.

Na Lombardia, ensinaram aos camponeses a irrigação que os fez tão ricos. Cada mosteiro foi uma escola para explorar os recursos da região.

Seria muito difícil encontrar um grupo, em qualquer parte do mundo, cujas contribuições tivessem sido tão variadas, tão significativas e tão indispensáveis como a dos monges do Ocidente na época de miséria e desespero que se seguiu à queda do Império Romano.

Quem mais na História pode ostentar semelhante feito? –– pergunta o historiador Thomas Woods.

Realmente, por mais que se procure, não se encontra.

terça-feira, 25 de maio de 2010

As estirpes familiares na origem da grande ordem do feudalismo - 3

Estamos diante de um dos fatos primordiais da história da humanidade. Quando estas tribos semi-civilizadas foram empurradas para o alto dos montes e para detrás dos pântanos, começou a nascer uma série de estirpes.

Uma estirpe é algo muito diverso de uma família.

O que é uma família? É a conjunção de pai, mãe e filhos. Basta haver pais legitimamente casados para que haja família.

Estirpe, contudo, é bem diverso. A língua francesa, que é muito precisa, fala em source, ou seja, fonte, origem. Eles tanto dizem source de uma família quanto source de um rio.

O que vem então a ser a source de uma família?

O que é um homem-estirpe? Aquele que funda uma estirpe é um homem com personalidade bastante vigorosa para criar uma família que mantém a hereditariedade de seus principais traços morais e físicos; é um homem que dá aos seus uma formação suficientemente forte para que o impulso inicial que ele comunica a uma determinada ordem de coisas continue depois dele; é um homem que funda uma escola de modo de sentir, de agir, de ser, de vencer dificuldades, que funda um pequeno sistema de vida.

É preciso ter muito mais personalidade para fundar uma estirpe do que para governar um Estado. Isto, qualquer político o faz. Mas para fundar uma estirpe é preciso ter uma personalidade pujantíssima; e para que ela seja lançada em sentido sadio, é preciso que seja pujantemente sadia.

O admirável neste momento da história européia é que essas famílias, escorraçadas, banidas, lançadas ao sumo infortúnio, reagem; e formam-se estirpes por toda parte, as estirpes nobres da Europa.

Essas estirpes que nascem, e que vão marcar mil anos de História, nascem no infortúnio o mais atroz. Pelo seu vigor natural, e sobretudo pela correspondência que seus membros deram à graça de Deus, a família abandonada, isolada, deu origem à família nobre, e o conjunto das famílias nobres deu origem à Europa. Eis a verdadeira história do feudalismo.

Entre os sucessores de Carlos Magno, ficou assentado que os cargos seriam vitalícios e hereditários; isto era já um princípio de feudalismo.

Mesmo no tempo de Carlos Magno ele já nomeava condes, que eram os grandes proprietários de determinada região.

Vê-se que ele já tinha o intuito de apoiar a administração central sobre os valores locais autênticos. Por outro lado, podemos afirmar que um conjunto de fatores que nasciam das entranhas cristãs da sociedade do tempo preparava esta distribuição justa de cargos.

Não há dúvida, pois, que tudo isto concorreu muito para a criação do feudalismo. É uma convergência de circunstâncias. Ele nasceu de tantos fatores, que seria mais certo apontá-lo como resultante da convergência deles.

Nosso Senhor Jesus Cristo constituiu feudalmente, de direito divino, a Sua Igreja. 

O bispo é o senhor feudal de que o Papa dispõe. 

Seria normal, portanto, que das entranhas da sociedade cristã nascesse naturalmente o feudalismo, não como a única forma possível de organização da sociedade, mas a mais adequada, a mais compatível com a ordem divina.

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terça-feira, 11 de maio de 2010

A família na origem do feudalismo e do Estado medieval - 2

No topo dos morros, refúgios para escapulir dos bárbaros
Diante das destruições dos bárbaros, os homens mais civilizados, horrorizados com o que sucedia, co-meçaram a galgar os montes e montanhas, fixando-se nos pontos menos acessíveis.

