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Não deve iludir-nos determinada literatura, em que o vilão muitas vezes está envolvido.
Não passa de testemunho do rancor, velho como o mundo, que sente o charlatão, o vagabundo, pela situação do camponês no domínio, cuja morada é estável, cujo espírito por vezes é lento, e cuja bolsa muitas vezes demora a abrir-se.
A isto se acrescenta o gosto, bem medieval, de zombar de tudo, inclusive daquilo que parece mais respeitável.
Na realidade, nunca foram mais estreitos os contatos entre o povo e as classes ditas dirigentes — neste caso, os nobres.
Contatos estes facilitados pela noção de laço pessoal, essencial para a sociedade medieval, e multiplicados pelas cerimônias locais, festas religiosas e outras, nas quais o senhor encontra o rendeiro, aprende a conhecê-lo e partilha a sua existência, muito mais estreitamente do que, nos nossos dias, os pequenos burgueses partilham a dos seus criados.
A administração do feudo obriga o nobre a ter em conta todos os detalhes da vida dos servos.
Nascimentos, casamentos, mortes nas famílias de servos entram em linha de conta para o nobre, como interessando diretamente o domínio.
Nobre dirige os trabalhos da agricultura no feudo. Todos os detalhes exibem abundância
e boa organização da produção, além de camponeses bem vestidos e educados.
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Cabe-nos o direito de aceitar sem contestação a lenda do camponês miserável, inculto (esta é uma outra história) e desprezado, que se impõe ainda em grande número dos nossos manuais de História?
Veremos que o seu regime geral de vida e de alimentação não oferecia nada que deva suscitar piedade.
O camponês não sofreu mais na Idade Média do que sofreu o homem em geral, em todas as épocas da história da humanidade.
Sofreu sim a repercussão das guerras, mas terão elas poupado os seus descendentes dos séculos XIX e XX?
Além disso, o servo medieval estava livre de qualquer obrigação militar, como a maior parte dos plebeus.
E o castelo senhorial era para ele um refúgio na desventura, a paz de Deus uma garantia contra as brutalidades dos homens de armas.
A condição dos camponeses obrigava à proteção e deixava-os livres para trabalhar a terra
de que acabaram ficando donos. Parada histórica em Pisa, Itália.
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É oportuno notar-se que o nobre está submetido às mesmas obrigações que o servo, porque também em caso algum pode ele alienar o seu domínio, ou separar-se dele de qualquer forma que seja.
Nas duas extremidades da hierarquia encontramos essa mesma necessidade de estabilidade e fixação, inerente à alma medieval, que produziu a França e, de uma maneira geral, a Europa ocidental.
Não é um paradoxo dizer que o camponês atual deve a sua prosperidade à servidão dos seus antepassados, pois nenhuma instituição contribuiu mais para o destino do campesinato francês.
Mantido durante séculos sobre o mesmo solo, sem responsabilidades civis, sem obrigações militares, o camponês tornou-se o verdadeiro senhor da terra.
Só a servidão poderia realizar uma ligação tão íntima do homem à gleba, fazendo do antigo servo o proprietário do solo.
Se permaneceu tão miserável a condição do camponês na Europa oriental — na Polônia e em outros lugares — é porque não houve esse laço protetor da servidão.
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Um mecânico de 24 anos ganhou o prêmio internacional concedido ao mais competente operário de oficina do mundo.
Trata-se de Enzo Malter, da cidade interiorana de Farias, na província argentina de Santiago del Estero. Ele já havia sido premiado como o mais competente da Argentina durante três anos consecutivos.
Enzo explicou ao jornal “La Nación” que é mecânico “desde sempre”, quer dizer, desde muito pequeno, quando ajudava seu avô, seu pai e seu irmão mais velho na oficina familiar em sua cidade natal.
Ele apreendeu a profissão fazendo pequenos serviços no local de trabalho familiar. Quando mudou para Córdoba, uma cidade bem maior e mais exigente, estudou no Instituto Renault e trabalhou numa oficina importante.
A mudança foi total porque consertava modelos novos. Mas a experiência adquirida “em casa” lhe abriu as portas de uma conceituada concessionária que, por sua vez, o encaminhou para cursos de capacitação.
Acabou ganhando o prêmio de melhor técnico nacional e foi convidado a se especializar na China.
