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terça-feira, 30 de maio de 2017

Testemunho concludente:
a dignidade do camponês na arte medieval

A dignidade dos camponeses se reflete em suas roupas e na distinção no trabalho.
A dignidade dos camponeses se reflete em suas roupas e na distinção no trabalho.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Valerão como um hino à glória do camponês as miniaturas das Très riches heures du Duc de Berry ou o Livre des prouffictz champestres, iluminado pelo bastardo Antoine de Bourgogne, ou ainda os pequenos quadros dos meses na fachada de Notre-Dame e em tantos outros edifícios.

Notemos que em todas estas obras de arte, executadas pela multidão ou pelo amador nobre, o camponês aparece na sua vida autêntica: removendo o solo, manejando a enxada, podando a vinha, matando o porco.

Haverá uma outra época, uma só, que possa apresentar da vida rural tantos quadros exatos, vivos, realistas?

Que individualmente determinados nobres ou determinados burgueses tenham manifestado desdém pelos camponeses, é possível e mesmo certo.

Mas isso não existiu em todas as épocas?

A mentalidade geral, contando com hábitos sarcásticos da época, tem muito nitidamente consciência da igualdade fundiária dos homens no meio das desigualdades de condição.

O jurista Philippe de Novare distingue três tipos de humanidade:

as “gentes francas”, isto é, “todos aqueles que tiverem franco coração; [...] e aquele que tiver coração franco, donde quer que tenha vindo, deve ser chamado franco e gentil, porque se é de um mau lugar e é bom, tanto mais honrado deve ser”.

Mercado de frutas e verduras. Afresco no Castello di Issogne, Val d'Aosta.
Mercado de frutas e verduras. Afresco no Castello di Issogne, Val d'Aosta.
A qualidade das roupas e da saúde dos camponeses rivaliza com as dos citadinos.
As “pessoas de ofício” e os “vilões”, isto é, aqueles que não prestam serviço senão constrangidos pela força, “todos aqueles que o fazem são justamente vilões, quer fossem servos ou jornaleiros. [...] Fidalguia e valor de antepassados não faz senão prejudicar um mau herdeiro desonrado”.

Poderíamos citar grande número dessas proclamações de igualdade.

Será possível dizer, de modo mais geral, que uma pessoa que ocupou um lugar de primeiro plano nas manifestações artísticas e literárias de uma nação tenha podido ser por ela desprezado?

Sobre este ponto, como sobre tantos outros, confundiram-se as épocas.

Aquilo que é verdade para a Idade Média não o é para tudo aquilo a que chamamos o Antigo Regime.

A partir do fim do século XV produz-se uma cisão entre os nobres, os letrados e o povo.

Futuramente as duas classes viverão uma vida paralela, mas penetrar-se-ão e compreender-se-ão cada vez menos.

Venda de secos e molhados, Castello di Issogne, Val d'Aosta. Proporcionalidade das diversos graus da ordem social.
Venda de secos e molhados, Castello di Issogne, Val d'Aosta.
Proporcionalidade das diversos graus da ordem social.
Como é natural, a alta sociedade drenará para si a vida intelectual e artística, e o camponês será banido da cultura como da atividade política do país.

Desaparece da pintura — salvo raras exceções, mas em todo caso da pintura em voga — da literatura, como das preocupações dos grandes.

O século XVIII já não conhecerá senão uma cópia completamente artificial da vida rural.

Que do século XVI até nossos dias o camponês tenha sido desprezado, pelo menos desdenhado e mal conhecido, não resta qualquer dúvida.

Mas também está fora de questão que na Idade Média ele teve um lugar de primeira ordem na vida do nosso país.


(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)



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Um comentário:

  1. Olá Luiz Dufaur.
    Já faz algum tempo coleciono sua postagens sobre "a cidade medieval". Sou apaixonada com a história daquela época (idade média) e tenho planos de conhecer alguma cidade medieval; sei que na Europa tem muitas.
    Muito bacana sua iniciativa, mas não concordo com seu otimismo quando mostra a vida do camponês (população pobre) como digna,
    farta e respeitada. Leio muito sobre isto, faço pesquisas e nunca encontrei nada que condiz com sua versão.
    Tudo que os registros históricos nos conta é que eram tiranizados, explorados, eram vistos e tratados como animais de carga(com um pouquinho de inteligência), aliás que raramente podiam usar.
    Minha pergunta: Onde encontra esta versão tão humana e civilizada? Sinceramente não é uma crítica, mas uma curiosidade... Se puder me responder, ficarei agradecida.
    Obrigada,

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