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terça-feira, 20 de julho de 2010

Limpo como na Idade Média: abordagem histórica da época que cultou a higiene

A higiene não é uma descoberta dos tempos modernos, mas “uma arte que o século de Luiz XIV menosprezou e que a Idade Média cultuou com amor”, escreveu a historiadora Monique Closson, autora de numerosos livros sobre a criança, a mulher e a saúde no período medieval.

No estudo de referência “Limpo como na Idade Media”, a historiadora mostra com luxo de fontes que desde o século XII são incontáveis os documentos como tratados de medicina, ervolários, romances, fábulas, inventários, contabilidades, que nos mostram a paixão dos medievais pela higiene. Higiene pessoal, da cozinha, dos talheres, etc.

As iluminuras dos manuscritos são documentos insubstituíveis onde os gestos refletem o “clima psicológico ou moral da época”.

O zelo pela higiene veio abaixo no século XVI, com a Renascença e o protestantismo.

Milhares de manuscritos, diz Closson, ilustram o costume medieval.

Bartolomeu o inglês, Vicente de Beauvais, Aldobrandino de Siena, no século XIII, com seus tratados de medicina e de educação “instalaram uma verdadeira obsessão pela limpeza das crianças”.

Eles descrevem todos os pormenores do banho do bebê: três vezes ao dia, as horas, temperatura da água, perto da lareira para não pegar resfriado, etc..

As famosas Chroniques de Froissart, em 1382, descrevem a bacia no mobiliário do conde de Flandes, de ouro e prata. As dos burgueses eram de metais menos nobres e as camponesas em madeira.

A Idade Média atribuía valor curativo ao banho, como ensinava Bartolomeu o Inglês no Livro sobre as propriedades das coisas.

Na idade adulta os banhos eram quotidianos. Os centros urbanos tinham banhos públicos quentes copiados da antiguidade romana. Mas era mais fácil tomar banho quente todo dia em casa.

Na época carolíngia os palácios rivalizavam em salas de banho com os monastérios, que muitas vezes tinham ambulatórios para doentes e funcionavam como hospitais.

Em Paris, em 1292, havia 27 banhos públicos inscritos. São Luis IX os regulamentou em 1268.

Nos séculos XIV e XV, os banhos públicos tiveram um verdadeiro apogeu. Bruxelas, Bruges, Baden, Dijon, Digne, Rouen, Strasbourgo, Chartres... grandes ou pequenas as cidades os acolhiam em quantidade.

Eram vigiados moral e praticamente pelo clero que cuidava da saúde pública. Os hospitais mantidos pelas ordens religiosas, eram exímios e davam o tom na matéria.

Regulamentos, preços, condições, etc., tudo isso ficou registrado em abundantes documentos, diz Closson.

Dentifrícios, desodorantes, xampus, sabonetes, etc., tirados de essências naturais, são elencados nos tratados conhecidos como ervolários feitos nas abadias.

Historiadores como J. Garnier descreveram com luxo de detalhes os altamente higienizados costumes medievais.

As estações termais também eram largamente apreciadas. Flamenca, romance do século XIII faz o elogio da estação termal de Bourbon-l'Archambault. Imperadores, príncipes, ricos-homens os freqüentavam na Alemanha, Itália, Países Baixos, etc.

A era do ensebamento começou com o fim da Idade Média e durou até o século XX, conclui Monique Closson.

Ao menos até que os movimentos hippies, ecologistas, neo-tribais, etc. voltaram a pôr na moda andar sujo , sem barbear, vestido com blue-jeans e outras peças que estão ou fingem estar em farrapos ou com manchas, que vemos todos os dias na rua, nos transportes, aulas e locais de festa!

(Fonte : Monique Closson, "Propre comme au Moyen-Age", Historama N°40, junho 1987)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Prefeitura de Bremen: grande nave flutuando num mar de pedras

O teto da prefeitura de Bremen tem uma beleza especial. O teto foi muito utilizado como elemento de decoração. Por exemplo na Catedral de Santo Estevão em Viena, e em outros prédios da Idade Média, se aproveitavam ardósias de cores diversas e faziam-se desenhos bonitos. O golpe de vista é magnífico.

O teto é todo ele de cobre azinhavrado. Com o tempo ele fica com esse verde lindo, de esmeralda. Parece todo feito de uma pedra preciosa.

