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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Como os monges resgataram a agricultura na Idade Média


É ainda ao clero secular e regular que devemos a renovação da agricultura na Europa, como lhe devemos a fundação dos colégios e hospitais.

Desmatamento das terras, abertura dos caminhos, aumento dos vilarejos e cidades, estabelecimento dos correios e hospedarias, artes e ofícios, manufaturas, comércio interior e exterior, leis civis e políticas; tudo enfim nos vem originariamente da Igreja.

Nossos pais eram bárbaros aos quais o cristianismo foi obrigado a ensinar até arte de se alimentar.

A maioria das concessões feitas aos mosteiros nos primeiros séculos da Igreja, era terras baldias, que os monges cultivavam com suas próprias mãos. Florestas agrestes, pântanos intransitáveis, vastas charnecas, foram a fonte dessas riquezas que tanto censuramos no clero.

Enquanto os cônegos premonstratenses trabalhavam as solidões da Polônia e uma parte da floresta de Coucy na França, os beneditinos fertilizavam nossas plantas nativas. Molesme, Colan e Cister, que se cobrem hoje de vinhas e colheitas, eram lugares de abrolhos e espinhos, onde os primeiros religiosos habitavam em choupanas de folhagens.


São Bernardo e seus discípulos fecundaram os vales estéreis que Thíbaut, conde de Champagne, lhes abandonou.

Fontevrault foi uma verdadeira colônia estabelecida por Roberto d’Arbrissel, numa região deserta, nos confins do Anjou e da Bretanha.

Famílias inteiras procuraram um asilo sob a direção desses beneditinos: formaram-se aí mosteiros de viúvas, de moças, de leigos, de doentes e de velhos soldados.

Todos tornaram-se cultivadores, a exemplo dos padres, que, eles mesmos, abatiam as árvores, conduziam o arado, semeavam os grãos, e coroavam essa parte da França com as belas messes que ela ainda não havia conhecido.

A colônia logo foi obrigada a transbordar para fora uma parte de seus habitantes, e ceder para outras solidões o supérfluo de suas mãos laboriosas. Raul de la Futaye, companheiro de Roberto, estabeleceu-se na floresta de Nid-du-Melre, e Vital, outro beneditino, nos matos de Savigny.



A floresta de l’Orges, na diocese de Angers, Chaufournois, hoje em dia Chantenois, na Touranie, Bellay na mesma província, a Puie no Poitou, e Encloître na floresta da Gironda, Gaisne a algumas léguas de Loudun, Luçon nos matos do mesmo nome, a Lande nas charnecas de Garnache, a Magdeleine sobre o Loire, Boubon em Limousine, Cadouin no Périgord, por fim Haute-Bruyère perto de Paris, foram outras tantas colônias de Fontevrault, e que, para a maior parte, de incultas que eram, mudaram-se em opulentos campos.

Fatigaríamos o leitor se empreendêssemos a enumeração de todos os sulcos que o arado dos beneditinos traçou nas Gálias selvagens. Maurecourt, Longpré, Fontaine, le Charme, Colinance, Foici, Bellemer, Cousanie, Sauvement, les Epines, Eube, Vanassel, Pons, Charles, Vairville, e cem outros lugares na Bretanha, Anjou, Berry, Auvergne, Gascogne, Languedoc, Guyenne, atestam seus imensos trabalhos.

São Columbano fez florescer o deserto de Vauge; freiras beneditinas mesmo, a exemplos dos padres de sua Ordem, dedicaram-se à agricultura; as de Montreuil-les-Dames “ocupavam-se – diz Hermann – em costurar, fiar, e desbastar os espinhos da floresta, à imitação de Laon e de todos os religiosos de Claraval”.

Na Espanha, os beneditinos desenvolveram a mesma atividade. Compraram terrenos à beira do Tejo, perto de Toledo, e fundaram ali o convento de Vengalia, após haver plantado de vinhas e laranjeiras toda a região dos arredores.

O Monte Cassino, na Itália, não era mais do que um profundo descampado: quando São Bento nele se retirou, a região mudou de face em pouco tempo, e a nova abadia tornou-se tão opulenta por seus trabalhos, que ficou em condições de se defender, em 1057, contra os normandos que lhe fizeram guerra.

São Bonifácio, com os religiosos da sua Ordem (benditina também), começou todos os cultivos nos quatro bispados da Baviera.

Os beneditinos de Fulda desbravaram entre o Hesse, a Francônia e a Turíngia, um território do diâmetro de oito mil passos geométricos, o que significava vinte e quatro mil passos ou dezesseis léguas de circunferência; em breve contaram cerca de dezoito mil quintas, tanto na Baviera quanto na Suábia: os monges de São Bento de Plirona, perto de Mantova, empregavam no labor mais de três mil juntas de bois.

Notemos, ademais, que a regra quase geral que proibia o consumo de carne nas Ordens monásticas, vem sem dúvida, em primeiro lugar, de um princípio de economia rural.

As sociedades religiosas sendo então muito numerosas, tantos homens que viviam só de peixes, ovos, leite e legumes, deveriam favorecer singularmente a propagação das raças de animais.

Assim, nossos campos, hoje tão florescentes, são em parte devedores por suas messes e rebanhos ao trabalho dos monges e à sua frugalidade.

E mais. O exemplo que com freqüência é pouca coisa em moral, porque as paixões destroem-lhe os bons efeitos, exerce grande poder sobre o aspecto material da vida. O espetáculo de vários milhares de religiosos cultivando a terra, minou pouco a pouco os preconceitos bárbaros que conferiam desprezo à arte que alimenta os homens.

O camponês aprendeu, nos mosteiros, a revirar a gleba e fertilizar o sulco. O barão começou a procurar no seu campo tesouros mais certos que os que ele tentava pelas armas.

Os monges foram, pois, realmente os pais da agricultura, tanto como lavradores eles próprios quanto como os primeiros mestres de nossos lavradores.

Até hoje eles nada perderam desse gênio útil. As mais belas lavouras, os camponeses mais ricos, os mais bem nutridos e menos vexados, os equipamentos campestres mais perfeitos, os rebanhos mais gordos, as fazendas melhor mantidas encontravam-se nas abadias. Aí não estava, parece-nos, matéria de censuras ao clero.

(Fonte : François René de Chateaubriand, « Génie du Christianisme », Garnier-Flammarion, Paris, 1966, Tomo II, pp. 219 a 226).






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Um comentário:

  1. Ola, gostaria de trocar links com vocês.
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    Deus te abençõe

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