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segunda-feira, 18 de março de 2019

Simbolismo e valor da ponte na ordem medieval

A Ponte de São Carlos em Praga
A Ponte de São Carlos em Praga
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







A ponte é um hífen entre dois caminhos. Quando o caminho para no lado de num abismo de um rio ou de um vale profundo é necessário uma ponte sobre ele.

A ponte é um traço de união, não é nem uma parte do caminho, nem a outra do caminho; tem como que individualidade própria. Ela é ponte.

E porque a ponte é filha da inteligência humana, ela tem uma nobreza própria e se entendeu sempre que ela devia ter uma beleza própria.

Daí o fato de as pontes mais antigas, cujos quadros, figuras em mosaico; em pergaminhos, em vitrais etc. nós podemos contemplar, terem alguma coisa que as diferencie do resto do caminho.

A Ponte de Londres
Pode ser a menor das pontes num pequeno caminho de roça; ou pode ser a ponte mais monumental de um grande rio, sempre se concebeu a ponte como algo de nobre, bonito, que merece ter uma fisionomia própria.

Por exemplo, a famosa ponte sobre o Tâmisa, que se abre em dois para deixar passar os navios que sulcam o rio intensamente comercializado e industrializado.

E que depois se fecha de novo para que sobre ele passe o trânsito da grande capital inglesa.

De um lado e de outro, foram construídas duas torres monumentais.

Quando o leito da ponte está abaixado e sobre ele passa o trânsito tem então a impressão de firmeza, de solidez, de força.

Quando está levantado se tem a impressão de solenidade: as duas partes da ponte se abrem lentamente como que ignorando o que se passa aos pés.

Essa ponte tem uma fisionomia própria tal que foi fotografada, filmada de todos os modos possíveis no mundo inteiro.

Há pontes muito bonitas em outro gênero. Uma delas é a ponte que conduz ao Castelo de Santo Ângelo, em Roma.

É uma torre imensa, construída para servir de jazigo ao imperador Adriano.

Ela foi utilizada durante a Idade Média como um castelo fortificado, onde as tropas dos pontífices se acantonavam para a defesa da cidade Eterna.

Há até uma obra de engenharia que não é bonita, mas que tem seu quê de épico.

É uma longa arcada que acompanha o casario, ocultando um caminho coberto, que leva sobre arcos do Vaticano ao Castelo de Santo Ângelo.

Quando havia invasões ou os Papas se sentiam ameaçados, eles passavam depressa por essa ponte coberta até o Castelo de Santo Ângelo, que é uma fortificação completa.

A passagem chamada Passetto di Borgo vista desde Castel Sant'Angelo.
A passagem chamada Passetto di Borgo vista desde Castel Sant'Angelo.

Não ficava inteiramente de acordo com o lugar religioso onde está sepultado São Pedro.

Então, os Papas aliando o belo e o piedoso ao prático e ao forte, fizeram esse caminho secreto.

Ele tem a beleza dos apuros do Papado nos antigos tempos, e da saída inteligente desse poder que presidiu os mais belos combates da história, que foram as Cruzadas, de maneira a aliar a força à piedade.

E triunfaram do paganismo transformando a sepultura do velho imperador pagão em a fortaleza do Papa.

Outra ponte monumental liga a cidade de Roma por cima do rio Tibre ao Castelo de Santo Ângelo, dedicado ao Arcanjo São Miguel que apareceu no alto dele e deu sinal de fim de uma epidemia que grassava na cidade.

Então a ponte é dedicada aos Anjos e é toda ornada com imagens de santos e de anjos.

E indulgenciada, quer dizer, quem percorre essa ponte rezando determinadas orações, acaba ganhando indulgências fabulosas.

Sobre o velho Tibre romano os anjos lançaram uma ponte monumental.

Os fiéis percorriam rezando sobre as águas do rio, mais ou menos indicando que a intercessão dos anjos conduz sobre os abismos que vão desta terra até o outro mundo.

E que quando nossas almas forem apresentadas a Deus, o serão pelos Anjos.

Mas há pontes de uma simplicidade maravilhosa, que não é a simplicidade calvinista, fria, mal humorada e imbecil da Revolução.

Mas é feita de equilíbrio, de distinção e de uma beleza que está apenas na forma dos arcos e mais nada.

E diz coisas inenarráveis.

Ponte que conduz ao Castel Sant'Angelo
Ponte que conduz ao Castel Sant'Angelo
Essa ponte é a mais bonita das muitas pontes que cortam o Sena: é o Pont Neuf, construído sob Henrique IV.

É apenas um conjunto de arcos que lembram ogivas.

Esses arcos se refletem na água única do Sena.

Só a água do rio Arno, em Florença é comparável à água do Sena.

São duas super-águas.

Quem não conheceu essas duas águas, eu duvido que tenha uma ideia inteira do que é água.




(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de palestra pronunciada em 26.8.78, sem revisão do autor)



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