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terça-feira, 25 de maio de 2010

As estirpes familiares na origem da grande ordem do feudalismo - 3

Estamos diante de um dos fatos primordiais da história da humanidade. Quando estas tribos semi-civilizadas foram empurradas para o alto dos montes e para detrás dos pântanos, começou a nascer uma série de estirpes.

Uma estirpe é algo muito diverso de uma família.

O que é uma família? É a conjunção de pai, mãe e filhos. Basta haver pais legitimamente casados para que haja família.

Estirpe, contudo, é bem diverso. A língua francesa, que é muito precisa, fala em source, ou seja, fonte, origem. Eles tanto dizem source de uma família quanto source de um rio.

O que vem então a ser a source de uma família?

O que é um homem-estirpe? Aquele que funda uma estirpe é um homem com personalidade bastante vigorosa para criar uma família que mantém a hereditariedade de seus principais traços morais e físicos; é um homem que dá aos seus uma formação suficientemente forte para que o impulso inicial que ele comunica a uma determinada ordem de coisas continue depois dele; é um homem que funda uma escola de modo de sentir, de agir, de ser, de vencer dificuldades, que funda um pequeno sistema de vida.

É preciso ter muito mais personalidade para fundar uma estirpe do que para governar um Estado. Isto, qualquer político o faz. Mas para fundar uma estirpe é preciso ter uma personalidade pujantíssima; e para que ela seja lançada em sentido sadio, é preciso que seja pujantemente sadia.

O admirável neste momento da história européia é que essas famílias, escorraçadas, banidas, lançadas ao sumo infortúnio, reagem; e formam-se estirpes por toda parte, as estirpes nobres da Europa.

Essas estirpes que nascem, e que vão marcar mil anos de História, nascem no infortúnio o mais atroz. Pelo seu vigor natural, e sobretudo pela correspondência que seus membros deram à graça de Deus, a família abandonada, isolada, deu origem à família nobre, e o conjunto das famílias nobres deu origem à Europa. Eis a verdadeira história do feudalismo.

Entre os sucessores de Carlos Magno, ficou assentado que os cargos seriam vitalícios e hereditários; isto era já um princípio de feudalismo.

Mesmo no tempo de Carlos Magno ele já nomeava condes, que eram os grandes proprietários de determinada região.

Vê-se que ele já tinha o intuito de apoiar a administração central sobre os valores locais autênticos. Por outro lado, podemos afirmar que um conjunto de fatores que nasciam das entranhas cristãs da sociedade do tempo preparava esta distribuição justa de cargos.

Não há dúvida, pois, que tudo isto concorreu muito para a criação do feudalismo. É uma convergência de circunstâncias. Ele nasceu de tantos fatores, que seria mais certo apontá-lo como resultante da convergência deles.

Nosso Senhor Jesus Cristo constituiu feudalmente, de direito divino, a Sua Igreja. 

O bispo é o senhor feudal de que o Papa dispõe. 

Seria normal, portanto, que das entranhas da sociedade cristã nascesse naturalmente o feudalismo, não como a única forma possível de organização da sociedade, mas a mais adequada, a mais compatível com a ordem divina.

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terça-feira, 11 de maio de 2010

A família na origem do feudalismo e do Estado medieval - 2

No topo dos morros, refúgios para escapulir dos bárbaros
Diante das destruições dos bárbaros, os homens mais civilizados, horrorizados com o que sucedia, co-meçaram a galgar os montes e montanhas, fixando-se nos pontos menos acessíveis.

De tal modo que os normandos, passando, não tivessem vontade de atingi-los.

Começaram, por outro lado, a fixar culturas e a construir casas por detrás dos pântanos, nos lugares chamados marécage, zonas pantanosas atrás das quais há regiões férteis.

Frederico de Sonneburg, Codex Manesse
Os bárbaros, que percorriam os caminhos das grandes cidades, não os encontravam, por estarem escondidos por detrás dos pântanos, nas montanhas, nas regiões as mais inóspitas.

Eram fugas desordenadas, levadas a efeito pelo pavor. Por isso fugiam, não cidades inteiras, mas grupos de famílias. E cada qual para onde podia.

Em presença da rudeza da natureza e dos adversários que os atacavam de to-dos os lados, não tendo mais um Estado que os governasse – pois que os reis, fracos e sem nenhum poder, não podiam fazer chegar suas ordens a esses lugares absoluta-mente recônditos – ficaram reduzidos à célula inicial da sociedade, a família.

Esta foi a organização natural primeira que lhes permitiu sobreviver.

Apareceu então o paterfamilias desta célula que era ao mesmo tempo um pequeno exército, uma pequena unidade religiosa, um pequeno núcleo de produção, constituindo em cada ponto do território um pequeno país.

Em cada um destes grupos sociais, um homem, em geral de envergadura maior, tomava a direção.

Ele era o suporte natural daquela coletividade em debandada.

Era um homem de personalidade muito ampla, dotado do poder de chefiar, da perspectiva dos perigos, da capacidade de organizar, e no qual todos encontravam ponto de apoio.

Ele organizava a vida. Sua prole herdava suas qualidades e herdava suas funções.

Em torno deste homem e desta família princeps começaram então a se agluti-nar as famílias dos fugitivos, constituindo pequenas unidades sociais, que eram naturalmente monárquicas e familiares.

Monárquicas pela presença de uma autoridade única inquestionável; familiares porque, em essência, o que havia era o chefe com sua grei, e depois os agregados que ali entravam como pessoas admitidas, toleradas, semi-assimiladas, mas que não constituíam propriamente a essência daquela unidade, que se consubstanciava no chefe e na sua família.

Funck-Brentano (“L’Ancien Régime”, Arthème, Fayard e Cie., Paris, 1937) dá-nos uma descrição em extremo pitoresca – no que ele é exímio – de uma dessas pequenas aldeias de tipo fundamentalmente familiar, que vai se formando.