De tal modo que os normandos, passando, não tivessem vontade de atingi-los.

Começaram, por outro lado, a fixar culturas e a construir casas por detrás dos pântanos, nos lugares chamados marécage, zonas pantanosas atrás das quais há regiões férteis.

Frederico de Sonneburg, Codex Manesse
Os bárbaros, que percorriam os caminhos das grandes cidades, não os encontravam, por estarem escondidos por detrás dos pântanos, nas montanhas, nas regiões as mais inóspitas.

Eram fugas desordenadas, levadas a efeito pelo pavor. Por isso fugiam, não cidades inteiras, mas grupos de famílias. E cada qual para onde podia.

Em presença da rudeza da natureza e dos adversários que os atacavam de to-dos os lados, não tendo mais um Estado que os governasse – pois que os reis, fracos e sem nenhum poder, não podiam fazer chegar suas ordens a esses lugares absoluta-mente recônditos – ficaram reduzidos à célula inicial da sociedade, a família.

Esta foi a organização natural primeira que lhes permitiu sobreviver.

Apareceu então o paterfamilias desta célula que era ao mesmo tempo um pequeno exército, uma pequena unidade religiosa, um pequeno núcleo de produção, constituindo em cada ponto do território um pequeno país.

Em cada um destes grupos sociais, um homem, em geral de envergadura maior, tomava a direção.

Ele era o suporte natural daquela coletividade em debandada.

Era um homem de personalidade muito ampla, dotado do poder de chefiar, da perspectiva dos perigos, da capacidade de organizar, e no qual todos encontravam ponto de apoio.

Ele organizava a vida. Sua prole herdava suas qualidades e herdava suas funções.

Em torno deste homem e desta família princeps começaram então a se agluti-nar as famílias dos fugitivos, constituindo pequenas unidades sociais, que eram naturalmente monárquicas e familiares.

Monárquicas pela presença de uma autoridade única inquestionável; familiares porque, em essência, o que havia era o chefe com sua grei, e depois os agregados que ali entravam como pessoas admitidas, toleradas, semi-assimiladas, mas que não constituíam propriamente a essência daquela unidade, que se consubstanciava no chefe e na sua família.

Funck-Brentano (“L’Ancien Régime”, Arthème, Fayard e Cie., Paris, 1937) dá-nos uma descrição em extremo pitoresca – no que ele é exímio – de uma dessas pequenas aldeias de tipo fundamentalmente familiar, que vai se formando.

terça-feira, 27 de abril de 2010

A família na origem e na alma do Estado medieval - 1

A família gerou o Estado medieval
Os séculos mais aflitivos da História foram, certamente, quando ruiu o Impé-rio Romano do Ocidente e a Europa viu-se invadida pelas primeiras hordas bárbaras.

Os francos eram de um barbarismo o mais rude que se possa conceber. Mas com o passar do tempo foram sendo civilizados, embora precariamente. Nos séculos VII e VIII as hordas representavam apenas pouco menos que a barbárie.

Fora este, tão somente, e após tremenda luta, o modestíssimo fruto conseguido pela Igreja Católica. Alguns ela arrancara ao arianismo, convertera outros, e ia conseguindo um lento processo de mitigação e dulcificação dos costumes.

Sobre esta imensa obra, ainda em começo, sopraram então, de modo verdadeiramente trágico, os tufões da adversidade. As torneiras do mundo não cristão se abrem, e catadupas de pagãos invadem a Europa.

Da Rússia e da Prússia, regiões ainda desconhecidas, desceram bárbaros, ainda mais primitivos que os da primeira invasão, assolando, saqueando, reproduzindo os horrores antes perpetrados no Império Romano do Ocidente.

Bárbaros extinguiram a civilização romana
Do norte, pelo mar, vieram os normandos, de igual rudeza. Em determinado momento, tomados de um furor navegatório, famílias, tribos, nações, o reino inteiro meteu-se em barcos e pôs-se a viajar. Iam em cascas de nozes, beliscando o litoral, saqueando, comendo, arrasando. Alguns de seus chefes intitulavam-se “reis do mar”.

