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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Os privilégios do Vale do Roncal, exemplo de sociedade orgânica não planificada – 3

Rapazes roncaleses com trajes típicos.
Rapazes roncaleses com trajes típicos.

continuação do post anterior

Outros privilégios do Vale, como a isenção do serviço militar fora de suas fronteiras e o livre comércio com a França, não subsistem hoje, se bem que tenham sido os roncaleses os últimos a perdê-los.

A liberdade de alfândegas com a França encontra-se reduzida atualmente ao dia de Ernaz ou do Tributo das Três Vacas.

Quanto à isenção do serviço militar ordinário, permaneceu para os roncaleses por mais tempo que para o Reino da Navarra. Por Real Cédula de Carlos III, em 1773, estabeleceu-se o sorteio e recrutamento em Navarra, apesar dos protestos da Deputação, que denunciou o contraforo.

Os roncaleses, por sua parte, amotinaram-se contra o acordo do Real Conselho que pretendia incluí-los, e negaram-se a renunciar seus privilégios, até conseguirem que se revogasse o acordo.


Jovens roncaleses indo para a Missa principal.
Jovens roncaleses indo para a Missa principal.
Como contrapartida desse direito, os roncaleses tinham o dever de se manterem durante toda a sua vida útil, prestes para sustentarem suas fronteiras a qualquer momento, em defesa do rei e sob as ordens de seu prefeito-mor e 'capitão de guerra' do Vale.

Para este efeito guardavam armas em suas casas e celebrava-se anualmente o 'alardo de armas' e revista militar pelo capitão do Vale.

Em todo caso, a guerra que declarava o rei, o Vale a fazia sua expressamente, como sinal de autonomia.

E, quando na procissão da Virgem do Castelo, em Roncal, passava-se por uma elevação da qual se domina uma grande vista sobre o Vale, os espingardeiros, que em traje roncalês faziam a guarda da sagrada imagem, disparavam umas descargas à maneira de salvas, enquanto o porta-bandeira, colocando-se frente ao Vale, fazia ondular a bandeira em sinal de domínio e possessão do mesmo pelos roncaleses.

O Tributo das Três Vacas

Quando, depois da vitória de Poitiers, os francos conseguiram expulsar da Gálía os exércitos árabes procedentes da Espanha, os montanheses dos Pireneus tomaram por costume colocar nos marcos divisórios que serviam de caminho habitual, pedras de fronteira ou 'multas' sob a invocação de São Martinho, Patrono da França, com a finalidade de que seu patrocínio livrasse tais passagens de tão temíveis visitantes.

A mais famosa dessas pedras de São Martinho - quase a única cujo nome chegou até nossos dias - encontra-se na marca de Ernaz, alta e desolada marca de montanha, lá nos confins pirenaicos nos quais confluem o país de Béarn, da França, com Navarra e Aragão, da Espanha.

Trajes  masculinos roncaleses
Trajes  masculinos roncaleses
Nesse remoto outeiro, numa das mais solitárias e abruptas paragens dos Pirineus, a cerca de dois mil metros de altitude, tem lugar, em dia fixo de cada ano, e desde origens ignotas que afundam na bruma da legenda, uma cerimônia estranha e solene, apesar de seu primitivismo e rusticidade.

No dia 13 de julho de cada ano, com bom ou mau tempo, sob o sol causticante da alta montanha ou entre a compacta 'boira' (névoa) que destila frio chuvisco, por volta das dez da manhã, duas comitivas bem diferentes entre si e procedentes de uma e outra vertente dos Pirineus, reúnem-se naquele local, sem que tenha havido qualquer comunicação entre uma e outra ao longo do ano, sem que nenhuma duvide, ano após ano, e século após século, a respeito da presença dos outros no momento estabelecido.

Trata-se dos prefeitos do vale francês de Baretous, no Béarn, de um lado, e, do outro, da Junta Geral do Vale de Roncal, em Navarra. Acompanham-nos outras autoridades locais, pastores da região, guardas e carabineiros, e um grupo de curiosos que aumenta a cada ano.

Até há pouco tempo, em que novas estradas encurtaram as distâncias, essas comitivas chegavam àquela alta marca com muitas horas de íngreme subida.

Por volta das onze da manhã chega o momento da insólita cerimônia, o hoje famoso Tributo das Três Vacas.

Os prefeitos que formam a Junta do Vale de Roncal estão revestidos de seu antigo traje e chapéu de roncalis, com calça ajustada à canela, capa de tecido preto e capelo branco, que é seu hábito mais solene ou de cerimônia.

O conjunto que formam, naquele cenário de pedra, parece uma súbita revivescência da Idade Média, a fugaz imersão num passado milenar.

Cidade de Isaba, no vale de El Roncal.
Cidade de Isaba, no vale de El Roncal.
O prefeito de Isaba, que ostenta nessa cerimônia a presidência da Junta, com a vara de sua autoridade à mão, coloca-se circundado dos outros prefeitos, do secretário e das testemunhas, diante da pedra da fronteira, do lado espanhol.

Em frente, do outro lado da marca, os prefeitos franceses de três povoados, com as bandas tricolores, símbolo de sua autoridade.

Nesse momento, feito o silêncio pelos guardas do Vale, o prefeito roncalis pergunta com forte voz: “Vindes dispostos, como em anos anteriores, a pagar o tributo?”

E os prefeitos baretoneses respondem, também em castelhano: “Sim, senhor”.

Reitera o roncalis até três vezes sua pergunta, obtendo igual resposta. Então o prefeito-presidente do ano pronuncia a formula imemorial “Pax avant” – paz doravante ou continue a paz –, que repetem os bearneses.

Procede-se, a seguir, à cerimônia das mãos, que consiste em uns e outros colocá-las superpostas sobre a pedra, em sinal de paz, e, sobre todas, a do prefeito de Isaba, como testemunho de sua autoridade.

Ato contínuo, os baretoneses aproximam as vacas que fizeram subir, entre as quais os roncaleses escolhem três, que são reconhecidas por seu veterinário antes de serem aceitas como milenar tributo de guerra e testemunho de paz.

Enfim, o prefeito roncalês, como presidente da cerimônia e senhor do território, toma juramento de fidelidade aos guardas das montanhas, tanto roncaleses como baretoneses, e, recebido este, os dispensa dizendo-lhes: Se assim fazeis, Deus vos premeie; e se não, vô-los julgue”.

Pede, por último, aos circunstantes que, se alguém tiver o que alegar sobre a paz observada no ano, dê um passo à frente.

Terminada a cerimônia, e sob um alpendre montado para esse efeito, os roncaleses oferecem uma suculenta refeição, exclusivamente de carne, aos prefeitos e autoridades espanholas e francesas que estiverem presentes, repasto que se conclui com um café oferecido pelos franceses.

Durante esse almoço, em que se fala sempre em castelhano, como em toda a festa, dá-se bom vinho do país aos convivas que confraternizam alegremente.

Continua no próximo post





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