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segunda-feira, 22 de julho de 2019

O charme borbulhante da vida urbana medieval

Uma feira franca em Gand. Félix de Vigne (1806-1862), Musée des Beaux-Arts de Gand
Uma feira franca em Gand.
Félix de Vigne (1806-1862), Musée des Beaux-Arts de Gand
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A partir da época em que cessam as invasões, a vida transborda os limites do domínio senhorial.

O solar começa a não se bastar mais a si próprio, toma-se o caminho da cidade, o tráfego organiza-se, e em breve, escalando as muralhas, surgem os subúrbios.

A partir do século XI, é o período de grande atividade urbana.

Dois fatores da vida econômica até então um pouco secundários, o ofício e o comércio, vão adquirir uma importância de primeiro plano.

Com eles crescerá uma classe, a burguesia, cuja influência será capital para os destinos da França, ainda que o seu acesso ao poder efetivo date apenas da Revolução Francesa, da qual será a única a tirar benefícios reais.

Pelo menos o seu poder vem de muito mais longe, porque desde a origem ela ocupou um lugar preponderante no governo das cidades.

E os reis apelavam voluntariamente aos burgueses governantes das cidades como conselheiros, administradores e agentes do poder central, nomeadamente a partir de Filipe, o Belo.

Homenagem da cidade ao duque de Borgo San Giorgio. O relacionamento do povo com as autoridades era de tipo familiar
Homenagem da cidade ao duque de Borgo San Giorgio.
O relacionamento do povo com as autoridades era de tipo familiar
A burguesia deve a sua grandeza à expansão do movimento comunal, do qual aliás é o principal motor.

Nada de mais vivo, de mais dinâmico do que esse impulso irresistível que, do século XI ao início do século XIII, leva as cidades a libertarem-se da autoridade dos senhores.

E nada mais ciosamente defendido que as liberdades comunais, uma vez adquiridas, pois os direitos exigidos pelos barões tornavam-se insuportáveis a partir do momento em que não havia mais necessidade da sua proteção.

Elas eram justificadas nos tempos de agitações, outorgas e portagens, já que representavam os gastos de polícia da estrada, e um comerciante roubado nas terras de um senhor podia fazer-se indenizar por ele.

Mas a tempos novos e melhores devia corresponder um reajustamento, que foi obra do movimento comunal.

A Idade Média concluiu desta forma, com êxito, essa necessária rejeição do passado, tão difícil de realizar na evolução da sociedade em geral.

É muito provável que, se o mesmo reajustamento tivesse sido produzido em tempo oportuno para os direitos e privilégios da nobreza, muitas desordens teriam sido evitadas.

A realeza dá o exemplo do movimento pela outorga de liberdades às comunas rurais.

A “carta de Lorris”, concedida por Luís VI, suprime as anúduvas e a servidão, reduz as contribuições, simplifica os processos em justiça e estipula por outro lado a proteção dos mercados e das feiras:

Nenhum homem da paróquia de Lorris pagará alfândega ou qualquer direito para aquilo que for necessário à sua subsistência, nem direitos sobre as colheitas feitas com o seu trabalho ou o dos seus animais, nem direitos sobre o vinho que tiver nas suas vinhas.

A ninguém será requerida cavalgada ou expedição que o impeça de regressar nesse mesmo dia a casa, se o quiser.

O ambiente de liberdade nas ruas medievais é inimaginável para nós escravos da vida moderna.
O ambiente de liberdade nas ruas medievais
é inimaginável para nós escravos da vida moderna.
Ninguém pagará portagem até Estampes, nem até Orleans, nem até Milly, em Gâtinais, nem até Melun.

E aquele que tiver a sua propriedade na paróquia de Lorris, esta não lhe poderá ser confiscada se tiver cometido qualquer delito, a menos que seja um delito contra Nós ou a nossa gente.

Ninguém que venha às feiras ou ao mercado de Lorris, ou no regresso, poderá ser detido ou perturbado, a menos que tenha cometido algum delito nesse dia.

Ninguém, nem Nós nem outros, poderá cobrar a talha aos homens de Lorris. [...]

Nenhum dentre eles fará anúduvas, a não ser uma vez por ano, para levar o nosso vinho a Orleans, e a mais nenhum lugar. [...]

E qualquer um que tenha vivido um ano e um dia na paróquia de Lorris, sem que ninguém o reclame aí, nem que tal lhe seja proibido por Nós nem pelo nosso preboste (N.T.: em Portugal, corresponde a prefeito), será a partir daí livre e franco.

A pequena cidade de Beaumont recebe pouco depois os mesmos privilégios, e em breve o movimento se desenha em todo o reino.

É um dos espetáculos mais cativantes da história a evolução de uma cidade na Idade Média. Cidades mediterrânicas — Marselha, Arles, Avignon, Montpellier — rivalizando em audácia com as grandes cidades italianas pelo comércio “deste lado do mar”.

Centros de tráfego como Laon, Provins, Troyes ou Le Mans, centros de indústria têxtil como Cambrai, Noyon ou Valenciennes, todos fazem prova de um ardor, de uma vitalidade sem igual.

Tiveram a simpatia da realeza, pois no seu desejo de emancipação ofereciam a ela a dupla vantagem de enfraquecer o poder dos grandes feudais e de trazer ao domínio real um crescimento inesperado, já que as cidades franqueadas entravam assim na dependência da coroa.

Por vezes a violência é necessária, e assistimos a movimentos populares como em Laon ou Le Mans.

Mas a maior parte das vezes as cidades libertam-se por meio de trocas, por contratações sucessivas, ou pura e simplesmente à custa de dinheiro.

Aí ainda, como em todos os detalhes da sociedade medieval, a diversidade triunfa, pois a independência pode não ser total.

Uma determinada parte da cidade, ou tal direito particular, permanece sob a autoridade do senhor feudal, enquanto o resto volta para a comuna.

Um exemplo típico é fornecido por Marselha: o porto e a parte baixa da cidade, que os viscondes partilhavam entre si, foram adquiridos pelos burgueses, bairro por bairro, e tornaram-se independentes, enquanto a parte alta permanecia sob o domínio do bispo e do capítulo; e uma parte da baía, em frente ao porto, permanecia propriedade da abadia de São Vítor.

Um dia de festa em Bitetto congrega os cidadãos junto à catedral
Um dia de festa em Bitetto congrega os cidadãos junto à catedral
Seja como for, é comum a todas as cidades o empenho em fazer confirmar essas preciosas liberdades que acabavam de adquirir, a sua pressa em se organizarem, em deixarem escritos os seus costumes, em regular as suas instituições sobre as necessidades que lhes eram próprias.

Os seus usos diferem conforme aquilo que faz a especialidade de cada uma delas: tecelagem, comércio, forragens, curtumes, indústrias marítimas ou outras.

A França conservaria durante todo o Antigo Regime um caráter muito especial, devido à existência desses costumes particulares a cada cidade, fruto completamente empírico das lições do passado.

Além disso, eram fixados com toda a independência pelo poder local, portanto o mais possível de acordo com as necessidades de cada uma.

Esta variedade, de uma cidade para outra, dava ao nosso país uma fisionomia muito sedutora e das mais simpáticas.

A monarquia absoluta teve a sabedoria de não tocar nos usos locais, de não impor um tipo de administração uniforme.

Foi esta uma das forças e um dos encantos da França antiga.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)



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