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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Na Idade Média, a Europa encheu-se de escritores, artistas, monumentos e invenções

Escola medieval. Disciplina e aprendizado.
Escola medieval. Disciplina e aprendizado.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Quanto ao ensino primário, também estava largamente difundido na Idade Média.

Em muitas regiões da Europa, havia escolas primárias gratuitas, funcionando ao lado de cada igreja paroquial, de forma a ministrar a instrução elementar a todos os indivíduos de todas as classes sociais.

As escolas primárias, como as superiores, estavam, na Idade Média, sob a alta orientação do Clero e da Igreja, que mantinha a unidade de pensamento do mundo cristão e portanto sua unidade política e a unidade de sua cultura, por meio da autoridade espiritual que cabe à Igreja Católica.

Os últimos séculos da Idade Média se caracterizaram por um extraordinário florescimento das letras e das artes.

Apareceram, então, artistas e intelectuais que podem ombrear com os maiores que a humanidade tenha conhecido em qualquer tempo.

Sem me referir novamente a São Tomás de Aquino, o maior filósofo de todos os tempos, nem a São Boaventura, Santo Anselmo, Alberto Magno Duns Scott e muitos outros, cujos nomes convém que retenham desde já, vamos ao terreno literário.

Neste terreno, os três principais nomes são italianos. Dante (1265-1321) autor da "Divina Comédia" que faz dele um dos maiores poetas de todos os tempos, Petrarca (1304-1374) cujas canções e sonetos lhe valeram merecidamente a imortalidade, e Boccácio, (1313-1375), autor do "Decameron", célebre coleção de histórias, são três escritores em nada inferiores aos maiores que o mundo tenha produzido. Froissart, Joinville, Villehardouin, Pérez del Pulgar e outros, também foram escritores medievais de valor.

Dante Alighieri, autor que foi ponto de partida da língua italiana
Dante Alighieri, autor que foi ponto de partida da língua italiana
Os nomes de muito dos artistas medievais não nos são conhecidos.

As maravilhosas catedrais da Idade Média, entre as quais se destacam especialmente a de Reims, Chartres, Paris, Colônia, Westminster, etc., estão cheias de obras de arte do maior valor, principalmente de estátuas dignas de figurar entre as mais famosas do mundo.

Infelizmente, porém, eles não deixaram seu nome à posteridade, porque trabalhavam sem a preocupação de granjear a celebridade.

As obras de arquitetura da Idade Média são dignas de figurar entre as mais famosas do mundo, e suas proporções excederam de muito às dos grandes monumentos gregos ou romanos.

Assim, a famosa Catedral de Notre Dame de Paris, obra de Maurice de Sully, tem dimensões incomparavelmente maiores do que as do Parthenon de Atenas.

Entre os nomes mais famosos nas artes da Idade Média, pode ser mencionado Claus Sluter, de origem alemã ou holandesa, que trabalhou na corte dos duques de Borgonha (1389-1405) onde, entre outras coisas famosas, esculpiu o célebre "Poço de Moisés".

A Idade Média conheceu invenções verdadeiramente notáveis. Três dentre elas merecem especial menção: a bússola, a pólvora e a imprensa.

Não há muita certeza a respeito do modo pelo qual a Europa medieval chegou ao conhecimento desses importantes fatores de civilização. É certo que os chineses os conheceram desde muito cedo.

Em todo o caso, se não se afirmar que os europeus os descobriram sem se servirem para isto do conhecimento do que se fazia na China ‒ o que se poderia ter dado por meio dos árabes ‒ é certo ao menos que os Europeus aperfeiçoaram notavelmente tanto a bússola, quanto a pólvora e a imprensa, de sorte a lhes darem uma utilidade extraordinária, desconhecida aos chineses.

Catedral de Salisbury, Inglaterra. Os bispados deviam manter escolas gratuitas para alunos de todas as classes, e lhe fornecer alimentação e vestimentas sem cobrar nada.
Catedral de Salisbury, Inglaterra. Os bispados deviam manter escolas gratuitas
para alunos de todas as classes, e lhe fornecer alimentação e
vestimentas sem cobrar nada.
Foram os medievais, os primeiros a tirar todo o proveito, para a navegação, das agulhas imantadas que se dirigem sempre para o Norte. Com pleno aproveitamento dessa propriedade, nasceu a bússola.

