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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Os privilégios do Vale do Roncal, exemplo de sociedade orgânica não planificada – 2

El Roncal, cruz em Urzainqui, Navarra
El Roncal, cruz em Urzainqui, Navarra

continuação do post anterior


No ano do Senhor de 785 foi muito comentada a passagem que Abderraman, o grande rei de Córdoba, fez dos Pirineus pelas marcas de Aragão, com seu exército mouro.

Fugitivos horrorizados chegaram então a Roncal contando as crueldades e extermínio que na sua passagem deixavam aqueles selvagens da África.

Os mouros chegaram até Toulouse naquela sangrenta expedição, bem dentro da Gália.

À volta decidiu o rei mouro fazê-la pelos passos do Val-de-Roncal, castigando simultaneamente os habitantes do Vale que tinham escorraçado até então todas as incursões muçulmanas.


Roncal, Virgen del Castillo, Navarra
Roncal, Virgen del Castillo, Navarra
Arrasando tudo, a sangue e fogo, desceram as sanguinárias hostes das marcas da França.

Os roncaleses, em número e forças insignificantes face aos invasores, reuniram-se na solidão dos montes, enquanto seus vilarejos eram saqueados e incendiados.

Para os homens não restava mais esperança do que a morte, nem outra para as mulheres do que a escravidão. Então uns e outros decidiram lançar-se na peleja a uma morte certa, mas honrosa.

Descem juntos das montanhas e caem sobre as vanguardas dos infiéis em uns largos campos próximos de Burgui, nas margens do rio.

Naquele lugar, chamado Olast ou landas de Burgui, empreendem furiosamente o desigual combate, sem outra alternativa que a de morrer valorosamente pela Fé.

Quis Deus, porém, que em pouco tempo de luta, e como por milagre, aparecesse naquele lugar o rei da Navarra, Dom Fortuno Garcia, com umas aguerridas hostes de navarros.

Este rei, sabedor do retorno do exército árabe, tinha decidido tentar uma escaramuça de punição, e sua chegada coincidira com o desesperado assalto dos roncaleses.

El Roncal, porta bandeira roncalés
El Roncal, porta bandeira roncalés
O júbilo e o ardor que este providencial encontro produziu em uns e em outros católicos, o desconcerto dos inimigos ao ignorarem que forças vinham-lhes por cima, ocasionaram prontamente um rápido e desordenado deslocamento rumo à desembocadura do Vale.

Mas, na perseguição, os naturais levavam vantagem, e decidiram não a deixar sem proveito. Conheciam os passos da Serra de Leyre por onde flui seu famoso desfiladeiro, o que lhes permitiria cair de improviso sobre o núcleo do exército fugitivo.

E assim foi como a vanguarda roncalesa conseguiu alcançar à beira do Aragão, num povoado chamado Yesa, o exército muçulmano e penetrar até o próprio quartel real e fazer prisioneiro o emir mouro.

Conta-se que, quando os homens deliberavam na ponte de Yesa sobre o destino que se haveria de dar a Abderraman, uma mulher roncalesa adiantou-se e, com um punhal, ceifou a cabeça do mouro.

Daí os roncaleses tomaram seu antigo escudo, que usam todos como próprio e como timbre de nobreza: uma ponte e, sobre ela, a cabeça ensanguentada de um rei mouro.

Monumento homenagem a Pedro Navarro, Conde de Oliveto, Navarra.
Monumento homenagem a Pedro Navarro, Conde de Oliveto, Navarra.
O rio Aragão passa por Yesa sob as ruínas de uma velha ponte conhecida como Puente de los Roncaleses.

* * *

Não menos concreta e histórica é para os roncaleses a vitória que lhes valeu o usufruto perpétuo das Bardenas Reais para invernada de seus rebanhos.

No ano de 821 avançava uma forte coluna árabe contra os redutos das montanhas da Navarra, quando o rei Dom Sancho Garcia, filho de Dom Fortuno, saiu-lhe ao atalho na região quase deserta das Bardenas.

O rei levava na sua vanguarda e em torno de si os roncaleses, que tinham ganhado esse posto de honra na batalha de Olast.

O encontro teve lugar em Ocharren, um povoado que então existia naquele território.

E resultaram tão completas a vitória católica e a dispersão dos mouros, que ali mesmo Dom Sancho Garcia concedeu aos roncaleses a guarda e usufruto perpétuo daquela terra seca mas fértil - útil somente para pastagens - pela qual continua subindo e descendo, há mais de mil anos, a coluna branca de seus rebanhos, com o alegre tilintar de seus sininhos.






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