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segunda-feira, 31 de maio de 2021

A família nas origens da civilização

Casamento, Conrad Beckmann (1846 – 1902)
Casamento, Conrad Beckmann (1846 – 1902)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








A obra de Funck-Brentano “L’Ancien Régime” (Arthème, Fayard e Cie., Paris, 1937) dá-nos ocasião para tecer considerações acerca das origens da Idade Média.

Historiador de grande renome, o autor é contudo naturalista, mas suas obras nos são de grande valia, se bem examinadas, com espírito crítico.

Funck-Brentano parte da posição muito boa de que, no Estado, a matéria-prima fundamental é a família.

O Cardeal Billot, em seu livro “De Ecclesia”, discorrendo acerca do Estado orgânico, diz, magistralmente, que quem definisse o corpo humano como um conjunto de células diria um disparate, mas se dissesse ser um conjunto de órgãos diria uma grande verdade.

Com efeito, o corpo humano não é constituído simplesmente de células, mas de células que por sua vez compõem órgãos.

As unidades do corpo humano mais próximas são os órgãos.

Se alguém, olhando para uma bacia d’água, dissesse que ali há hidrogênio e oxigênio, não diria bem a realidade.

Ali existe água.

Há, de fato, hidrogênio e oxigênio, mas em estado especial, o estado de água.

Assim, quem definisse a sociedade humana como sendo constituída de indivíduos diria igual absurdo.

Ela compõe-se primacial e essencialmente de famílias.

Estas é que, por sua vez, são constituídas de pessoas humanas.

Na sociedade humana encontramos, antes de tudo, o homem vivendo em família e constituindo família.

Apenas secundariamente encontramos o indivíduo.

Família venera seu protetor São João Neopomuceno, Ferdinand Georg Waldmüller (1793 – 1865)
Família venera seu protetor São João Neopomuceno,
Ferdinand Georg Waldmüller (1793 – 1865)
A matéria prima do tecido social é portanto a família.

Funck-Brentano desenvolve a tese de que o Estado francês – e ele subentende o mesmo para todos os Estados do Ancien Régime – nasceu de uma ampliação da família, e que, de fato, os Estados não são senão famílias em ponto grande.

E ele passa a dar a origem do Estado francês, historiando o nascimento das famílias.

Ele nos dá uma das muitas teorias para a explicação do feudalismo.

É curioso que um historiador do porte de Funck-Brentano tome somente esta explicação e a imponha.

Mas esta é muito plausível, como veremos.

Os séculos mais aflitivos da História foram, certamente, quando ruiu o Império Romano do Ocidente e a Europa viu-se invadida pelas primeiras hordas bárbaras.

Os francos eram de um barbarismo o mais rude que se possa conceber.

Mas com o passar do tempo foram sendo civilizados, embora precariamente.

Nos séculos VII e VIII as hordas representavam apenas pouco menos que a barbárie.

Fora este, tão somente, e após tremenda luta, o modestíssimo fruto conseguido pela Igreja Católica.

Alguns ela arrancara ao arianismo, convertera outros, e ia conseguindo um lento processo de mitigação e dulcificação dos costumes.

Sobre esta imensa obra, ainda em começo, sopraram então, de modo verdadeiramente trágico, os tufões da adversidade.

As torneiras do mundo não cristão se abrem, e catadupas de pagãos invadem a Europa.

Da Rússia e da Prússia, regiões ainda desconhecidas, desceram bárbaros, ainda mais primitivos que os da primeira invasão, assolando, saqueando, reproduzindo os horrores antes perpetrados no Império Romano do Ocidente.

Do norte, pelo mar, vieram os normandos, de igual rudeza.

Em determinado momento, tomados de um furor navegatório, famílias, tribos, nações, o reino inteiro meteu-se em barcos e pôs-se a viajar.

Cena familiar matutina, Ferdinand Georg Waldmüller (1793 – 1865)
Cena familiar matutina, Ferdinand Georg Waldmüller (1793 – 1865)
Iam em cascas de nozes, beliscando o litoral, saqueando, comendo, arrasando.

Alguns de seus chefes intitulavam-se “reis do mar”.

Nesta sanha chegaram até Constantinopla e invadiram Bizâncio, sempre assolando tudo, fazendo por vezes incursões profundas e deixando alguns pelas terras onde passavam, que continuavam a obra de destruição.

De outro lado, vindos da Espanha e invadindo até o coração da França, surgiram os sarracenos.

Atravessaram o Mediterrâneo, atacando alguns o sul da França e outros a Itália.

Todas as forças infernais desencadeadas abateram-se sobre a Cristandade ocidental.

O desastre foi imenso.

Uma civilização que mal começa a se construir, nascida de um milagre – a conversão dos arianos e dos francos fora simplesmente milagrosa – e no momento em que inicia sua consolidação, sopram ventos tais que a tudo desconjuntam.

O fato é histórico, e Funck-Brentano a ele se reporta, sem contudo poder ver, naturalista que é, o que se passou além da ordem da natureza.

É um dos mais belos episódios da história da Igreja.

Uma civilização que não tivesse os seus recursos sobrenaturais teria sucumbido.

Teríamos visto o seu desabamento e o fim da obra.

É fora de dúvida, contudo, que foi este desastre, em grande parte, a causa do nascimento do mais extraordinário regime político e social havido na história do mundo, o feudalismo.


Continua no próximo post: A família organizou a vida social e os países

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