Mas Enzo tem suas raízes profundamente deitadas na sua procedência. Ele segue ancorado às tradições do trabalho na oficina familiar, churrasco incluído. Nesse espírito inspira confiança até nos clientes mais exigentes e reclamadores.
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Dir-se-ia um rei. Assim parece indicar a touca na cabeça, o manto de arminho, o fato de ele estar sentado num trono, usando um traje azul pomposo e um homem se inclina diante dele e este também.
Entretanto, não é um rei.
O internauta sabe quem é esse aí?
É um juiz trabalhista!
Patrões e operários reuniam-se em associações profissionais para resolver seus problemas. Essas associações tinham o nome de corporações de ofício, ou guildas.
Naquela época não havia lei trabalhista como nós a conhecemos hoje: cada profissão reunida na respectiva corporação ditava as normas e regras que guiavam o trabalho deles.
Controle de qualidade
Mas não era no sistema de deputados que se reúnem numa Assembléia ou Câmara e ditam leis que ficam valendo para todo o mundo, por exemplo, para todo o Brasil.
Essas leis feitas lá longe muitas vezes são recebidas como mais uma forma de interferência do Estado na vida dos cidadãos, ou como modelos de desconhecimento da vida real e dos problemas da categoria.
O verdadeiramente determinante era o costume: quer dizer os fabricantes de móveis, ou de salsichas tinham certos costumes para trabalhar, produzir, vender, então, pronto!
Esse costume ‒ se não era imoral, quer dizer, se não ia contra a Lei de Deus e contra o Direito Natural ‒ virava lei efetiva.
O conjunto legal assim definido é conhecido como Direito Consuetudinário.
Por vezes, o costume era transcrito no papel. Outras vezes ficava na tradição oral.
Obviamente, podiam aparecer litígios. Então as corporações de ofício escolhiam seus juízes que julgavam segundo esses códigos profissionais.
Havia assim tribunais diretamente ligados à categoria para resolver as questões trabalhistas com profundo conhecimento de causa.
Métodos honestos
Sempre eleito juiz um membro da corporação. E, para julgar as questões trabalhistas ele vestia, neste lugar, nesta cidade, com esta roupa e sentava nesse trono.
Vagamente os juízes ainda conservam certas aparências nessa linha como a toga e por vezes sentam numa poltrona mais elevada.
Na iluminura a discussão versa sobre o método de trabalho empregado pelos querelantes: o juiz esta vendo eles agirem para depois emitir sentença.
O juiz presta atenção num e depois no outro. Os dois são operários também.
Veja-se com que esplendor se vestia um juiz plebeu, um juiz de profissão trabalhista, e a respeitabilidade com que ele era considerado e respeitado.
Isso é um elemento indispensável para ter garantia de uma Justiça bem feita, neste vale de lágrimas.
(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, 22/4/1973. Sem revisão do autor).
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Na comunidade de Fuggerei, dentro da cidade de Augsburgo, na Baviera, o aluguel não sobe desde o século XVI, época em que era cobrado em florins, moeda há muito desaparecida.
Os moradores do “projeto habitacional mais antigo do mundo”, e que ali residem pagam apenas um dólar (cerca de R$ 3,20) de aluguel ao ano.
“Somos uma pequena comunidade e nos damos bem”, disse Ilona Barber, de 66 anos, à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
No bairro moram por volta de 150 pessoas que vivem em casas pitorescas, algumas das quais atravessaram os séculos com suas fachadas quase inalteradas.
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Há perto de três anos pudemos comentar um artigo vindo da França, narrando que a cerveja Westvleteren XII, produzida pelos monges trapistas da abadia de São Sixto de Westvleteren, na Bélgica, ocupava o primeiro lugar das melhores cervejas do mundo, segundo o site americano especializado www.rateBeer.com.
Mas as modas mudam. Há pressões econômicas para transformar em puro negócio aquilo que é uma tradição religiosa de vários séculos.
Também o chamado “progressismo católico” tem uma declarada animadversão aos costumes e às tradições católicas que remontam à Idade Média, uma idade de fé em que o Evangelho penetrava todas as instituições, segundo ensinou o Papa Leão XIII.
