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terça-feira, 18 de outubro de 2016

A cidade onde os moradores
pagam R$ 3,20 de aluguel por ano há cinco séculos

Moradias populares medievais em Fuggerei (Augsburg) a preço irrisório, o mesmo de há cinco séculos.
Moradias populares medievais em Fuggerei (Augsburg) a preço irrisório,
o mesmo de há cinco séculos.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Na comunidade de Fuggerei, dentro da cidade de Augsburgo, na Baviera, o aluguel não sobe desde o século XVI, época em que era cobrado em florins, moeda há muito desaparecida.

Os moradores do “projeto habitacional mais antigo do mundo”, e que ali residem pagam apenas um dólar (cerca de R$ 3,20) de aluguel ao ano.

“Somos uma pequena comunidade e nos damos bem”, disse Ilona Barber, de 66 anos, à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

No bairro moram por volta de 150 pessoas que vivem em casas pitorescas, algumas das quais atravessaram os séculos com suas fachadas quase inalteradas.

Hoje são objeto de visitas de turistas.



Jakob Fugger, com seu principal contador M.Schwartz. Ao fundo: os dossieres das sucursais de seu banco. Pintura, de 1517, Herzog-Anton-Ulrich-Museum, Braunschweig.
Jakob Fugger, com seu principal contador M.Schwartz.
Ao fundo: os dossieres das sucursais de seu banco.
Pintura, de 1517, Herzog-Anton-Ulrich-Museum, Braunschweig.
O bairro tem ainda um museu e dispõe de um apartamento modelo para os curiosos visitarem. E esses são perto de 180 mil por ano.

Fuggerei foi fundado em 1521 pelo comerciante e banqueiro Jakob Fugger, “o Rico”.

Ele destinou parte de sua fortuna para construir um complexo residencial dedicado aos necessitados da cidade.

Mas as condições exigidas por escrito para viver em Fuggerei, além da carência econômica, exigiam ser católico e rezar três vezes por dia.

Essas condições seguem vigentes para os moradores, mas segundo Astrid Gabler, porta-voz de Fuggerei, cumprir ou não com as orações depende de cada morador.

O complexo conta com uma igreja e um padre, que também vive ali.

As portas devem ser fechadas às 22hs.

Quem volta para casa depois desse horário é multado entre 50 centavos de euro e um euro (entre R$ 1,80 e R$ 3,60), dependendo do atraso.

A aposentada Ilona Barber conta que a pensão que recebe do Estado é “muito limitada” e não poderia pagar um aluguel na cidade.

“Nós, moradores, fazemos trabalhos para a comunidade. Eu agora estou encarregada da vigilância durante a noite”, afirma ela.

Para ganhar uma moradia popular em Fuggerei, não bastava ser pobre. Era preciso ter boas costumes e rezar diariamente. Oratório público a São Miguel Arcanjo.
Para ganhar uma moradia popular em Fuggerei,
não bastava ser pobre.
Era preciso ter boas costumes e rezar diariamente.
Oratório público a São Miguel Arcanjo.
Jakob Fugger foi um potentado imortalizado por Albrecht Dürer, o pintor mais famoso do Renascimento alemão.

“Fugger nunca foi celebrado como Cosimo de Médici e seus filhos e primos florentinos”, escreveu a revista britânica The Economist.

“Mas era o melhor banqueiro. Se hoje estivesse vivo, teria arrasado em Wall Street ou na City (o distrito financeiro) de Londres”, acrescentou.

Ele foi o continuador de uma família abastada e elevou a fortuna familiar agindo no comércio e na mineração.

O exemplo de Fuggerei ajuda a compreender o grande equilíbrio da ordem medieval.

Esse equilíbrio provinha de almas que procuravam estar em ordem com Deus e com a Igreja Católica.

Por isso, um riquíssimo não precisava de lei alguma ou de pregação subversiva do tipo “teologia da libertação” para agir caridosamente com os necessitados.

Esse relacionamento mais espiritual e moral católico do que econômico ficou abalado pela Renascença e pelo protestantismo.

Martinho Lutero, o grande agitador da Reforma protestante, tempesteou contra o banqueiro.

“Lutero perguntou se era um desígnio de Deus que tanta riqueza e influência ficassem concentradas nas mãos de uma só pessoa”, cita o diário financeiro Financial Times em um artigo sobre Fuggerei publicado em 2008.

Fuggerei também tem sua artística capela.
Fuggerei também tem sua artística capela.
O banqueiro criou um fundo em nome do santo local, São Ulrich, mediante uma doação de 10 mil florins.

O fundo garantiria recursos suficientes para manter o funcionamento das organizações de caridade que criou.

Os investimentos da família ao longo dos séculos e os juros que eles renderam asseguraram a sobrevivência de Fuggerei até a atualidade.

A dinastia Fugger ainda existe hoje como uma família nobre na Alemanha.

Tudo com muito senso da tradição. Sem dirigismo, sem planificação, sem intervenção onímoda do Estado, do governo local, da prefeitura ou de qualquer outro.

Fuggerei é um vestígio sorridente da grande harmonia medieval de homens que por vezes podiam ter seus defeitos e praticar ações criticáveis, mas eram bem influenciados pelo ambiente geral impregnado de espírito católico.



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2 comentários:

  1. Nossa! Gostaria de passar uma temporada lá. Deve ser muito interessante de vivenciar tudo isso. Grata pela partilha!

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  2. O lugar deve ser lindissimo e tranquilo.
    Ainda mais pagando este valor !!

    Parabéns pelo tópico.

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