Por outro lado, o prédio é alegre; se o teto fosse preto ficaria de um peso medonho: Mas, o verde turmalina comunica alegria e leveza para todo o edifício. Ele dá impressão de que sobe. O Paço não é uma caixa d'água, um quadradão, mas tudo nele convida para elevar-se.

A impressão ascensional é acentuada por três grupos de janelas.

É o tipo perfeito de teto. O teto não deve pesar, mas deve dar a idéia de uma coisa que convida para subir.

A parte debaixo é levíssima também. Ela é composta de uma série de ogivas que dão para uma galeria aberta, onde as pessoas podem passear e ficar em tempo de chuva. Como se trata de um edifício público era preciso que todo mundo pudesse ficar no edifício se

A galeria acompanha a linha geral do edifício formando um movimento variegado, mas muito leve. O resultado é que a parte intermediária, que poderia pesar um pouco, fica tão leve que é um verdadeiro encanto.



As janelas são tão grandes que na parte central tomam dois andares. Elas são quase o dobro das janelas laterais que já são altas.

Esses quadradões janelões sem apoio nenhum deveriam ficar de um peso enorme. Mas, como puxa para cima, como apóia no chão com muita leveza, como as janelas são esguias, o prédio todo dá uma idéia de conto de fadas pela diferença das cores: verde, vermelho claro, entremeado com o beige das pedras.

Há um jogo de cores tão claro, delicado, leve que a gente poderia ter a impressão de que se se colocasse esse prédio sobre uma jangada, ele flutuaria sobre as ondas e não iria para o fundo. Daria, aliás, um lindíssimo palácio flutuante.

Pelos seus imponderáveis, o paço dá a impressão de uma grande nave que flutua numa praça que é um mar de pedras. Há qualquer coisa de aquático indefinido dentro disso, que é a verdadeira beleza do prédio. O prédio é um encanto.

O Paço Municipal de Bremen tem muitas reminiscências góticas e contrasta com a Catedral, que é um misto de gótico e de romano. Enquanto este prédio sorri, a Catedral, pelo contrário, tem qualquer coisa de majestoso, de forte e de sério, que lembra um dos aspectos da Igreja Católica: Sua divina severidade.

Esta é uma das mil maravilhas da Europa antiga que o espírito pro¬gres¬sista procura de todos os modos insultar, e que os tratadistas de arte e de história procuram desvirtuar. Porque, a descrição de um edifício desses com as técnicas atuais é inteiramente oposta.

É assim: “Rathaus da cidade de Bremen, século tanto; material empregado: brique tirado de terra especial que se encontra na montanha tal, de onde lhe vem por tal reação química a consistência e a durabilidade do seu vermelho.

Resultado: a gente tem a impressão de que está descrevendo um cadáver. É um pouco como quem diante do cadáver de São Sebastião, em vez de dizer: “Pro-consul romano, chefe da guarda pretoriana imperial” e fazer um belo comentário, não!:

“São Sebastião; cadáver encontrado na catacumba de tal, etc, pelo famoso arqueólogo Fulano do Tal; é o número tanto do grande álbum de não sei o quê, intitulado tal coisa assim. Esse cadáver mostra que São Sebastião tinha um metro e tanto, por tanto de largo, etc., etc. Discute-se pelos seus traços se ele era da Ilíria ou da Macedônia. Há a esse respeito duas federações de associações, cada uma delas sustentando um ponto de vista. É de se notar que as armaduras que ele traz são de aço de tal, o que vem provar que o exército romano temperava os seus metais de tal maneira assim”.

Um jovem que ouve no museu um comentário desse tem vontade de sair correndo. Porque isto é a morte no seu aspecto mais horroroso, que é a coisa reduzida a esqueleto.

Aí a gente não tem a sensação da morte mas da perenidade. Não é possível que uma coisa destas esteja definitivamente morta. Não é da glória de Deus.

Ele não pode permitir que uma coisa destas tenha desaparecido da Terra e que nunca mais algo de análogo vá brilhar como um valor que oriente os homens. Se isto fosse assim, era para o mundo terminar logo, porque que haja novos séculos e novas civilizações construídas sobre o conspurcado de tudo isso é impossível, a glória de Deus não permite.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, 14.8.67, não revisto pelo autor)

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