No mês de junho do presente ano (2016), o site da revista italiana “Pane & Focolare”trouxe a notícia de que os monges trapistas de São Sixto de Westvleteren prosseguem imperturbáveis a tradição de fabrico de cerveja artesanal da mais alta qualidade.
E que, em consequência, essa cerveja monacal continua sendo votada como a melhor do mundo no referido site de apreciadores da bebida. Confira.
Os monges não querem saber de um aumento de produção ou qualquer argumento econômico que possa por em perigo o recolhimento de sua vida monástica.
É sabido, no entanto, que Luís, o Jovem, São Luís e Filipe Augusto se faziam notar pela sobriedade do traje, frequentemente mais simples que o dos seus vassalos.
No que respeita ao traje militar, cometeria um erro quem imaginasse o cavaleiro medieval sob as pesadas armaduras complicadas que se veem nos nossos museus.
Elas não aparecem antes do fim do século XIV, quando as armas de fogo requerem um aparelho defensivo aperfeiçoado.
Nos séculos XII e XIII, a armadura consiste essencialmente na cota de malha, que desce até pouco acima do joelho; e no elmo, pesado e maciço a princípio, que se aperfeiçoa e suaviza depois com viseiras e fitas sob o queixo, móveis e com nasal e frontal.
Para atenuar o brilho do lorigão ou cota de malha, passava-se uma sobreveste de tecido, pano fino ou outro. As grevas e esporões completavam a farpela.
Não é possível fazer melhor ideia da indumentária de guerra da época do que através da bela estátua do Cavaleiro de Bamberg, obra-prima de harmonia e máscula simplicidade.
Mas é necessário um esforço suplementar para reconstituir o espetáculo deslumbrante que deviam apresentar os exércitos de então, com essa multidão de cascos, lanças e espadas chamejando ao sol, a ponto de a sua reverberação ter sido muitas vezes uma causa de derrota para aqueles que se encontravam desfavoravelmente orientados.
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O que surpreende nos trajes da Idade Média é a cor. O mundo medieval é colorido, e o espetáculo da rua devia ser então um encantamento para os olhos.
Perante um cenário de fachadas pintadas e de tabuletas rutilantes, o movimento desses homens e mulheres vestidos de tons vivos, contrastando com a túnica negra dos clérigos, o burel castanho dos irmãos mendigantes e a brancura extrema de uma coifa.
Não é possível no mundo moderno imaginar uma tal festa de cores, a não ser nos conhecidos desfiles na Inglaterra por ocasião do casamento de um príncipe e a coroação de um rei.
Ou então em certas cerimônias eclesiásticas, como as que se desenrolam no Vaticano.
Não se trata apenas de indumentárias de luxo, pois os simples camponeses vestem-se com cores claras, vermelhas, ocres, azuis.
A Idade Média parece ter tido horror dos tons sombrios, e tudo o que nos legou — frescos, miniaturas, tapeçarias, vitrais — testemunha essa riqueza de colorido tão característica da época.
Não se deve contudo exagerar o pitoresco ou a excentricidade do traje medieval.
Alguns pormenores, que associamos inevitavelmente aos quadros do tempo, só excepcionalmente fizeram parte da indumentária.
Os sapatos de ponta revirada, por exemplo, estiveram na moda durante meio século, não mais, no decorrer do século XV, que assistiu a não poucos exageros vestimentares.
A maior parte dos pratos não são postos em cima da mesa. As carnes põem-se num pequeno trinchante, e o mesmo se passa com as bebidas.
O escudeiro trinchador, em geral um jovem gentilhomem, tem a função de cortar para cada convidado porções de carne. Nos romances de cavalaria — como Jean de Dammartin et Blonde d'Oxford, obra de Beaumanoir — o cavaleiro servidor da dama cumpre esse papel.
Depõem-se os pedaços diretamente sobre o prato ou sobre fatias de um pão especial, conhecido como pão de trinchar, mais compacto que o pão corrente.
Este costume subsistiu em algumas regiões de Inglaterra, onde os pratos de carne não aparecem à mesa.
Com relação às bebidas, os jarros que as contêm estão sobre um aparador, e o copeiro enche jarros e taças uns após outros, à vontade dos convivas.
