segunda-feira, 15 de maio de 2023

Cidade medieval: exemplo para restaurar a sociedade e a religião em crise – 2

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Continuação do post anterior: Cidade medieval: exemplo bom para restaurar a sociedade e a religião em crise, ensinou famoso arquiteto inglês – 1


 
Pugin levou seu combate para o coração das cidades industriais de Birmingham e Sheffield.

Ele as achava “minas inesgotáveis de mau gosto”, infestadas de “edifícios gregos, chaminés fumegantes, agitadores radicais e dissidentes”.

A igreja de São Chad, que Pugin construiu em Birmingham no meio da sujeira do bairro dos fabricantes de armas, tornou-se a primeira catedral inglesa construída após a de Saint Paul.

Politicamente, Pugin poderia ser definido como um radical conservador.

Ele queria reformar a sociedade levando-a de volta a uma hierarquia benigna, a um medievalismo no qual cada classe poderia olhar para a que lhe era superior e dela receber apoio, enquanto os de cima aceitavam a responsabilidade de proteger os que estavam embaixo.

Igreja de Saint Chad em Birmingham,
Uma das grandes realizações de Augustus Welby Northmore Pugin (1812-1852).
Em 1841, ele publicou a segunda edição do Contrastes, acrescentando todo um panorama moral.

A cidade medieval, com seus capiteis graciosos e suas sólidas muralhas, era confrontada com o seu equivalente moderno de muros em cacos, capiteis em ruínas e o horizonte dominado por olarias e fábricas.

Seus imitadores – todos eles mais vulgares e despreocupados – lhe roubaram grande parte da clientela.

Seu trabalho no Parlamento de Westminster havia se tornado uma rotina monótona.

Por uma triste ironia, seu último projeto, feito em janeiro de 1852, estava destinado a ser o mais famoso: a torre do relógio do Palácio de Westminster, o célebre Big Ben.

Ele morreu em setembro de 1852, aos 40 anos de idade.




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segunda-feira, 1 de maio de 2023

Cidade medieval: exemplo para restaurar a sociedade e a religião em crise – 1

Big Ben, obra mais famosa de Pugin, simbolo da Inglaterra
Big Ben, obra mais famosa de Pugin, simbolo da Inglaterra.
Todas as fotos deste post são de obras de Pugin
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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política internacional,
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O estilo de uma época pode ser um fator de regeneração social, cultural, moral e religiosa?

Evidentemente, depende do estilo.

Mas, em concreto, a arquitetura da cidade medieval poderia ser – e segundo veremos abaixo, historicamente o foi – um fator poderoso para a recuperação social e moral de um país.

E, em concreto, para a Gra-Bretanha do século XIX, segundo o mais famoso arquiteto inglês dessa época A. W. N. Pugin.

Pugin é o criador do famoso Big Ben, hoje símbolo de Londres e da Inglaterra.

Augustus Welby Northmore Pugin, nascido em Londres em 1º de Março de 1812, tinha apenas 24 anos quando publicou o livro Contrastes.

O autor ofereceu nele todo um programa que redefiniu a arquitetura como uma força moral, imbuída de significado político e religioso. Foi um primeiro ensaio sobre os problemas da cidade moderna.

Foto aérea da cidade de Tallinn, Estônia, modelo vivo de uma cidade medieval saudável, bonita que convida à virtude numa existência aprazível
Foto aérea da cidade de Tallinn, Estônia,
modelo vivo de uma cidade medieval saudável, bonita
que convida à virtude numa existência aprazível
Uma década depois, aconteceram os primeiros surtos de cólera e alguns dos piores episódios de agitação civil na história britânica.

Em Bristol o Palácio do Bispo foi queimado pelos manifestantes, e em Nottingham o castelo foi destruído.

A mensagem de Pugin era simples: se algo está errado em nossas cidades, algo está errado conosco, sendo necessárias reformas na sociedade e na arquitetura.

Em Contrastes ele defendeu um renascer da arquitetura gótica medieval, e com ela um retorno à fé e às estruturas sociais da Idade Média.

Cada desenho reproduzia um prédio urbano moderno comparado com o seu equivalente no século XV.

Assim, a representação de uma pousada no estilo tardio da época do rei George, construída grotescamente num bloco de casas geminadas, aparecia ao lado do Hotel Angel de Grantham com suas sacadas encantadoras e suas adegas repletas de cerveja.

Câmara dos Lordes, trono onde a rainha inaugura as sessões do Parlamento britânico
Câmara dos Lordes, trono onde a rainha inaugura as sessões do Parlamento britânico
Um de seus mais lucrativos empregos consistiu em fornecer detalhes decorativos para o projeto vencedor do Parlamento de Londres.

Ele desenhou alguns de seus mais admirados ambientes, como o interior da Câmara dos Lordes.

