terça-feira, 6 de novembro de 2012

Os privilégios do Vale do Roncal, exemplo de sociedade orgânica não planificada – 4

O tributo medieval das três vacas é pago com vacas pirenaicas
O tributo medieval das três vacas é pago com vacas pirenaicas

continuação do post anterior

A origem do Tributo

As executórias do Vale descrevem este velho direito com as seguintes palavras:

“Não é fácil que em Navarra, e em algum outro reino ou província, encontre-se honra tão singular como a que reside no Vale de Roncal de receber o tributo desde tempo muito antigo (dos habitantes) do Vale de Baretous, seus vizinhos, vassalos do Rei Cristianíssimo (da França), de três vacas da mesma dentadura, pelagem e cornadura, que entregam todos os anos no limite, confim e divisão dos dois reinos; e o preito de homenagem que lhe prestam os de Baretous de manter paz e subordinação aos roncaleses; e se em alguma ocasião foi-lhes recusada alguma das três vacas por defeito de uma das três qualidades, foram substituídas de noite na praça de Isaba, evitando a vergonha de serem vistos nessa ação, sem que o préstimo que os franceses tiveram na Espanha pudesse obter-lhes a dispensa de tributo tão notável”.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A despedida dos mortos aguardando reencontrá-los na Ressurreição

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Quando um membro da família senhorial vinha a falecer, era exposto na grande sala do castelo, revestido com seus mais belos ornamentos, e, freqüentemente, embalsamado.

O luto era caracterizado pela cor violeta, e mais raramente pelo preto.

Mas a viúva guardava-o habitualmente de branco, à imitação das Rainhas, às quais a etiqueta prescreve esta cor, o que explica às Rainhas-mães o titulo de 'reines-blanches'.

O caixão, recoberto de damasco dourado ou de tecido vermelho, era conduzido à igreja, não sobre os ombros de servidores ou aldeões, mas sobre os dos mais próximos parentes e dos principais vassalos.

Quando transladaram à França o relicário com os ossos de São Luis, morto em Tunis, ele foi levado até Saint-Denis por Philippe le Hardi, filho do defunto.

Os nobres carregadores vestiam, para a ocasião, longas túnicas negras com capuz, e receberam a denominação de 'pleurants'.

Acontecia de o corpo ser seguido por um personagem, que, por seus trajes, maquilagem, modo de andar e atitudes, esforça-se por se assemelhar ao senhor defunto .

Quanto aos túmulos edificados sobre a sepultura, no coro ou nas criptas da capela ou igreja, são todos, ou quase todos, do mesmo modelo: o gisante.

Ou seja, a estátua do falecido, deitada sobre a laje funerária.

Estes túmulos são também inspirados em convenções que permitem reconhecer, num olhar, certos detalhes da existência do morto.

Se o cavaleiro pereceu em campo de batalha, o escultor o representa completamente armado, espada desembainhada na mão direita, escudo à esquerda e os pés apoiados sobre o flanco de um leão deitado.

Se morreu no leito, é figurado de cabeça descoberta, sem cinto, sem espada nem escudo, tendo os pés um galgo.

Uma grade de ferro em torno da estátua, indicava que o senhor morreu no cativeiro.

Quanto às damas, sua efígie as mostra de vestido longo, mãos postas, os pés sobre o flanco de um cão, símbolo da fidelidade conjugal.

Só os muito altos senhores tinham o direito de se fazerem representar em mármore, pois este era ainda, na Idade Média, um material muito custoso e raro.

Os nobres de menor hierarquia deviam contentar-se com um gisante de pedra, do qual só o rosto e as mãos são de mármore.

Os burgueses não tinham direito senão à pedra.



(Autor : Alfred Carlier, « Sous les Voútes dos Cháteaux-Forts -- La Vie Féodale », Editions Desoer, Liège, pp. 147 a 150)





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JOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Os privilégios do Vale do Roncal, exemplo de sociedade orgânica não planificada – 3

Rapazes roncaleses com trajes típicos.
Rapazes roncaleses com trajes típicos.

continuação do post anterior

Outros privilégios do Vale, como a isenção do serviço militar fora de suas fronteiras e o livre comércio com a França, não subsistem hoje, se bem que tenham sido os roncaleses os últimos a perdê-los.