Foram os medievais, que conseguiram ‒ e infelizmente não trouxeram com isto grande vantagem à civilização ‒ utilizar a pólvora, não apenas como fogo de artifício à moda dos chineses, mas como eficientíssimo meio de combate.

Foram ainda os medievais, que conseguiram inventar a imprensa. A imprensa em madeira ‒ xilografia ‒ já era conhecida na Europa desde o XII século, mas seu desenvolvimento maior datou do século XV, quando Gutenberg, natural da Mogúncia, inventou os caracteres móveis de metal.

Também foi na Idade Média, no X século, que começou a ser utilizado o papel na Europa, em lugar do pergaminho.

Quanto à pólvora, discute-se se é a Alberto Magno, a Rogerius Bacon ou a Bertholdo Schwartz, que cabe a glória de ter inventado ou introduzido na Europa a pólvora de canhão, não se sabendo também, ao certo, se foi somente durante a guerra dos cem anos, ou já antes disto, que a pólvora começou a ser utilizada durante os combates.

É conveniente que os senhores notem uma característica importante destas invenções: elas, por si só, pouco significam.

O que elas têm de interessante é que tornaram possíveis imensos progressos dos quais elas eram instrumentos quase indispensáveis.

Libro de Orações. O Imperio Romano deixou um continente de escravos analfabetos. A Idade Média fez da Europa um continente de homens livres, alfabetizados e moralizados.
Libro de Orações. O Imperio Romano deixou um continente de escravos analfabetos.
A Idade Média fez da Europa um continente de homens livres, alfabetizados e moralizados.
Veja-se, por exemplo, a bússola. As grandes navegações de que resultaram o descobrimento da América e o contato com a ­sia, não teriam sido possíveis se não existisse a bússola.

O mesmo se deu com o papel e a imprensa: a geral divulgação das letras não seria tão fácil se não tivessem sido inventadas de antemão a imprensa e o papel.

O mesmo, ainda, se deu com a pólvora. Toda a formidável evolução da estratégia militar, veio substituir os antiquados e imensos castelos da Idade Média pelas que achou-se ser moderníssimas e subterrâneas “linhas Maginot”, não seria possível sem a invenção da pólvora que, na realidade, preparou todas as transformações que as artes bélicas têm sofrido. Isto, sem falar nos grandes proveitos industriais que a utilização da pólvora permite.

Essas invenções são bem características da Idade Média que, no terreno do progresso, foi sobretudo um período de elaboração e preparação fecundas.

Sem essa elaboração e as invenções preliminares a que ela deu lugar durante a própria Idade Média, o progresso material do mundo não teria sido, nem tão magnífico nem tão rápido, e certamente não teria atingido o esplendor a que chegou.

(Fonte: Curso “História da Civilização”, preleção do Dr. Plinio Corrêa de Oliveira (Resumo ditado para exame). Colégio Universitário anexo à Faculdade de Direito do Largo São Francisco, por volta de 1940.)



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terça-feira, 8 de abril de 2014

Sociedade orgânica e urbanismo

Praça de Santa Maria Formosa, em Veneza. Pintura do século XVIII
Praça de Santa Maria Formosa, em Veneza. Pintura do século XVIII


À direita, um pequeno palácio, do qual só se pode ver uma parte. Os personagens, que parecem haver participado de um ensaio, se dispersam lentamente, pela praça vazia.

De um e outro lado, edifícios residenciais, uns mais distintos, e com certo ar de nobreza, e outros mais populares. Desses edifícios, alguns têm lojas no andar térreo.

Dir-se-ia um pequeno mundo pacífico e harmônico, até certo ponto fechado em si mesmo, no qual existem lado a lado as várias classes sociais, nobreza, comércio, trabalhadores manuais, unidas em torno da igreja ao fundo, que, com seu "campanile", domina digna e maternalmente o quadro, enriquecendo o ambiente com sua mais alta nota espiritual.