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terça-feira, 30 de junho de 2015

Fé, senso artístico, bem-estar popular na civilização orgânica e cristã

Prefeitura de de Tolosa, Espanha.
Prefeitura de de Tolosa, Espanha.




Se Antero de Figueiredo houvesse feito pela causa da Revolução, e especialmente pela do comunismo, todo o bem que fez pela Igreja, seria ainda hoje, no Brasil, um escritor famoso.

Todas as oficinas de popularidade que a esquerda tem tão numerosas e ativas, celebrariam amiúde a original beleza de seu estilo, a sua "verve", seu pensamento profundo, substancioso e límpido, bom como a finura de seu senso de observação.

E numerosos críticos católicos, da cátedra e da imprensa, diriam encomplexados e enfáticos: "quanto a esse grande, esse imortal escritor, embora não tenha eu bem precisamente suas idéias, compraz-me em reconhecer e proclamar com a mais intransigente imparcialidade que teve de sobejo as seguintes qualidades...", e viria em continuação a cantilena laudatória copiada com humildade e precisão dos textos da propaganda subversiva.



Mas acontece que Antero foi católico, e, crime ainda mais grave, católico genuíno, apóstolo destemido e eficiente da Contra-Revolução.

Eis porque vai caindo no olvido. É que o mesmo complexo feito de pouca fé, de tibieza e de faceirice, que nos leva a ser turiferários da Revolução, nos tira a altaneria necessária para afirmar em face dela os verdadeiros valores da verdadeira cultura, verdadeiramente católica.

* * *

Transcrevamos pois uma passagem de Antero, em que ele glorifica um dos mais belos aspectos do que é o povo na civilização cristã ("Espanha", 4ª edição, pp. 280-285).

Casa na cidadezinha de Elorrio, Vizcaya, Espanha.
Casa na cidadezinha de Elorrio, Vizcaya, Espanha.
Bem o contrário da massa anônima, vazia, cansada e revoltada dos bairros proletários nas grandes cidades modernas, é esse povo hispânico estuante de fé, transbordante de personalidade e de saúde, das Vascongadas.

Os filhos da Guipuzcoa — parte das Vascongadas — se reputam todos fidalgos, mesmo quando são simples trabalhadores do campo... sem  reforma agrária. E Antero de Figueiredo nos dirá porque.

Nossos clichês, com casas da Biscaia — também parte integrante das Vascongadas — ilustram adequadamente as descrições do literato português. Descrições que constituem um excelente conjunto de observações sobre a sociedade orgânica, qual floresceu na Espanha, nossa nobilíssima e cristaníssima irmã.

* * *

"É nestes verdes outeiros (da Guipuzcoa) que assenta a casa basca, típica, de lavradores, casa ao mesmo tempo rústica e senhorial, — singela nas suas linhas aldeãs, nobre no seu aspecto grave, e pitoresca no conjunto. ( ... ) aqui é que ela, a casa basca, é como Deus a deu, quero dizer simples e natural, autóctone, nascendo do solo e do clima, para servir o lavrador em suas precisões domésticas, agrícolas, pastoris, e também em seus brios de raça de lavradores-cavaleiros, como assim se consideram estes rústicos vasconços de avoengas linhagens.

Casa de camponeses, no Parque Natural del Gorbeia, País Vasco, Espanha. Hoje é hotel disputado por turistas.
Casa de camponeses, no Parque Natural del Gorbeia, País Vasco, Espanha.
Hoje é hotel disputado por turistas.
"...Hidalgos todos, que por derecha línea descendían de la primera sangre", como diz Lope de Vega dos navarros aldeões de Baztan.

Ela é sempre um casarão de paredes sólidas, onde se encontra num só edifício o que em outras terras anda separado em construções distintas: a casa de habitação do amo, a dos servos, os currais, os palheiros, os alpendres dos carros, das caniçadas, do arado, das grades — de toda a alfaia agrícola.

"O basco instala debaixo do mesmo teto a família, os criados, os gados, os fenos, a adega do vinho, a tulha da azeitona, o celeiro do grão, Nestas casas, o enorme telhado de duas águas (...) diz a vida patriarcal que em comum fazem homens, mulheres, crianças, animais, utensílios, coisas, albergando todos e tudo sob a sua proteção.

"Na fachada, esse beiral colabora esteticamente com sua sombra; materialmente, com seu conforto; moralmente, com seu carinhoso gesto de abrigo.

"Que honrados e afetuosos são estes telhados e beirais! Dão a impressão de que, nas longas seroadas invernosas, à hora benta da leitura dos livros santos e das rezas em comum, todas as pessoas e coisas — família, servos, arados, rocas, a masseira do pão, os tonéis da sidra, as talhas do azeite — acompanham as orações do senhor e amo; e que nos currais os rebanhos se quedam em silêncio religioso e as almas dos brutos e as dos objetos se cristianizam, ouvindo as palavras de Jesus.

Casa popular em Martindozenea, Guipúzcoa, Espanha.
"(...) Para o primeiro andar sobe-se por uma exterior escada de pedra, com alpendre à entrada - galilé de religioso e hospitaleiro acolhimento. O arquiteto, a visar somente a função útil do edifício, pensou menos, talvez, na função bela da construção; no entanto, esta lá floriu espontânea, logicamente nascida do próprio arranjo arquitetônico, em ornatos tão naturais que sua arte é da melhor por ser arte em que se não vê propósito de o ser.

"Assim, são ornato os grossos cachorros do beiral, que vêm a ser o prolongamento (topos apenas cabeçados, e arestas apenas afagadas) do forte travejamento, galgado com o da cumeeira, e vindo de fora a fora, das traseiras à frontaria, com é também o grande telhado, que desce e esborda nas ilhargas sustidas por espeques, cuja fileira, obliquando da parede às telhas vermelhas, toma, na perspectiva, o aspecto de lanças paralelas, enristadas, a sustentar um toldo carmesim: - o beiral.

"Nos andares de enxaiméis, para melhor segurar os enchimentos de barro e cal, as vigas ao alto têm de ser próximas e salientes; e, pintadas de verde, - seus traços verticais, eqüidistantes e simétricos, ornam a fachada.

"O pouco acabamento, em apicoado grosso, no calcáreo amarelento do arco e nos umbrais da entrada para as lojas, é tão bem cabido que dir-se-ia um rústico florentino; e, pelo cunhal acima, as agulhas de pedra, grandes e pequenas, que o vão travando, postas à vista e em relevo, tostadas pelo sol e musgadas pelo tempo, adornam a fachada com as suas rachas coloridas a destacarem-se na cal.

"As paredes exteriores da casa enchem-se de cores - luz e sombra - dos topos e das fileiras dos barrotes que sustentam o varandão, e pela cepa que por sobre o seu peitoril debruça festões de parras verdes ligados aos verdes dos campos e das copas das faias - fundos em que ela pousa.

"E nenhuma destas famílias de lavradores deixa de patentear suas crenças religiosas e seus pergaminhos heráldicos: cravados nas paredes há velhos baixos-relevos de Santas ou Santos protetores do casal, ao lado de pedras de armas, nesta região em que o maior número se julga fidalgo, porque, segundo o basco Perochegui, "Vascongadas e Navarra são o seminário da nobreza de Espanha", visto Sancho VIII, "El fuerte", agasalhador dos aldeões navarros, a todos haver feito fidalgos: - "todos igualmente nobles, porqué su nobleza tiene una sola origen", dizia".
ANTERO DE FIGUEIREDO


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