A liberdade de alfândegas com a França encontra-se reduzida atualmente ao dia de Ernaz ou do Tributo das Três Vacas.

Quanto à isenção do serviço militar ordinário, permaneceu para os roncaleses por mais tempo que para o Reino da Navarra. Por Real Cédula de Carlos III, em 1773, estabeleceu-se o sorteio e recrutamento em Navarra, apesar dos protestos da Deputação, que denunciou o contraforo.

Os roncaleses, por sua parte, amotinaram-se contra o acordo do Real Conselho que pretendia incluí-los, e negaram-se a renunciar seus privilégios, até conseguirem que se revogasse o acordo.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Os privilégios do Vale do Roncal, exemplo de sociedade orgânica não planificada – 2

El Roncal, cruz em Urzainqui, Navarra
El Roncal, cruz em Urzainqui, Navarra

continuação do post anterior


No ano do Senhor de 785 foi muito comentada a passagem que Abderraman, o grande rei de Córdoba, fez dos Pirineus pelas marcas de Aragão, com seu exército mouro.

Fugitivos horrorizados chegaram então a Roncal contando as crueldades e extermínio que na sua passagem deixavam aqueles selvagens da África.

Os mouros chegaram até Toulouse naquela sangrenta expedição, bem dentro da Gália.

À volta decidiu o rei mouro fazê-la pelos passos do Val-de-Roncal, castigando simultaneamente os habitantes do Vale que tinham escorraçado até então todas as incursões muçulmanas.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Os privilégios do Vale do Roncal, exemplo de sociedade orgânica não planificada – 1

Brasão do Vale do Roncal, Navarra, Espanha
Brasão do Vale do Roncal, Navarra, Espanha
Como 'nobreza obriga', os roncaleses, habitantes do Valle del Roncal, Espanha, estiveram sempre presentes quando se cuidou de empreendimentos comuns à defesa da Fé ou da Coroa. Daí nasceram alguns privilégios coletivos, que os roncaleses mantiveram zelosamente através dos tempos.

É curioso que enquanto sua mais remota epopéia bélica cobre-se com as brumas do mito e da legenda até o ponto de fazer os eruditos hesitarem a respeito de quando aconteceram os feitos, os privilégios derivados daqueles feitos conservam-se até nossos dias com uma vigência concretíssima, excepcional nos tempos presentes.

Dois são esses privilégios ainda atuais, recordações de outras tantas batalhas legendárias.

O primeiro consiste em que todos os roncaleses são nobres 'cavaleiros, fidalgos e infanções' com direito a usarem como próprio o escudo do Vale, de tal modo que para alguém ser armado cavaleiro das ordens militares, ainda hoje basta provar que seu sobrenome é roncalés para ficar demonstrada a nobreza do mesmo.

domingo, 29 de julho de 2012

Forte do Relógio: jóia da Veneza medieval


Veneza, Torre dell'Orologio. A cidade medievalO Forte do Relógio, constrúido por Codussi entre 1496 e 1499, é um dos monumentos arquitetônicos mais fotografados de Veneza.

O enorme quadrante situado sobre a porta de entrada da torre é uma obra-prima mecânica do final do século XV, construído por Giampaolo e Giancarlo Ranieri, artistas nascidos em Parma. O engenhoso aparelho indica as estações do ano, as horas e as fases da lua.

O edifício que figura nesta contracapa é um dos prédios mais famosos de Veneza.

Possui ele um corpo central, denominado Forte do Relógio. De cada lado há três andares que formam uma como que moldura -- muito bonita, mas discreta -- para a torre.

