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segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Na decadência, a família medieval ainda faiscou maravilhas

Recepção nas bodas de prata de George Washington, Jean Leon Gerome Ferris (1863 – 1930)
Recepção nas bodas de prata de George Washington, Jean Leon Gerome Ferris (1863 – 1930)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







O período pós-medieval conhecido como Ancien Régime (Antigo Regime) e que vai desde o fim da Idade Média até a Revolução Francesa (aprox. de 1453 até 1789) merece magníficos elogios.

Mas isso não quer dizer absolutamente que tenha sido um regime ideal.

Ele se situa numa época em que a sociedade foi lentamente resvalando para o abismo da Revolução Francesa.

Tendo a sociedade medieval abandonado seu ideal primitivo, entrou numa rampa histórica.

E quando se acompanha detidamente este movimento descendente, vê-se até que seu resvalar não foi tão lento.

O Ancien Régime é uma era na qual se apontam muitas coisas boas, mas que não lhe são próprias, pois são aspectos medievais que ainda lhe restam.

Por outro lado, tem inúmeros pontos maus, aspectos já do Estado moderno que vai surgindo.

Aplicando-se a teoria dos intermediários, de São Tomás de Aquino, dá-se que, quem do fundo do século XX lança um olhar para o Ancien Régime e mede o abismo que dele nos separa, tem a impressão de divisar a Idade Média.

O caminho espanhol, Augusto Ferrer Dalmau (1964 - )
O caminho espanhol, Augusto Ferrer Dalmau (1964 - )
Mas quem do alto desta olhasse para o Ancien Régime, veria o longo trajeto revolucionário já percorrido, e teria a impressão de nele estar vendo já o século XX.

O elogio do historiador Funck-Brentano ao Ancien Régime não contém senões, enquanto o nosso comporta inúmeras restrições, as quais, em boa parte, foram apontadas por Tocqueville.

Em livro antigo, mas muito atual, Tocqueville mostra como a política dos reis da França consistiu incessantemente em preparar o Estado moderno, procurando acabar com a Idade Média e abafar tudo que de melhor havia na França.

Foram propriamente os reis da França – mostra-nos Tocqueville – os grandes artífices da Revolução Francesa.

Concepção relativista a respeito de Civilização Cristã

Segundo Funck-Brentano, os Tempos Modernos são diferentes do Ancien Régime, mas não maus.

Ele estuda aquela era como se poderia estudar a civilização hindu, encontrando ali muitos aspectos curiosos, mas que serviriam apenas para a Índia, num dado estágio da vida daquele povo.

Funck-Brentano não vê no Ancien Régime nenhum ideal para o qual devamos voltar, e nem sequer que tenhamos feito mal em dele nos destacar.

Cada povo tem, segundo seu modo de ver, a forma de governo que compete a cada momento de sua história.

Afonso III Gonzaga criança, conde de Novellara, 1581, Frans Pourbus
Afonso III Gonzaga criança, conde de Novellara, 1581, Frans Pourbus (1569 - 1622)
O Ancien Régime foi por isso bom, e erraríamos se o julgássemos mau.

Mas concluir daí que o modo de vida do século XX é errôneo, é uma posição que ele não toma.

Ao contrário, ele o considera bom para a época presente.

Nada há, pois, de ideológico ou de filosófico em sua atitude, no que divergimos profundamente.

O que então podemos aproveitar de Funck-Brentano? Os traços medievais do Ancien Régime, ele os descreve com maestria.

Através de tal descrição, podemos fazer uma representação concreta e histórica dos nossos ideais.

É o que procuramos desenvolver, neste apanhado sobre as origens da Idade Média.


(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, “Circular aos Sócios e Militantes da TFP” - Ano I - Nº 4 - 01 de junho de 1966, matéria extraída de anotações, sem data, não revista pelo conferencista, in PlinioCorrêadeOliveira.info).

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