Pugin quis reconstruir a Grã-Bretanha através de uma arquitetura de tipo medieval católica.

Foi uma cruzada inimaginável, mas o sucesso foi maior do que o esperado.

Quando completou 30 anos, Pugin havia construído 22 igrejas, três catedrais, três conventos, meia dúzia de casas, escolas diversas e um mosteiro cisterciense.


continua no próximo post: Cidade medieval: ambiente bom para restaurar a sociedade e a religião em crise, ensinou famoso arquiteto inglês – 2

(Fonte: Excertos de Rosemary Hill, autora de "Arquiteto de Deus: Pugin e a construção da Grã-Bretanha romântica" (Penguin Ed.). Clarin Arquitectura, Buenos Aires, 2012/05/03)




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segunda-feira, 17 de abril de 2023

Aldeias e cidades nasceram, ou reviveram, à sombra de igrejas, conventos e catedrais

Cesky Krumlov, República Checa A cidade medieval
Cesky Krumlov, República Checa
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O clero multiplicou nossos vilarejos, fez crescer e embelezou nossas cidades. Diversos bairros de Paris, tais como os de Santa Genoveva e de Saint-Germain-l’Auxerrois, surgiram em parte às custas das abadias dos mesmos nomes.

Em geral, onde quer que se estabelecesse um mosteiro, ali se formava uma aldeia: a Chaise-Deiu, Abbeville, e muitos outros lugares levam ainda em seus nomes a marca de sua origem.

Aldeia na região de Midi-Pyrenées, França
Aldeia na região de Midi-Pyrenées, França
A cidade de Sante Salvatore, aos pés do Monte Cassino, na Itália, e os burgos circundantes, são obra dos religiosos de São Bento.

Em Fulda, Mainz, em todos os círculos eclesiásticos da Alemanha, na Prússia, Polônia, Suíça, Espanha, Inglaterra, uma multidão de cidades tiveram por fundadoras Ordens monásticas ou militares.

As cidades que saíram mais cedo da barbárie, são aquelas mesmas que estiveram submetidas a príncipes eclesiásticos.

A Europa deve a metade de seus monumentos e de suas fundações úteis à munificência dos Cardeais, dos Abades e dos Bispos.

Mas dir-se-á, talvez, que esses trabalhos não atestam senão a riqueza imensa da Igreja.

Fulda, Alemanha a cidade medieval.
Fulda, Alemanha
Sabemos que se procura sempre diminuir os serviços: o homem odeia o reconhecimento.

O clero encontrou terras incultas; nelas fez crescer as colheitas.

Tendo-se tornado opulenta pelo seu próprio trabalho, aplicou seus rendimentos em monumentos públicos.

Quando lhe recriminais bens tão nobres, tanto em seu emprego quanto em sua fonte, o acusais ao mesmo tempo de “crime” de duas benfeitorias!


(Autor: François René de Chateaubriand, « Génie du Christianisme », Garnier-Flammarion, Paris, 1966, Tomo II, pp. 219 a 226).




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domingo, 2 de abril de 2023

Como os monges resgataram a agricultura na Idade Média

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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É ainda ao clero secular e regular que devemos a renovação da agricultura na Europa, como lhe devemos a fundação dos colégios e hospitais.

Desmatamento das terras, abertura dos caminhos, aumento dos vilarejos e cidades, estabelecimento dos correios e hospedarias, artes e ofícios, manufaturas, comércio interior e exterior, leis civis e políticas; tudo enfim nos vem originariamente da Igreja.

Nossos pais eram bárbaros aos quais o cristianismo foi obrigado a ensinar até arte de se alimentar.

A maioria das concessões feitas aos mosteiros nos primeiros séculos da Igreja, era terras baldias, que os monges cultivavam com suas próprias mãos. Florestas agrestes, pântanos intransitáveis, vastas charnecas, foram a fonte dessas riquezas que tanto censuramos no clero.

Enquanto os cônegos premonstratenses trabalhavam as solidões da Polônia e uma parte da floresta de Coucy na França, os beneditinos fertilizavam nossas plantas nativas. Molesme, Colan e Cister, que se cobrem hoje de vinhas e colheitas, eram lugares de abrolhos e espinhos, onde os primeiros religiosos habitavam em choupanas de folhagens.

São Bernardo e seus discípulos fecundaram os vales estéreis que Thíbaut, conde de Champagne, lhes abandonou.

Fontevrault foi uma verdadeira colônia estabelecida por Roberto d’Arbrissel, numa região deserta, nos confins do Anjou e da Bretanha.

Famílias inteiras procuraram um asilo sob a direção desses beneditinos: formaram-se aí mosteiros de viúvas, de moças, de leigos, de doentes e de velhos soldados.