A torre foi concebida para ser uma homenagem a Nossa Senhora. Em sua parte mais visível vê-se uma imagem da Mãe de Deus com o Menino Jesus.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Palácio da Senhoria de Florença: seriedade e altivez

Palácio da Signoria, Florença, a Cidade Medieval
Durante muito tempo o Palácio senhorial de Florença foi a sede de governo de um pequeno Estado – o Grão-Ducado de Toscana, na Itália -- que ocupou na cultura e no pensamento humano um lugar proeminente. Foi uma grande potência do pensamento.

O palácio é típico do estilo florentino. Sua cor é bonita, o amarelado da pedra utilizada na construção apresenta aspecto agradável, nada mais do que isso.

Uma torre quadrada com relógio, janelas, algumas em forma ogival, outras puras perfurações na parede, destituídas de beleza especial.

Estamos habituados, na ótica moderna, à idéia de que a torre deve estar bem no meio do edifício. Ali não. A torre fica um pouco mais para o lado direito da fachada.

domingo, 17 de abril de 2011

Cortejo do Prefeito de Londres: resto da ordem municipal medieval

A dignidade da vida municipal numa ordem cristã se apalpa nesta cerimônia anual (aqui em 2009) em que o prefeito de Londres visita a Corte real.

O cortejo parece de um rei, mas não o é.

É bem o prefeito da cidade, com guardas municipais de honra em trajes históricos, herança da Civilização Cristã.

Veja vídeo

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Lordes hereditários atuam melhor que políticos eleitos

Apertura do ano parlamentar na Câmara dos Lordes
Um dos mais antigos órgãos de governo democrático é de origem medieval: trata-se da Câmara dos Lordes da Inglaterra.

Recentemente, porém, a nomeação de 50 novos membros da Câmara dos Lordes da Inglaterra suscitou cóleras igualitárias de uma mal-entendida "democracia".

Os lordes equivalem aos senadores em outros países, atuando também em alguns casos como ministros do Supremo Tribunal de Justiça.

São vitalícios e não eleitos, assumindo às vezes em virtude de privilégios medievais hereditários.

O jornalista Timothy Garton Ash, do jornal socialista “The Guardian”, embora avesso à nobreza e aos Lordes, reconheceu que os 714 nobres são “uma barreira contra as tendências populistas e autoritárias de um governo eleito”, e suas decisões são de “altíssimo nível”.

Concluiu afirmando: “A última coisa de que os britânicos precisam é uma versão piorada da Câmara dos Comuns, com homens fortes dos partidos sendo reciclados a partir de listas”.

Uma lição de bom senso e de genuína democracia, revelando que os melhores são os nobres independentes, nomeados em atenção a privilégios hereditários multisseculares.

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terça-feira, 16 de março de 2010

O rei Carlos VII e a estuprada semvergonha

Carlos VII

Carlos VII foi um rei medieval. Ele não sobresaiu especialmente, a não ser pelo fato de Santa Joana d'Arc tirá-lo da desgraça e de corrosivas dúvidas interiores.

Entretanto, como todos os reis medievais ungidos pela Igreja, tinha um auxílio especial para governar. Eis um exemplo característico:


Uma moça foi queixar-se a Carlos VII, da França, de que fora violentada por um rapaz.

O rei mandou comparecer diante dele o culpado, e o obrigou a entregar à moça, em sua presença, uma vultosa indenização.

Logo depois que a moça se afastou, o rei disse ao rapaz:

— Agora vá atrás dela e tome-lhe o dinheiro.

O rapaz fez como lhe foi ordenado, mas a moça resistiu valentemente.

Carlos VII tendo a seu lado Santa Joana d'Arco
O rei ordenara também aos guardas que os acompanhassem à distância e lhe trouxessem novamente à presença o casal, flagrado nessa disputa pública.

Diante do rei, a moça ainda mantinha agarrada contra o peito a bolsa contendo a indenização.

E o rei lhe disse:

— Devolva a esse moço o dinheiro que lhe deu, pois você só foi violentada porque o quis. Se tivesse defendido a própria honra com tanto empenho como defendeu o dinheiro, ele não teria conseguido violentá-la, como não conseguiu retomar o dinheiro.