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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A tradição familiar, as estirpes e o governo do Estado

Festa de aniversário, William Powell Frith (1819 – 1909), Mercer Art Gallery, Harrogate Museums and Arts
Festa de aniversário, William Powell Frith (1819 – 1909), Mercer Art Gallery, Harrogate Museums and Arts
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior: Por que os filhos parecem com os pais As forças misteriosas da hereditariedade




Três elementos – a hereditariedade de corpo, de alma e o ambiente moral – completados com outros, como a expressão da mentalidade da família no modo de ser cortês, no modo de conversar, de decorar a casa, de cozinhar, de tratar os negócios, no modo até de conceber as relações afetivas, o casamento, o noivado, etc, todo este conjunto constitui a tradição que uma família transmite.

Se estas forças podem ser extraídas, desenvolvidas e firmadas pela família, a família deve produzir esta tradição.

Chamamos estirpe uma família que assim produz uma tradição: um tipo físico muito continuado, um tipo de constituição psíquica e nervosa muito definida, um tipo de virtudes, e às vezes também de defeitos muito definidos, um sistema de vida, um estilo de existência, tudo muito definido.

Estirpe é uma família que carreia consigo uma grande densidade de tradição, sob todos estes aspectos, e que constitui um todo homogêneo e igual a si mesmo, através de vários séculos.

Os homens passam, a estirpe é sempre a mesma; como um rio, em que a água passa, mas ele é sempre o mesmo.

Esta noção de estirpe precisa ser completada.

Alegria numa família popular, Jan Steen, (1668)
Alegria numa família popular, Jan Steen, (1668)
Não há estirpes somente na classe nobre, mas em todas as classes sociais.

Se ela é o produto natural do desenvolvimento da família, e se esta é chamada pelos desígnios da Providência a desenvolver-se, devemos ter séries e séries de estirpes em todos os graus da hierarquia social.

Estirpes de padeiros, de príncipes, de lixeiros, de joalheiros, de cantores.

É o conjunto destas estirpes que constitui a nação.

E a nação não apenas no presente, mas como uma continuidade histórica, no passado, no presente e no futuro.

O Brasil de hoje é o mesmo Brasil de outrora porque descende das mesmas e antigas estirpes, conservando uma identidade de tradição.

Porém, à medida que estas estirpes vão se desbotando e sendo substituídas por novas, sem verdadeira tradição, ele já não é mais o mesmo.

Este é um processo multissecular.

O Egito de hoje já não é o Egito de outrora, pois as estirpes não são as mesmas.

O que nasceu no feudalismo, tanto nas cidades como nos campos, foi um conjunto enorme de homens que formaram estirpes.

Este conjunto de estirpes, e de organizações com base em estirpes, é que propriamente constituiu a Idade Média.

O que ela teve de mais intrínseco e arraigado foi esta estrutura de estirpes, vivificada pelo espírito de família.

A Igreja ama e favorece as estirpes


Por que razão a Revolução detesta esta ordem de coisas? Porque é a menos igualitária delas.

Casamento, Giulio Rosati (1858–1917)
Casamento, Giulio Rosati (1858–1917)

A afirmação de que os homens não só são desiguais depois de nascidos, mas o são antes mesmo de nascerem, é abominável aos revolucionários.

Nesta concepção, via de regra o futuro do indivíduo está pré-estabelecido pelo aproveitamento que o seu livre arbítrio dará, conforme corresponda ou não à graça de Deus, às riquezas que a hereditariedade nele depositou.

Ainda que aproveite muito, não será mais do que aquelas riquezas o permitirem.

E elas são muito desiguais.

Chegamos assim a uma desigualdade hereditária, que é o contrário do que a Revolução Francesa afirmara.

Ela quis fazer crer a igualdade de todos os homens.

Tolerou, por não ter outra solução, a desigualdade baseada no mérito.

Mas esta tradição, resultado de um conjunto de méritos passados, que dá ao homem uma formidável vantagem sobre os demais, este elemento de desigualdade, jamais ela toleraria.

A desigualdade fundamental que afirmamos está necessariamente ligada às estirpes e à organização da família.

A estirpe é contrarrevolucionária ainda por outro aspecto.

Tomemos como exemplo algum clube: o Harmonia, em São Paulo, um clube grã-fino.

Brinde de muitas gerações em família, P.S. Krøyer, 1888
Brinde de muitas gerações em família, P.S. Krøyer, 1888
É puramente artificial, meramente convencional.

Poderia chamar-se Lírio Azul, ter sua sede num bairro proletário e constar de outros sócios.

A estirpe, não: é como deve ser, e não pode deixar de ser daquele modo.

Ela constitui uma espécie de personalidade coletiva de cada um.

Cada qual será ele mesmo na medida em que estiver integrado em sua estirpe, e desenvolver as qualidades próprias a ela; não poderá ser outra coisa, não poderá querer para si algo que era próprio dos príncipes Condés.

Cada qual só conseguirá ser o que é, da melhor forma que puder.

Se esta personalidade coletiva se romper ou truncar, é sua própria personalidade que ficará ferida.

Cada homem não pode deixar de fazer parte da sua estirpe.

Se esta sofrer algum detrimento, é ele que sofrerá.

A sua mentalidade é um fragmento dela.

O natural da pessoa é estar integrada num todo com o qual tenha conaturalidade.

As estirpes e o Estado


Se houver uma família com caracteres bem definidos, espraiando-se numa parentela muito remota, mas muito unida, em que todos tenham a sensação viva de serem membros da mesma família, cada membro será amparado por um grupo social independente do Estado.

A família é uma potência, um todo, move-se independentemente do Estado, constitui uma célula com a qual o Estado tem que contar.

Seus membros não dependem de Institutos de Previdência; se empobrecerem, a família os ajudará.

Os parentes constituem o meio de suas relações, que lhes asseguram uma posição social, independente da maneira de se trajarem, etc.

Com instituições desta natureza o Estado pouco pode.

Se alguém nasceu em determinada estirpe, o Estado não a pode promover muito além disso.

Alegoria do bom governo, Ambrogio Lorenzetti (1290 - 1348), Prefeitura de Siena
Alegoria do bom governo, Ambrogio Lorenzetti (1290 - 1348), Prefeitura de Siena
Uma estirpe definida é o fator da própria independência do indivíduo, cria uma barreira contra arbitrariedades do Estado.

Numa sociedade repleta de estirpes há grupos sociais muito importantes, que o Estado deve a todo momento tomar em consideração.

Uma sociedade sem estirpes, onde só há parentescos vagos e as famílias se desbotam, é a sociedade de hoje.

Na organização feudal e medieval a matéria-prima são as estirpes.

São um, dois, dez séculos de continuidade histórica realizada por essas estirpes.

É preciso notar que os historiadores são concordes em afirmar a existência de obras que precisam ser levadas a cabo por várias gerações: a fundação de certos países, o desenvolvimento de certa política, a criação de certas fontes de prosperidade.

A instituição que, de direito natural, assegura a realização da obra histórica através das gerações, é a família.

A estirpe faz com que, ao longo das gerações, uma dinastia realize uma obra: uma família de sineiros aperfeiçoe certo tipo de sinos, uma de viticultores chegue a produzir um vinho excelente, ou uma de professores apure um sistema didático incomparável.

São obras de gerações, e são as obras mais profundas da História.

De direito natural, devem ser desenvolvidas por estirpes.



Continua no próximo post: As famílias na justiça de Deus


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