Nesta sanha chegaram até Constantinopla e invadiram Bizâncio, sempre assolando tudo, fazendo por vezes incursões profundas e deixando alguns pelas terras onde passavam, que continuavam a obra de destruição.

De outro lado, vindos da Espanha e invadindo até o coração da França, surgi-ram os sarracenos. Atravessaram o Mediterrâneo, atacando alguns o sul da França e outros a Itália.

Todas as forças infernais desencadeadas abateram-se sobre a Cristandade ocidental. O desastre foi imenso.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Andorra: o principado esquecido, herdeiro da organicidade medieval

Você conhece um principado que há sete séculos vive em paz, resguardado dos conflitos que não têm cessado de ensangüentar a terra?

Uma nação que soube conservar suas tradições ancestrais, abrindo-se largamente para o progresso moderno?

Ela ocupa um modesto território de 468 km2, no coração da Europa entre a França e a Espanha, aninhada no seio da cordilheira dos Pireneus.

Você adivinhou: trata-se dos Vales de Andorra – les Valls d'Andorra, para empregar o catalão, idioma falado do país.

Convenhamos que é assunto mais freqüente, na imprensa internacional, Mônaco e Liechtenstein, do que esse curioso principado montanhês, desconhecido e injustamente esquecido. Porém, cada verão, milhares de turistas apressados atravessam as fronteiras andorranas para comprar, livres de imposto, bebidas alcoólicas ou aparelhos eletrônicos. Mas, sem dúvida, quase não têm tempo de estudar as instituições nascidas na Idade Média e que sobreviveram até nossos dias, quase inalteradas...

Certos autores, desorientados pela originalidade de seu sistema político, têm falado de “República de Andorra”. Mesmo sendo muito democrático o funcionamento do Estado, Andorra é bem um principado, ou, para ser mais preciso, um “co-principado”.

Com efeito, dois “co-principes”, de igual dignidade, exercem uma soberania consagrada pela História. Um deles é D. João Marti Alanis, bispo de Urgell. O outro é o presidente da França.

Mas como se chegou a essa situação singular? Isso merece, certamente, uma explicação.

Uma legenda dourada conta que o próprio Carlos Magno concedeu a liberdade aos andorranos, para os recompensar por o haverem ajudado a combater os mouros da Espanha. O hino nacional proclama ufanamente essa filiação imperial, ao menos hipotética: “El grau Carlemany, mon Pare, dels Alarbs me desllivrá... O grande Carlos Magno, meu pai, dos árabes me livrou...”

terça-feira, 16 de março de 2010

O rei Carlos VII e a estuprada semvergonha

Carlos VII

Carlos VII foi um rei medieval. Ele não sobresaiu especialmente, a não ser pelo fato de Santa Joana d'Arc tirá-lo da desgraça e de corrosivas dúvidas interiores.

Entretanto, como todos os reis medievais ungidos pela Igreja, tinha um auxílio especial para governar. Eis um exemplo característico:


Uma moça foi queixar-se a Carlos VII, da França, de que fora violentada por um rapaz.

O rei mandou comparecer diante dele o culpado, e o obrigou a entregar à moça, em sua presença, uma vultosa indenização.

Logo depois que a moça se afastou, o rei disse ao rapaz:

— Agora vá atrás dela e tome-lhe o dinheiro.

O rapaz fez como lhe foi ordenado, mas a moça resistiu valentemente.

Carlos VII tendo a seu lado Santa Joana d'Arco
O rei ordenara também aos guardas que os acompanhassem à distância e lhe trouxessem novamente à presença o casal, flagrado nessa disputa pública.

Diante do rei, a moça ainda mantinha agarrada contra o peito a bolsa contendo a indenização.

E o rei lhe disse:

— Devolva a esse moço o dinheiro que lhe deu, pois você só foi violentada porque o quis. Se tivesse defendido a própria honra com tanto empenho como defendeu o dinheiro, ele não teria conseguido violentá-la, como não conseguiu retomar o dinheiro.

terça-feira, 2 de março de 2010

Calvário na Normandia

No despontar do dia, a luz matutina banha com suavidade os campos verdejantes da Normandia.

