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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Os privilégios do Vale do Roncal, exemplo de sociedade orgânica não planificada – 1

Brasão do Vale do Roncal, Navarra, Espanha
Brasão do Vale do Roncal, Navarra, Espanha
Como 'nobreza obriga', os roncaleses, habitantes do Valle del Roncal, Espanha, estiveram sempre presentes quando se cuidou de empreendimentos comuns à defesa da Fé ou da Coroa. Daí nasceram alguns privilégios coletivos, que os roncaleses mantiveram zelosamente através dos tempos.

É curioso que enquanto sua mais remota epopéia bélica cobre-se com as brumas do mito e da legenda até o ponto de fazer os eruditos hesitarem a respeito de quando aconteceram os feitos, os privilégios derivados daqueles feitos conservam-se até nossos dias com uma vigência concretíssima, excepcional nos tempos presentes.

Dois são esses privilégios ainda atuais, recordações de outras tantas batalhas legendárias.

O primeiro consiste em que todos os roncaleses são nobres 'cavaleiros, fidalgos e infanções' com direito a usarem como próprio o escudo do Vale, de tal modo que para alguém ser armado cavaleiro das ordens militares, ainda hoje basta provar que seu sobrenome é roncalés para ficar demonstrada a nobreza do mesmo.



El Roncal, aldea de Urzainqui, Navarra, Espanha
El Roncal, aldea de Urzainqui, Navarra, Espanha
O segundo privilégio consiste na liberdade concedida aos rebanhos roncaleses para pastarem nas Bardenas Reais.

São Bardenas certos territórios extensos, semi-desérticos, situados na margem esquerda do Aragão, os quais eram propriedade da Coroa. É para lá que se dirige a interminável coluna de ovelhas roncalesas quando a neve cobre as montanhas, através do velho desfiladeiro, numa antiquíssima e famosa migração:

À Bardena do Rei
Já vêm os roncaleses
comer miolo de pão com banha
ao menos por sete meses.

Lá permanecem até à volta da primavera, na qual torna a alegrar-se o Vale com o som familiar dos milhares sininhos de cobre, como canta a 'jota':

Já vem a primavera
já ressoam os címbalos
já voltam os pastorinhos
Com seus lenços ao ar.

Conselho Municipal de El Roncal. Joaquín Sorolla, 1914.
Conselho Municipal de Roncal. Joaquín Sorolla, 1914.
Qual é à origem histórica destes notáveis privilégios?

A respeito do primeiro, o que torna nobres todos e cada um dos roncaleses, seus filhos e descendentes, podemos ler na confirmação do foro ou privilégio outorgado pelos reis Dom João e Dona Catarina de Navarra:

“E ainda no tempo d’el-rei Dom Fortuno Garcia (os roncaleses) mataram e venceram el-rei de Córdoba chamado Abderraman, em certo lugar que tinha por nome Olast, perseguindo seu exército. O qual rei tinha matado el-rei Ordoño das Astúrias e tinha passado os montes Pireneus até a cidade de Toulouse, destruindo os fieis e a Fé Católica. Na defesa da qual os ditos roncaleses sempre tiveram bravura e vitória e sempre foram a serviço do dito rei Dom Sancho Garcia, juntamente com os outros valorosos católicos que defenderam e conservaram-se nas montanhas e dali estenderam a Fé Católica nas Espanhas. Pelo que os ditos reis predecessores nossos reconheceram e reputaram, cada um a seu tempo, que os ditos roncaleses foram, eram e são “ingênuos” ( = não-servos), infançõs e filhos-d'algo, e sempre gozaram e gozam das liberdades, honras e preeminências que os ditos infanções e filhos-d'algo gozam...”




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