Todos tornaram-se cultivadores, a exemplo dos padres, que, eles mesmos, abatiam as árvores, conduziam o arado, semeavam os grãos, e coroavam essa parte da França com as belas messes que ela ainda não havia conhecido.

A colônia logo foi obrigada a transbordar para fora uma parte de seus habitantes, e ceder para outras solidões o supérfluo de suas mãos laboriosas. Raul de la Futaye, companheiro de Roberto, estabeleceu-se na floresta de Nid-du-Melre, e Vital, outro beneditino, nos matos de Savigny.



A floresta de l’Orges, na diocese de Angers, Chaufournois, hoje em dia Chantenois, na Touranie, Bellay na mesma província, a Puie no Poitou, e Encloître na floresta da Gironda, Gaisne a algumas léguas de Loudun, Luçon nos matos do mesmo nome, a Lande nas charnecas de Garnache, a Magdeleine sobre o Loire, Boubon em Limousine, Cadouin no Périgord, por fim Haute-Bruyère perto de Paris, foram outras tantas colônias de Fontevrault, e que, para a maior parte, de incultas que eram, mudaram-se em opulentos campos.

Fatigaríamos o leitor se empreendêssemos a enumeração de todos os sulcos que o arado dos beneditinos traçou nas Gálias selvagens. Maurecourt, Longpré, Fontaine, le Charme, Colinance, Foici, Bellemer, Cousanie, Sauvement, les Epines, Eube, Vanassel, Pons, Charles, Vairville, e cem outros lugares na Bretanha, Anjou, Berry, Auvergne, Gascogne, Languedoc, Guyenne, atestam seus imensos trabalhos.

São Columbano fez florescer o deserto de Vauge; freiras beneditinas mesmo, a exemplos dos padres de sua Ordem, dedicaram-se à agricultura; as de Montreuil-les-Dames “ocupavam-se – diz Hermann – em costurar, fiar, e desbastar os espinhos da floresta, à imitação de Laon e de todos os religiosos de Claraval”.

Na Espanha, os beneditinos desenvolveram a mesma atividade. Compraram terrenos à beira do Tejo, perto de Toledo, e fundaram ali o convento de Vengalia, após haver plantado de vinhas e laranjeiras toda a região dos arredores.

O Monte Cassino, na Itália, não era mais do que um profundo descampado: quando São Bento nele se retirou, a região mudou de face em pouco tempo, e a nova abadia tornou-se tão opulenta por seus trabalhos, que ficou em condições de se defender, em 1057, contra os normandos que lhe fizeram guerra.

São Bonifácio, com os religiosos da sua Ordem (benditina também), começou todos os cultivos nos quatro bispados da Baviera.

Os beneditinos de Fulda desbravaram entre o Hesse, a Francônia e a Turíngia, um território do diâmetro de oito mil passos geométricos, o que significava vinte e quatro mil passos ou dezesseis léguas de circunferência; em breve contaram cerca de dezoito mil quintas, tanto na Baviera quanto na Suábia: os monges de São Bento de Plirona, perto de Mantova, empregavam no labor mais de três mil juntas de bois.

Notemos, ademais, que a regra quase geral que proibia o consumo de carne nas Ordens monásticas, vem sem dúvida, em primeiro lugar, de um princípio de economia rural.

As sociedades religiosas sendo então muito numerosas, tantos homens que viviam só de peixes, ovos, leite e legumes, deveriam favorecer singularmente a propagação das raças de animais.

Assim, nossos campos, hoje tão florescentes, são em parte devedores por suas messes e rebanhos ao trabalho dos monges e à sua frugalidade.

E mais. O exemplo que com freqüência é pouca coisa em moral, porque as paixões destroem-lhe os bons efeitos, exerce grande poder sobre o aspecto material da vida. O espetáculo de vários milhares de religiosos cultivando a terra, minou pouco a pouco os preconceitos bárbaros que conferiam desprezo à arte que alimenta os homens.

O camponês aprendeu, nos mosteiros, a revirar a gleba e fertilizar o sulco. O barão começou a procurar no seu campo tesouros mais certos que os que ele tentava pelas armas.

Os monges foram, pois, realmente os pais da agricultura, tanto como lavradores eles próprios quanto como os primeiros mestres de nossos lavradores.

Até hoje eles nada perderam desse gênio útil. As mais belas lavouras, os camponeses mais ricos, os mais bem nutridos e menos vexados, os equipamentos campestres mais perfeitos, os rebanhos mais gordos, as fazendas melhor mantidas encontravam-se nas abadias. Aí não estava, parece-nos, matéria de censuras ao clero.

(Fonte : François René de Chateaubriand, « Génie du Christianisme », Garnier-Flammarion, Paris, 1966, Tomo II, pp. 219 a 226).






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