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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Como eram as casas das cidades medievais

Reconstituição de uma moradia camponesa. Museu de Lourdes.



O elemento essencial da casa medieval, sobretudo no norte da França, é a sala comum em que se reúne toda a família nas horas das refeições, e que preside a todos os acontecimentos: batismos, casamentos, velório dos mortos.

Na sala se vive, nela a família se reúne à noite diante da grande lareira, para se aquecer e contar histórias antes de ir para a cama. Isto se repete tanto nas casas dos camponeses como nos castelos.

Os outros compartimentos são apenas acessórios, o importante é a sala familiar, que os franco-canadenses chamam ainda “viveiro” (le vivoir).

Quando o nível da casa o exige, a cozinha é separada. Por vezes mesmo, nos castelos, ocupa um edifício à parte, sem dúvida para limitar os riscos de incêndio.



As vastas cozinhas de mitra da abadia de Fontevrault, as do palácio dos duques de Borgonha, em Dijon, permaneceram como eram.

Além das múltiplas salas de guarda, salas de aparato e outras que uma residência senhorial pode comportar, a casa burguesa inclui as oficinas de trabalho, se for o caso, e os quartos.

Os banheiros e higiene pessoal

Para entrar em todos os pormenores, encontramos adjacentes aos quartos os redutos chamados longaignes ou privadas, que costumamos designar como W.C.

Por espantoso que possa parecer, não faltava em nenhuma casa da Idade Média aquilo de que Versalhes estava desprovido.

A delicadeza ia mesmo muito longe neste aspecto, pois parecia pouco refinado não possuir as suas privadas particulares.

A regra manda que, pelo menos nas casas burguesas, cada um tenha as suas e seja o único a usá-las.

Os costumes só se tornaram grosseiros neste ponto a partir do século XVI, quando foram desprezadas quase todas as práticas de higiene que a Idade Média conhecia.

A abadia de Cluny, no século XI, não contava menos de quarenta latrinas.

O que poderá parecer mais incrível, embora seja igualmente verdadeiro, é que as latrinas públicas existiam na Idade Média.

Temos provas disso em cidades como Rouen, Amiens, Agen. A sua instalação e manutenção eram objeto de deliberações municipais ou entravam nas contas da cidade.

Nas casas particulares, as privadas situavam-se muitas vezes no último andar.

Banho na Idade Média.
Banho na Idade Média.
Um conduto ao longo da escada corresponde aos esgotos ou vazadouros, ou ainda a fossas muito semelhantes às usadas atualmente.

Utilizava-se mesmo cinzas de madeira, um procedimento parecido com o das mais modernas fossas sépticas, pois têm a propriedade de decompor os detritos orgânicos.

Documentos mencionam a compra de cinzas destinadas às latrinas do hospital de Nîmes, no século XV.

No palácio de Avignon, os condutos desaguavam num esgoto que ia dar no Sorgue.

E sabe-se que foi penetrando pelas fossas das privadas — o único ponto que não se tinha pensado em fortificar! — que os soldados de Filipe Augusto se apoderaram da fortaleza de Château-Gaillard, orgulho de Ricardo Coração-de-Leão.

A mobília

Os quartos eram mobiliados com mais conforto do que geralmente se crê. O mobiliário compreende as camas “bem adornadas e cobertas de colchas e de tapetes, com lençóis brancos e peles” (Cf. Le Ménagier de Paris.), tamboretes, cadeiras de espaldar alto e esses baús e cofres esculpidos onde se guarda a roupa, de que se podem ver ainda belos espécimes nomeadamente no hospício de Beaune.

As madeiras dessa época são muito belas. Preparadas e enceradas devidamente, não absorvem a poeira e são um mau alvo para os insetos. Há ainda as arcas para o pão, os aparadores e guarda-louças.

Quanto às mesas, são simples tábuas que se montam sobre cavaletes no momento de servir, e que se guardam depois junto às paredes para não estorvarem.

Em contrapartida, faz-se muito uso de panos e tapeçarias, que protegem do frio e abafam as correntes de ar. As que nos restam — por exemplo, o admirável conjunto da Dame à la licorne, conservado no Museu de Cluny — dizem bem que partido delas se podia tirar para mobiliar e decorar os interiores;

Trata-se, evidentemente, de um luxo reservado aos castelãos e aos ricos burgueses, mas o hábito de usar tapetes e xairéis (espécie de coberturas) era geral.

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)


Um quarto de dormir medieval. Museu do Louvre.




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