Na penumbra de casas seculares que se aninham na colina, o vilarejo começa a despertar ao som do humilde campanário da velha igreja.

A beleza e imponência do edifício tem proporção com a fé dos habitantes.

Almas devotas ali se dirigem para rezar. Antes de voltar à casa, alguns curvam-se com piedade aos pés do artístico cruzeiro de pedra.

A cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, a lembrança de seus sofrimentos no calvário e a prece confiante na misericórdia divina ocupam lugar de relevo na vida desses aldeões, nos quais as asperezas da vida não esmoreceram a fé.

Tal piedade tem um prêmio: todos voltam para suas casas com a paz de alma, a serenidade, a felicidade tranqüila e inalterável da confiança no socorro da Providência.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O urbanismo medieval e o urbanismo moderno

Quando nas iluminuras medievais consideramos uma cidade vista de longe, ela se apresenta de modo inteiramente diferente da cidade moderna.

A cidade moderna é de contornos imprecisos, irregulares, é como um tumor que se vai estendendo de lá para cá e para acolá, de maneira tal que numa certa direção ela cresceu muito, e noutra existem ainda parques que vão quase até o seu centro.

A cidade medieval nos dá impressão de uma moeda bem cunhada.

Ela está repleta de casas, num recinto delimitado por um muro e realçado por torres.


O limite é definido e claro: para além do muro, campo; para dentro do muro, cidade.

O muro é o resplendor da cidade, que tem em torno de si uma coroa feita de muralhas, assegurando-lhe a possibilidade de se defender por si própria e de manter sua autonomia.

Vista assim em seu conjunto, a cidade dá a impressão de uma caixa de tesouros.

Porque o que emerge de dentro dela são coisas preciosas: as torres das igrejas, as pontas das catedrais com as rosáceas e os vitrais, as torres de um ou outro palácio, etc.

Dir-se-ia que entre suas torres havia uma espécie de competição para atingir o céu.

As ruas não correspondiam muito às idéias do urbanismo moderno.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Variedade e unidade das quase contraditórias cidades e burgos medievais

O espírito católico que permeou a Idade Média, segundo o célebre ensinamento do papa Leão XIII suscitou uma admirável expansão do espírito de cada povo, região, cidade e aldeia.

O resultado no urbanismo foi o aparecimento de cidades com estilos fabulosamente diversos.

Nada havia das cidades monótonas modernas que se repetem a si próprias um pouco por todo mundo.

Cada conjunto humano gestava sem planificação, segundo suas propensões naturais de alma, a cidade que bem entendia.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Diferença proporcionada de classes e participação harmônica e desigual na direção da sociedade

A Igreja Católica, na Civilização Medieval, manteve o regime das classes sociais diferentes, reconhecendo a existência de um clero, uma nobreza e um povo.

Mas ao mesmo tempo que manteve essa diferença, alterou fundamentalmente alguns aspectos dessa diferença.

Antes de tudo, a primeira das classes sociais, que era o clero, era uma classe completamente aberta a todas as pessoas que tivessem vocação para nela ingressar.

A Igreja nunca exigiu que a pessoa pertencesse a determinada classe social para chegar a entrar no clero.

Pelo contrário, foi muito freqüente o exemplo de pessoas pertencentes às camadas mais modestas da sociedade e que ascendiam a mais alta categoria da hierarquia eclesiástica.

De outro lado, tínhamos a nobreza. A nobreza era uma classe hereditária, mas havia aí também uma grande diferença.

Em primeiro lugar, um nobre podia ser destituído de sua nobreza, se ele praticasse determinados atos infamantes.

De outro lado, um plebeu poderia ser promovido a nobre se ele praticasse atos de relevância.

De maneira que a condição de nobre não era uma condição fechada, na qual ninguém pudesse entrar e ninguém pudesse sair.

Era, pelo contrário, uma condição que passava por uma renovação lenta.

Aos poucos os elementos deficientes eram eliminados e os elementos novos que iam aparecendo, eram aproveitados. Esta classe era uma classe que tinha alguma fixidez, mas era uma classe aberta.