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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Majestade e dignidade até no simples chefe de família popular

continuação do post anterior

Estudando essa idéia da participação do poder real na hierarquia feudal, chegamos a uma consideração de outra ordem, relacionando a distinção pessoal de cada homem com a dignidade que lhe confere a função ou o cargo que ocupa.

Tipos de grandeza na hierarquia feudal

Quando nos referimos ao rei, dizemos que ele tem uma tal grandeza que chamaríamos de majestade.

Nesse conceito, a majestade é aquele tipo de grandeza que constitui propriamente o seu pináculo, e que corresponde ao poder real.

Abaixo do rei, seria impróprio dizer que um duque, por exemplo, tem majestade. Diríamos que ele tem elevação, alteza, distinção, eminência, mas não majestade.

A alteza, a distinção, a eminência, são o próprio dom da majestade, mas num grau menor.

Do mesmo modo, não podemos nos referir a um conde, a um marquês, como nos referiríamos a um duque, dizendo que tem alteza ou eminência. A expressão seria demasiada.


Poderíamos dizer que um conde tem saliência, relevo, destaque, projeção, mas não alteza ou eminência. É, portanto, mais uma redução.

De um nobre menos elevado, poderíamos dizer simplesmente que tem fidalguia, isto é, ele é um homem um pouco mais saliente, um pouco mais distinto, um pouco mais elevado, mas que já toca na massa geral dos outros homens.

E analisando mais profundamente este conceito, vemos que essas idéias de dignidade, de majestade, de distinção, de elevação, tão freqüentes na Idade Média, podem também aplicar-se, embora com menos plenitude, às pessoas da plebe.

A majestade num simples chefe de família camponês

Quando consideramos um chefe de família medieval, ainda que seja um simples camponês, poder-se-ia dizer que ele, ao sentar-se em seu por assim dizer trono, para presidir as refeições de sua numerosa família, o faz com majestade.

Era costume entre os camponeses de certa região da Espanha que o chefe da família, ao sentar-se para presidir a mesa com vinte, trinta, cinquenta pessoas de sua casa, dissesse “comeremos pues”, e todos repetiam “comeremos pues”; após o que recitava a oração, que se dizia em Navarra: “Que o Menino Jesus, que nasceu em Belém, abençoe a pátria, o rei e a nós também”. E iniciava-se a refeição.

Analisando esse quadro, poderíamos dizer com toda propriedade que havia ali a majestade simples do patriarca, do homem rude do povo.

É certamente uma majestade campesina, de lavrador, mas sente-se aí uma grandeza da natureza, de seiva, de terra, que também tem a sua majestade.

Poder-se-ia falar em distinção no povo? Certamente. O próprio camponês espanhol, quanto não tem de distinção e de garbo?

Assim, tudo quanto dissemos da nobreza poder-se-ia dizer analogamente também da plebe, embora com menos plenitude.

Verificamos deste modo que estes conceitos de nobreza e de majestade não repousam numa só classe social, uma vez que o mesmo conceito pode aplicar-se ao menor e ao mais simples deles. “O rei é pai dos pais, e o pai é rei dos filhos” – dizia-se na França antiga. E isto, quer quanto às família nobres, quer quanto às do povo.

A bondade intrínseca do ser e a majestade moral

Em Jó deitado no seu monturo, limpando sua lepra com um caco de telha, carregando o seu infortúnio com frases inspiradas e sublimes, falando com Deus, apostrofando seus adversários, impressionando toda a posteridade, quanto de majestade não havia!

Ora, como podemos falar de majestade num homem que está reduzido ao último grau de humilhação? Esta majestade que há nele, o que significa? Mando? Poder? Ou é algo diferente e superior a isto, cujo conceito seria preciso procurar?

Aquilo que chamamos de distinção, nobreza, majestade, elevação, e que pode existir em todos os seres racionais, não é outra coisa senão a bondade intrínseca do ser.

Ensina-nos a filosofia que todo ser, enquanto ser, é bom. Esta bondade, esta excelência intrínseca do ser, faz com que ele, pelo fato de ser, seja bom.

E seja bom não apenas no sentido moral da palavra bom, que se condiciona à virtude, mas seja ontologicamente bom. É um ser que tem valor por ser aquilo que é.

A bondade do ser está em que ele seja aquilo que é. Quando o homem inteligente toma conhecimento dessa dignidade intrínseca do ser e mostra-se, pelo seu livre-arbítrio, à altura de sua bondade de ser inteligente, racional e livre, então ele adquire uma elevação que não é comparativa de nada, mas deduzida de sua própria natureza, de seu próprio ser.

Assim, o mais ínfimo dos homens, consciente do que é ser homem, e mais ainda, do que é ser um cristão, e um bom cristão, pode elevar-se a uma verdadeira majestade moral.

Isto é tão verdadeiro, que a Igreja canonizou uma santa que nos serve de exemplo característico: Beata Ana Maria Taigi.

Ela era dona de casa em Roma. Entretanto, andando pelas ruas, o fazia com um porte tão majestoso que as pessoas instintivamente recuavam para lhe dar passagem.

Isto não vinha de ela ter servidores e arrogar-se em grande, pois nesse caso não seria santa.

A Igreja jamais canonizaria uma cozinheira que quisesse fazer-se passar por duquesa. Isto lhe advinha apenas dessa plenitude de dignidade humana, fruto da correspondência perfeita à graça.

E há inúmeros fatos como este na história da Igreja. Santos houve, por exemplo, que por seu simples aspecto barraram o caminho a bárbaros, ou impuseram silêncio aos adversários.

É ilustrativo um episódio da história da invasão dos holandeses protestantes na Bahia, que ousaram arrombar um convento de freiras.

A superiora do mosteiro colocou-se simplesmente em frente a eles, barrando-lhes a entrada, e eles voltaram atrás.

continua no próximo post: A personalização dos cargos enchia de dignidade todas as classes sociais


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