“Se um dos vossos serviçais cai em enfermidade, separai todas as coisas de uso comum, pensai nele muito amorosa e caridosamente, e visitai-o várias vezes; e pensai nele ou nela muito curiosamente, avançando a sua cura”.
Ela deve igualmente pensar nos “irmãos inferiores”, nesses animais domésticos que parece terem sido muito mais numerosos então do que nos nossos dias.
Não há miniatura de cenas de interior ou de vida familiar onde não figurem cães saltando ao pé dos donos, rondando em volta das mesas nos banquetes, ou ajuizadamente estendidos aos pés da dona ocupada a fiar.
Em todos os jardins se veem pavões desdobrarem ao sol a cauda luzidia. Assim, o autor do Ménagier recomenda à mulher:
“Mandai cuidar principal, cuidadosa e diligentemente dos animais domésticos, como cãezinhos e passarinhos de gaiola; e pensai igualmente nos outros animais domésticos, pois não podem falar, e por isso deveis falar e pensar por eles”.
As reservas de aves eram numerosas, e cada senhor ou burguês tinha o seu equipamento de caça, ainda que reduzido: um cão ou uma matilha, falcões, gaviões ou marelhões.
Se se gosta dos animais, não se apreciam menos as flores.
Além da rua e da casa, o cenário habitual da vida é o jardim.
Os manuscritos de iluminuras mostram inesquecíveis pinturas, com jardins cercados de muros a meia altura, sempre com um poço ou uma fonte, e um riacho que corre nas margens dos relvados.
Muitas vezes são parreiras, árvores em latadas onde acabam de amadurecer os frutos, ou ainda esses bosques de verdura onde, nos romances, cavaleiros e donzelas se encontram.
O que é notável é que a época não conhece a nossa distinção entre jardim hortícola e jardim floral.
Os canteiros acolhem flores e legumes.
Não restam dúvidas de que se achava agradáveis à vista tanto a baga desabrochada de uma couve-flor, a renda delicada das folhas de cenoura e a abundante folhagem de uma planta de melão ou de abóbora, como uma frisa de jacintos ou de tulipas.
Salve sancte custos. Pequeno livro de orações de Renée de France ornado com flores.
O pomar é objeto de passeio. É debaixo de uma velha pereira que Tristão, nas noites de luar, espera a loura Isolda.
O que não significa que não se apreciem as flores de puro enfeite, pois a nossa literatura lírica mostra-nos sem cessar pastoras e donzéis ocupados a entrançar “rosários” de flores e de folhagem.
Numerosos quadros e tapeçarias têm um fundo de florzinhas de cores suaves.
Mas se os autores das iluminuras semeiam de flores e pássaros os enquadramentos das páginas dos manuscritos, não deixam de tirar partido das plantas hortícolas, e a folha de alcachofra, estranhamente recortada, serviu de modelo a gerações de escultores, nomeadamente na época da arte flamboyant.
(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)
Falando dos cuidados vários de uma dona de casa, o Ménagier de Paris recomenda à Beata Agnès, que tem o papel de intendente:
“Ordene às serviçais que, logo de manhãzinha cedo, as entradas da vossa casa — a saber, a sala e os outros locais por onde as pessoas entram e se detêm em casa para conversar — sejam varridas e conservadas limpas; os tamboretes, bancos e xairéis, que estão sobre as arcas, sejam sacudidos e limpos do pó; em seguida os outros quartos sejam limpos e ordenados para esse dia, e de dia para dia, como é próprio do nosso estado”.
Espantar-se-ão talvez de encontrar mencionados nos inventários, como fazendo parte do mobiliário, o fundo-de-banho ou tapete-banheira, espécie de moletom que guarnecia o fundo das banheiras para evitar as farpas, quase inevitáveis quando o fundo é de madeira.
Efetivamente a Idade Média, contrariamente ao que se julga, conhecia os banhos e fazia largo uso deles.
O elemento essencial da casa medieval, sobretudo no norte da França, é a sala comum em que se reúne toda a família nas horas das refeições, e que preside a todos os acontecimentos: batismos, casamentos, velório dos mortos.
Na sala se vive, nela a família se reúne à noite diante da grande lareira, para se aquecer e contar histórias antes de ir para a cama. Isto se repete tanto nas casas dos camponeses como nos castelos.
Os outros compartimentos são apenas acessórios, o importante é a sala familiar, que os franco-canadenses chamam ainda “viveiro” (le vivoir).
Quando o nível da casa o exige, a cozinha é separada. Por vezes mesmo, nos castelos, ocupa um edifício à parte, sem dúvida para limitar os riscos de incêndio.
As vastas cozinhas de mitra da abadia de Fontevrault, as do palácio dos duques de Borgonha, em Dijon, permaneceram como eram.
Além das múltiplas salas de guarda, salas de aparato e outras que uma residência senhorial pode comportar, a casa burguesa inclui as oficinas de trabalho, se for o caso, e os quartos.
Os banheiros e higiene pessoal
Para entrar em todos os pormenores, encontramos adjacentes aos quartos os redutos chamados longaignes ou privadas, que costumamos designar como W.C.
Por espantoso que possa parecer, não faltava em nenhuma casa da Idade Média aquilo de que Versalhes estava desprovido.
A delicadeza ia mesmo muito longe neste aspecto, pois parecia pouco refinado não possuir as suas privadas particulares.
A regra manda que, pelo menos nas casas burguesas, cada um tenha as suas e seja o único a usá-las.
Os costumes só se tornaram grosseiros neste ponto a partir do século XVI, quando foram desprezadas quase todas as práticas de higiene que a Idade Média conhecia.
A abadia de Cluny, no século XI, não contava menos de quarenta latrinas.
O que poderá parecer mais incrível, embora seja igualmente verdadeiro, é que as latrinas públicas existiam na Idade Média.
Temos provas disso em cidades como Rouen, Amiens, Agen. A sua instalação e manutenção eram objeto de deliberações municipais ou entravam nas contas da cidade.
Nas casas particulares, as privadas situavam-se muitas vezes no último andar.
Banho na Idade Média.
Um conduto ao longo da escada corresponde aos esgotos ou vazadouros, ou ainda a fossas muito semelhantes às usadas atualmente.
Utilizava-se mesmo cinzas de madeira, um procedimento parecido com o das mais modernas fossas sépticas, pois têm a propriedade de decompor os detritos orgânicos.
Documentos mencionam a compra de cinzas destinadas às latrinas do hospital de Nîmes, no século XV.
No palácio de Avignon, os condutos desaguavam num esgoto que ia dar no Sorgue.
E sabe-se que foi penetrando pelas fossas das privadas — o único ponto que não se tinha pensado em fortificar! — que os soldados de Filipe Augusto se apoderaram da fortaleza de Château-Gaillard, orgulho de Ricardo Coração-de-Leão.
A mobília
Os quartos eram mobiliados com mais conforto do que geralmente se crê. O mobiliário compreende as camas “bem adornadas e cobertas de colchas e de tapetes, com lençóis brancos e peles” (Cf. Le Ménagier de Paris.), tamboretes, cadeiras de espaldar alto e esses baús e cofres esculpidos onde se guarda a roupa, de que se podem ver ainda belos espécimes nomeadamente no hospício de Beaune.
As madeiras dessa época são muito belas. Preparadas e enceradas devidamente, não absorvem a poeira e são um mau alvo para os insetos. Há ainda as arcas para o pão, os aparadores e guarda-louças.
Quanto às mesas, são simples tábuas que se montam sobre cavaletes no momento de servir, e que se guardam depois junto às paredes para não estorvarem.
Em contrapartida, faz-se muito uso de panos e tapeçarias, que protegem do frio e abafam as correntes de ar. As que nos restam — por exemplo, o admirável conjunto da Dame à la licorne, conservado no Museu de Cluny — dizem bem que partido delas se podia tirar para mobiliar e decorar os interiores;
Trata-se, evidentemente, de um luxo reservado aos castelãos e aos ricos burgueses, mas o hábito de usar tapetes e xairéis (espécie de coberturas) era geral.
(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)
Luis Dufaur Escritor, jornalista, conferencista de política internacional, sócio do IPCO, webmaster de diversos blogs Na...
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Civilização Cristã: triunfo do Evangelho em toda a vida
"O que é uma civilização cristã senão aquela em que todas as esferas da vida pública e privada, os costumes, as instituições, a cultura, a arte, a economia, a política e as leis recebem o influxo do Evangelho?"